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Após prisão de megatraficante, Bolívia faz devassa para conter corrupção policial

Sebastián Marset foi preso na semana passada em operação boliviana e entregue para autoridades dos Estados Unidos

Rodolfo César

17/03/2026 - 08h25

Sebastián Enrique Marset Cabrera, apontado como um dos principais traficantes transnacionais na América do Sul e que vinha se escondendo em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, foi preso no dia 9 pela Polícia Boliviana.

Desde 2023, o criminoso, com atuação direta em seis países na América e na Europa e ligação ao menos com o Primeiro Comando da Capital (PCC), do Brasil, estava foragido. Ainda assim, aparecia em vídeos nas redes sociais, ameaçava rivais e mencionava falas que sugeriam ameaça às autoridades. 

Agora, a prisão dele abre um precedente para a Polícia Boliviana, que conduz uma ampla investigação para identificar autoridades corruptas que deram suporte ao megratraficante.

Conforme apurado, toda a investigação necessária para montar a operação de prisão de Marset envolveu somente o efetivo da Polícia Boliviana e durou alguns meses. Além disso, apesar de não haver confirmação oficial, houve ação para afastar policiais e direcionar o trabalho investigativo com grupo considerado “seguro e confiável” para atuar nessa operação que envolvia grandes riscos. O megratraficante já tinha fugido de uma outra tentativa de prisão, que ocorreu em Santa Cruz, em 2023.

O comandante-geral da Polícia Boliviana, Mirko Sokol, concedeu entrevista coletiva em Santa Cruz e reconheceu que é preciso uma investigação profunda para combater a corrupção policial. 

“Temos informações de muita gente que colaborou com Marset. É muito provável que tenha policiais, mas também outros tipos de pessoas, principalmente de outras instituições, que garantiram colaboração e deram cobertura para algumas ações que constituem práticas delitivas. Nós vamos investigar tudo isso”, prometeu Sokol.

Ele já havia divulgado, em dezembro de 2025, quando assumiu o posto de comandante-geral, que o trabalho contra a corrupção policial era um dos principais objetivos do atual governo.

“São diferentes níveis de corrupção na instituição, níveis altos como níveis muito inferiores, mas eu conheço a grande maioria deles. Temos gente que fez da corrupção seu modo de vida. Todos conhecemos dentro da instituição a trajetória de cada um dos integrantes”, declarou o policial, que está na corporação desde 1989, durante entrevista que concedeu ao El Deber.

As investigações buscam identificar autoridades que colaboraram ou até foram laranjas do grupo criminal chefiado pelo traficante uruguaio. O envolvimento de policiais e outras autoridades com o tráfico de drogas na Bolívia também foi tema de debate político. 

“Houve instrução para uma investigação ampla dada ao comandante da Polícia, ao comandante da Inteligência e ao comandante da Felcc [Fuerza Especial de la Lucha contra el Narcotráfico]. Se houve responsáveis, vão ser levados para a prisão”, afirmou o ministro de Governo, Marco Antonio Oviedo, em coletiva.

Além da questão política local, o presidente do país vizinho, Rodrigo Paz, reuniu-se com o chefe do Executivo brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, durante reunião realizada ontem, para tratar do assunto.

Conforme Rodrigo Paz, a Bolívia está atuando para prender os quatro principais traficantes do país. Marset é um da lista, mas os outros nomes não foram ditos publicamente.

“Em tema de segurança, ocorreu um acontecimento extraordinário para a Bolívia. Deve ser o fato de segurança mais importante na nossa etapa democrática e é incrível como houve um reconhecimento externo mais importante que de alguns líderes, setores de opinião e organizações na Bolívia. A sociedade boliviana precisa ser mais livre do atropelo dessas organizações criminosas que geram terrorismo”, apontou Rodrigo Paz, em Brasília, durante uma roda de conversa com Lula.

Em paralelo ao combate à corrupção, os governos dos dois países acertaram nesta segunda-feira acordos de cooperação para o combate ao crime organizado, com especial ênfase no tráfico de pessoas, narcotráfico e lavagem de dinheiro, além de mineração ilegal, tráfico de armas, crimes cibernéticos e ambientais.

JULGAMENTO NOS EUA

O traficante uruguaio Marset foi levado para os Estados Unidos ainda no dia 9 e compareceu ao Tribunal Federal em Alexandria, na Virginia. Ele responde a crimes de conspiração para lavagem de dinheiro de uma rede transnacional de tráfico de cocaína, que operava na América do Sul e levava a droga para a Europa. Pode pegar até 20 anos de prisão.

O criminoso usou bancos nos Estados Unidos para realizar operações de seus negócios ilegais. A suspeita é de que ele chegou a movimentar mais de R$ 43,5 milhões para lavagem de dinheiro. Nessa operação para a prisão de Marset foram apreendidos, na Bolívia, mais de US$ 15 milhões em bens.

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