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CRÔNICA

"Eu preciso acreditar na esperança. Nem que seja só por hoje."

"Eu preciso acreditar na esperança. Nem que seja só por hoje."
23/05/2020 06:00 - Theresa Hilcar


 

Um dia é assim, no outro assado e depois... Bom, é um dia de cada vez. É raro, mas às vezes por alguns segundos, sinto certo contentamento. Ou talvez seja um alívio, quem sabe? Um alívio pela saúde física, quase luxo pode-se dizer. Não fosse por uma dor insistente na lombar, talvez pelo excesso de tempo sentada ou deitada, diria que estou em boa forma para a idade. Não, não sou idosa. Mas para as designações tupiniquins estou na terceira idade. Em tempos de pandemia, estou na idade de risco para ser mais específica.

Logo no primeiro dia desta hecatombe, à época ainda incipiente por aqui, mandaram-me para casa, sem prazo para retornar ao trabalho. Pensei em excesso de cuidados, mas louvei a iniciativa. E segui à risca as orientações. Até hoje são quase oitenta dias em casa. Tive uma saída emergencial até o dentista e em uma noite calma atravessei a rua para confessar ao padre minhas aflições. Minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa. Ele sorriu e disse para não ter medo.

Meus dias são pífios. Nada que lembre os vídeos e lives que fazem morada em redes sociais. Não estou aprendendo novo idioma, sou inepta para artes manuais, não tenho disciplina para exercícios, tampouco pendões para comédia ou autoajuda. Também não faço malabarismos na cozinha. Escrever espanta meus fantasmas, que são muitos e se escondem por todos os cantos. 

Também não li mais livros do que costumo ler. Nem assisti a mais filmes ou séries do que normalmente assisto. Neste ponto, porém, é preciso fazer ressalva – sou uma adicta confessa de cinema. Tenho uma média bem superior à da maioria, vício adquirido na infância no cinema do avô. A única novidade no meu dia a dia é a esteira, comprada de segunda mão antes da pandemia, que fica na sala como um aviso luminoso. Preciso andar. Tenho que andar. Ande agora!

Percebi que dei para conversar mais do que o habitual. Converso com todos os que me rodeiam. Literalmente. Outro dia me peguei contando detalhes do meu dia, via aplicativo, ao rapaz que me atende no mercado. E depois pedi desculpas. Minhas mensagens são tão longas que mais parecem cartas. No final de semana, quando uma taça de vinho ou outra me anima, me ponho a gravar vídeos. Por sorte não os envio. São trágicos e risíveis. Assim como os áudios, que arrisco pouco porque ando de mal com meu sotaque.

A palavra que mais uso é “desculpa”. Desculpa pessoal, mas eu ainda estou aqui. E posso ficar em casa sem trabalhar. Tenho casa, comida, TV, Internet e cartão de crédito. No entanto, todos os dias me sinto desconfortável. E peço desculpas. Ouço o barulho dos trabalhadores na rua e sinto uma pontada no peito. Recebo entregadores na porta do prédio, agradeço de coração o serviço e subo com a culpa batendo no peito.

A bem da verdade, acordo todos os dias com culpa. Quando vejo o número cada vez maior de vítimas, sinto a culpa do sobrevivente. Quando leio sobre pessoas que morreram torço para não ser ninguém que eu conheça. Fiquei mais egoísta. Contribuo com instituições na tentativa de me livrar da culpa, mas ela continua indiferente. É uma hóspede preferencial da depressão. A mesma que me faz clamar no fim do dia: por favor, vá embora. 

Vá embora e me deixe aproveitar os dias, ainda que estranhos; sentir o sol que entra tímido pela varanda, o cheiro do alecrim no vaso, a música de fundo, o sorriso dos meus bebês na palma da mão, que às vezes, para o meu profundo deleite, balbuciam sons intraduzíveis e lindos. Eu sinto muito, mas, por favor, vá embora. Eu preciso acreditar na esperança. Nem que seja só por hoje.

Felpuda


Candidato a vereador caiu em desgraça, pelo menos em um dos bairros de Campo Grande, ao promover comício em ginásio de esporte, com direito a ônibus lotados e espoucar de muitos fogos de artifício.

Aí dito-cujo foi alvo de muitas críticas, tanto pela zoeira causada, como por ter mandado às favas quaisquer cuidados na prevenção da Covid-19, ao promover grande aglomeração. Irresponsabilidade é pouco, hein?!