Especial Coronavírus (COVID-19) - Leia notícias e saiba tudo sobre o assunto. Clique aqui.

OPINIÃO

Mateus Boldrine Abrita: "“Pibinho” e a demonização do investimento público"

Professor e doutor em Economia
14/03/2020 01:00 - Da Redação


 No dia 4 de março de 2020, uma quarta-feira, o IBGE divulgou o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do ano de 2019: o resultado apurado foi de 1,1%, ou seja, ainda não recuperamos as perdas da recessão de 2015 e 2016 e permanecemos no “nível de riqueza” de 2013. Já o crescimento do PIB por habitante foi ainda pior: pífios 0,3%. Mas afinal o que é PIB e qual o porquê destes resultados fracos?

Para o leitor não muito familiarizado com o “economês”, o PIB é uma medida para demonstrar o quanto de produtos e serviços foram produzidos em determinado período, em determinado país ou região. Quando o PIB aumenta, grosso modo, a condição de vida material das pessoas tende a melhorar – num português claro, ficam, na média, mais ricas. Mas então o que explica esses resultados fracos? Vários podem ser os motivos, mas aqui vou abordar um especial: o investimento público.

Os últimos anos vêm sendo caracterizados por uma euforia, seguida por frustrações nas expectativas de crescimento econômico. Todo início de ano a expectativa e os discursos de muitos são os de que o País vai “decolar”, e no decorrer do ano estas expectativas vão sendo revista para baixo até que, ao fim, encerram-se com um resultado fraco. Para citar alguns exemplos largamente divulgados na mídia, primeiro um impeachment salvaria o País; depois o teto de gastos (PEC 241 na Câmara dos Deputados e PEC 55 no Senado Federal); depois foi dito que, na verdade, precisávamos de uma reforma trabalhista (aprovada em 2017), essa sim, geraria 8 milhões de empregos formais e o Brasil decolaria – não aconteceu. Depois a “bala de prata” era a mudança de governo; após isto, a bola da vez foi a reforma da Previdência, essa geraria “anos fabulosos” – novamente o Brasil não decolou. E o resultado de tudo isso é que nossa grande nação está na recuperação mais lenta da história econômica do País.

Como venho argumentando há algum tempo aqui neste veículo de comunicação e em outros, os governos recentes vêm apostando em reformas pelo lado da “oferta” da economia (tributária, trabalhista, previdenciária, liberdade econômica...) para gerar crescimento. São reformas que podem ser importantes dependendo do seu desenho e de como são implementadas. Enfatizo aqui que acho importante existir esse debate nestes pontos. Entretanto, não resultam necessariamente em maior crescimento no curto prazo – talvez nem no médio prazo. A aposta da atual equipe econômica, mais liberal, é melhorar o ambiente para que o investimento privado seja protagonista. Entretanto, neste cenário de instabilidade política e econômica no Brasil e no mundo, é pouco provável que o investidor privado nacional e estrangeiro realize grandes investimentos, por conta do elevado risco. Com a demanda escassa, emprego e renda fracos, é muito improvável que o empresariado realize grandes investimentos, afinal ele nem sabe se vai vender os produtos que já tem em estoque.  

Com os escândalos de corrupção, os investimentos públicos foram demonizados por alguns e, em vez de ser adotada uma agenda prioritária para melhorar sua eficiência e transparência, eles foram destroçados. Para se ter uma ideia, o investimento público previsto para 2020 é um dos mais baixos registrados.

Portanto, é fundamental construir uma agenda que eleve os investimentos públicos no Brasil com eficiência, transparência e prevenção da corrupção, para assim formar um multiplicador positivo de geração de renda que aumente as vendas do empresariado, gerando mais empregos – que, por sua vez, resultem em mais consumo, acarretando aumento das vendas, mais contratações e crescimento, assim sucessivamente. Esperar que o setor privado, sozinho, assuma todo este protagonismo neste cenário de extrema instabilidade mundial e ingenuidade ou má-fé.

Felpuda


Dia desses, há quem tenha se lembrado de opositor ferrenho – em público –, contra governante da época, mas que não deixava de frequentar a fazenda de “sua vítima” sempre que possível e longe dos olhos populares. Por lá, dizem, riam que só do fictício enfrentamento de ambos, que atraía atenção e votos. E quem se lembrou da antiga história garantiu que hoje ela vem se repetindo, tendo duas figurinhas carimbadas nos papéis principais. Ô louco!