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OPINIÃO

Lara Pastorello PanachuK: "Um lugar ao sol"

Bacharel em Direito e especialista pela Fempar
01/04/2020 01:00 - Da Redação


Caro leitor, diante do cenário de isolamento social, proponho que estas breves linhas, em vez de artigos com temas jurídicos, sejam crônicas em que se estabeleçam diálogos entre uma obra literária e a realidade atual. Com qual livro iniciar a empreitada? Não é momento para as grandes tragédias tão apreciadas pela “alta literatura”, mas, sim, para personagens mais humanas, com questões cotidianas e vontade de viver. Subitamente, salta-me aos olhos Um lugar ao Sol, de Érico Veríssimo (1936). Uma xícara de café fumegante e um sofá confortável. É hora de começar.

Eis que das páginas do livro – ambientada na Porto Alegre da década de 1930 – vão surgindo personagens envoltas em cores, sons e aromas. Recém-chegada da fictícia Jacarecanga, a professorinha Clarissa dissipa os fantasmas do passado com sonhos e expectativas, indo ao encontro de seus alunos, sem perceber o pianista Amaro, que a observa ao longe e suspira “ela é música pura”. Seu primo Vasco aventura-se por todos os cantos da cidade, com desenhos e escritos, anseios de liberdade e preocupações financeiras.

Da atmosfera de uma casa de chá alemã, semiocultos pelo véu dos cigarros, aparecem o misterioso Conde Oskar e a provocante Anneliese. O tímido Noel, com romances e música clássica, tem sua blindagem contra o mundo real dissipada aos poucos por Fernanda, a jovem que tem a serenidade no olhar. Os assobios do vento, o serpentear do trem rumo a Porto Alegre, o estofo fantástico comum ao passado e às lendas, a quietude das estrelas, o vai e vem das pessoas e dos automóveis, os pessegueiros floridos e o compasso das estações percebido com as alterações da laranjeira no quintal. E quanto ao sol? Ah, os problemas do dia anterior dissipam-se sob o calor do sol da manhã, o alaranjado pôr do sol no Rio Guaíba enternece os corações e é substituído pelo anoitecer violáceo e enigmático.  

Concluída a leitura, aproximo-me da janela. Parece-me, agora, que o cenário apresenta tonalidades vivificadas. A extensa folhagem verde está salpicada de flores vermelhas – em forma de campânulas – muito apreciadas pelos graciosos beija-flores. Revoadas de passarinhos ao redor dos bicos de papagaio (ah, para eles, não há limites de aglomeração). O céu, de um azul intenso e sem nuvens (“céu de brigadeiro”, como diria um antigo chefe). O sol luminoso do início do outono conforta (pois brilha sem os excessos do verão), permeado pelo frescor de uma brisa incerta.

Ah, o pequeno jardim que eu avisto da janela, finalmente posso (tenho tempo para) contemplá-lo...

Ao caro leitor que, como eu e milhões de outras pessoas, está em um período de isolamento social: consegue encontrar uma paisagem bonita ao olhar pela janela? Em geral, ao pensar em Um lugar ao Sol, perpassam pela mente grandes objetivos, mas, no atual momento, a expressão pode ser interpretada como algo em torno que transmita paz e esperança, como um pequeno jardim.

Felpuda


Dia desses, há quem tenha se lembrado de opositor ferrenho – em público –, contra governante da época, mas que não deixava de frequentar a fazenda de “sua vítima” sempre que possível e longe dos olhos populares. Por lá, dizem, riam que só do fictício enfrentamento de ambos, que atraía atenção e votos. E quem se lembrou da antiga história garantiu que hoje ela vem se repetindo, tendo duas figurinhas carimbadas nos papéis principais. Ô louco!