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Acolhimento: ato revolucionário de amor e empatia

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Feche os olhos por um minuto e tente lembrar de um momento em que foi acolhida na infância ou adolescência. Quem foi a pessoa que te acolheu? Qual era a situação? Se tiver mais um tempinho, sugiro que escreva sobre esse momento. Tenho certeza de que essa ação tornará seu dia um pouco mais leve.

Se você se considera uma pessoa pouco acolhedora, provavelmente não foi suficientemente acolhida quando mais precisou. Acolher é uma ação que se aprende na prática e, sem exemplos, fica difícil passar adiante.

A boa notícia é que, até o último dia de nossas vidas, estamos em fase de aprendizado e cuidar dos sentimentos daqueles que amamos é um verdadeiro prazer.

Quando criança, fui taxada de “sensível demais”, dramática e chorona. Passei muitos anos tentando reprimir o que sentia, para não “incomodar”. Saí da casa dos meus pais muito cedo e casei com a primeira pessoa que me deu algumas migalhas de atenção que, pouco tempo depois, se transformou em abuso.

Minha vida, em casa, era um verdadeiro inferno, mas no trabalho, em sala de aula, tinha o acolhimento dos meus alunos que, tão pequenininhos, faziam eu me sentir a pessoa mais amada do mundo. Eu me sentia importante.

O acolhimento era recíproco. Eu amava aqueles minis seres, que se sentavam em roda comigo, todo dia de manhã, como se fossem meus filhos. Construí uma relação de confiança com eles, e entendia quando diziam que, em casa, não estava tudo bem. Muitas vezes senti que eu era a única pessoa que parava para ouvir o que aquelas crianças tinham a dizer. E, por isso, sempre tive uma ótima relação com alunos tidos como “difíceis”.

Entendi que ouvir o que o outro tem a dizer --ouvir mesmo, de verdade, sem tentar encontrar formas de “defesa” para a dor do outro - é a maior demonstração de acolhimento que podemos oferecer àqueles que amamos.

Aprendi que, se queremos ser ouvidos, temos que ouvir primeiro. Assim, construímos uma relação baseada no diálogo verdadeiro. E é disso que estamos todos precisando. Mas para isso, o autoacolhimento é essencial.

Quando consegui me acolher, finalmente tive forças para sair daquele casamento que tinha acabado com minha autoestima. Entendi que teria que recomeçar do zero, que a única pessoa que estaria lá para me acolher, seria eu mesma.

Hoje estou aqui, escrevi meu primeiro romance e duas peças de teatro que já estão sendo ensaiadas. Tenho muito a dizer ao mundo. E ninguém, nunca mais, vai me calar.

 

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Como identificar relações amorosas abusivas

08/06/2024 08h30

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O Dia dos Namorados está chegando e se tornou muito comum trocar presentes e fazer declarações amorosas. Se por um lado essa prática apresenta expressões de afetividade, carinho e dedicação, por outro, pode ocultar traços de algo muito frequente na nossa cultura: as relações abusivas.

Viver um relacionamento abusivo é um processo mais complexo do que se pode supor à primeira vista. Raramente um relacionamento já se inicia evidenciando as características abusivas. Normalmente, trata-se de um processo que vai se aprofundando ao longo do tempo de convivência a partir de um domínio psicoemocional de uma das partes sobre a outra. 

Esse é um assunto sério e que merece absoluta atenção e cuidado de todos os segmentos sociais. De acordo com dados do relatório publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), somente em 2023 foram registrados 1.463 casos de feminicídio no Brasil, cerca de um caso a cada seis horas. Esse é o maior número registrado desde que a lei contra feminicídio foi criada, em 2015.

A pesquisa apontou que 18 estados apresentaram uma taxa de feminicídio acima da média nacional, de 1,4 mortes para cada 100 mil mulheres. Entre eles, o estado de Mato Grosso apresentou a maior taxa no ano passado, com 2,5 mulheres mortas por 100 mil. Entre 2015 e 2023, um total de 10,65 mil mulheres foram vítimas de feminicídio.

Afinal, por que esse é um problema que atinge muito mais as mulheres do que os homens no Brasil? A resposta é um tanto quanto óbvia, somos um País de bases extremamente patriarcais e machistas, o que significa dizer que, simbolicamente, as mulheres tendem a ocupar um lugar de inferioridade no tecido social e, por isso, são mais vulneráveis a todo tipo de violência. É pelo mesmo motivo que se torna, frequentemente, mais difícil para elas saírem ou evitarem situações de violência.

O psiquiatra austríaco Viktor Frankl fala de dois comportamentos humanos que favorecem a perpetuação de situações de violência: o conformismo e o totalitarismo. O primeiro (conformismo) é caracterizado pela aceitação sem oposição do que fazem conosco por não sabermos o que fazer. Já no segundo (totalitarismo), há uma imposição da vontade de um dos parceiros, desconsidera-se completamente a outra pessoa e suas as diferenças, não há empatia.

Assim, uma relação abusiva é necessariamente totalitária, já que uma das partes desconsidera deliberadamente a outra e a subjuga às suas vontades. É importante frisar que uma relação abusiva não começa declaradamente abusiva, ela vai construindo um domínio sobre o outro.

Inicialmente, há uma tendência ao encantamento, movimentos sedutores com elogios, agrados e dedicação quase exclusiva à pessoa. Posteriormente, vai-se havendo um controle em todas as instâncias da vida do outro: rede de relacionamento, vestimenta, lugares aonde vai, atividades de lazer, etc. Por fim, surgem as críticas, o menosprezo e os xingamentos, proibições no ir e vir, exclusão da convivência com amigos e familiares e agressões que podem escalar de humilhações psicológicas para físicas.

Há na vítima um sentimento em níveis variados de insegurança e inferioridade, além da baixa estima e da percepção distorcida da relação consigo, da relação e da realidade. O agressor costuma se manter em um patamar de alguém que “não faz por mal” ou “que exerce um cuidado além da conta” ou “que mudará”. 

Mesmo tendo a percepção do que está acontecendo, são muitos os fatores que podem dificultar para que a vítima saia de um relacionamento abusivo, tais como a dependência financeira, a dependência emocional, a pressão familiar, a pressão religiosa, o medo do que pode acontecer se denunciar e a falta de apoio social para sua emancipação.

Trata-se de uma problemática cultural no Brasil que deve implicar a todos nós, uma vez que estamos educando os nossos filhos e filhas a partir de como nos relacionamos em sociedade e da maneira como desenvolvemos e exercemos a nossa cidadania.

Políticas públicas de apoio a vítimas de abuso têm crescido no Brasil, contribuindo para a conscientização social e a introdução de novas perspectivas em nossa cultura. Graças a essas ações, cada vez mais pessoas têm buscado ajuda por meio dos serviços de saúde mental públicos e privados para construir novas relações e romper com o ciclo da violência.

Ainda assim, é preciso mais. Mais conscientização, mais políticas de educação e promoção social, mais iniciativas que nos aproximem pela via do afeto, da convivência com as diferenças, em que a perspectiva totalitária de um indivíduo ser subjugado pelo outro não faça mais sentido.

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Caminho da vida

08/06/2024 08h00

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Sabemos por meio das lições diárias que a vida nos oferece que, apesar das limitações intelectuais, nos encontramos sempre a caminho. Nada é definitivo. Tudo é passageiro. Tudo é vulnerável. Tudo em seus limites. E nós, míseros humanos, nos sentimos insaciáveis. Isso significa busca permanente de maneiras de viver.

Buscamos sempre caminhos possíveis. Buscamos sempre verdades que preencham o vazio da alma. Buscamos algo que consiga saciar a sede do eterno. Buscamos algo além do comum que consiga saciar a fome de amar e de ser amado, confiar e encontrar confiança, acreditar e ser acreditado.

Por esses assim chamados caminhos, ter a surpresa agradável de encontrar Deus e saborear sua grandeza de alma, sua generosidade no coração e sua misericórdia em suas mãos. Esse Deus de poucas palavras e de muito amor. Esse Deus de nada exigir e tudo doar na gratuidade. Esse Deus que não perturba, mas tudo renova.

Essa seria a imagem que todos e todas deveriam contemplar em seu interior. E deveria comunicar a tanta gente perdida nesse mundo por lhe faltar alguém que console na tristeza e lhe devolva a serenidade nos momentos amargos.

O Mestre dos mestres tantas vezes, em sua caminhada missionária, alertou a todos quantos quisessem segui-lo que não tivessem medo. O caminho, por vezes, se tornaria íngreme, o caminhar seria cansativo e desgastante. Era preciso coragem e confiança naquele que se encontrava no mesmo caminho.

A felicidade se encontra justamente nesse caminhar. Mas, apesar desse alerta, muitos desistiram e o abandonaram. Outros negaram reconhecê-lo e seguiram por outros caminhos. Outros o traíram e o condenaram. Outros juraram contra ele, o condenando à morte e morte de cruz.

A fidelidade de Deus viu-se transgredida e destruída. Mas ele não pensa em vingança, pensa em perdão e misericórdia, porque os humanos não entendem o amor divino. E isso poderia causar dificuldades, sem contar que Deus pode se aproximar da humanidade. Mas ele continua acreditar em uma convivência fiel.

O evangelista Marcos, em seus ensinamentos, mostra muito claramente as dificuldades que o Mestre estava encontrando para atender a tantos necessitados. Eram tantos que não sobrava espaço para o descanso e a alimentação. Revela o tanto que se dedicava e o tanto de desgaste por atender.

Mostra o tanto que seus seguidores deveriam aprender em esforço por acolher, atender e servir. Assim, hoje essas necessidades continuam e desafiam a generosidade dos também seguidores do Mestre dos mestres.

Mas o mundo de hoje tem maneiras diferentes de olhar as necessidades dos irmãos e das irmãs. Alegam que não sobra tempo para a caridade, não sobra tempo para a oração, não sobra tempo para a generosidade, não sobra tempo para a misericórdia. Não sobra tempo para Deus.

Entendemos que Deus terá que se contentar com as sobras de tempo. Terá que se contentar com as sobras de amor. Terá que se contar apenas com as sobras de bens a serviço da vida e da dignidade desses seres marginalizados e condenados a sobreviver com humanos e divinos.

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