Artigos e Opinião

ARTIGO

Alfredo Pinto de Arruda: "A teimosia suspeita"

Ex-secretário de Saúde do Município e do Estado

Redação

01/08/2017 - 02h00
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Logo após a eleição, tive acesso ao governador eleito. Fui à sua casa levado por um amigo comum, curioso em saber o pensamento do novo governo sobre a condução da saúde. O assunto foi vazio e sem conteúdo. Tentei conceituar a saúde naquilo que acho fundamental, alicerçado nas participações que tive como secretário da área nas duas instâncias.

Saí de lá convicto de que o governo que se iniciava faria do mutirão a sua mensagem. Soube que perderíamos quatro anos na evolução política da saúde. Logo após a posse deram início ao circo, pior, algumas pessoas qualificadas deram apoio a estas ações. Escrevi dois artigos: um deles publicado pelo Correio do Estado, outro, um amigo postou no seu Blog.

Resolvi silenciar, a fim de que esta postura revelasse ao governador o meu respeito, acreditando na sua capacidade de gestão da coisa pública.

Há dois anos estou torcendo por novas ideias. Hoje, veio o anúncio de nova rodada do Mutirão, aí meu amigo, não dá para calar. Mutirão é, a meu ver, o atestado público da incompetência, do desprezo ao povo. Funciona como se botasse o povo num brete e fizesse a vacinação de aftosa. Jamais me submeterei a isso: condeno a má intenção deste procedimento. Não há como controlar o número de atendimentos, a qualidade, e mais grave: o custo.

A “Firma” apresenta a conta e o governo rapidamente paga. Transforma essa coisa em prioridade, e passa à frente de ações muito mais sérias na saúde.  A Firma vai embora para onde veio e “o malfeito” fica para o mal pago médico do posto resolver. Isso é um desrespeito. Nem Roma, que amava o circo, para distrair o povo, ousou tamanha afronta. Ainda tenho respeito pelo Reinaldo, porém, o seu governo é ridículo na área de saúde. Escolheu mal a sua equipe. Quero dizer que não falo em pessoas, falo em ideias.

As ideias da sua equipe são primitivas, não conseguem entender saúde como componente social. A saúde, senhor governador, é um instrumento de uma orquestra sinfônica bem coordenada, com harmonia de movimento e sonoridade saudáveis. Não conseguirá realizar uma política de saúde sendo estanque, isolada, como se fosse um regime feudal. A saúde é irmã gêmea da educação, da ação social, da segurança e do emprego.  No meu mundo, jamais desprezaria o Lazer.

A preocupação maior é a cobrança do Conselho Municipal da Saúde, vindo a público exigir prestação de conta, e mais, a intervenção do governo do estado num órgão essencialmente Municipal. Acho que o governador teria que ter olhos mais abertos no controle do recurso da Saúde. A corrupção nesta área significa dois crimes: O roubo do dinheiro e a omissão de socorro à saúde por falta desse recurso. Mande controlar a prestação de conta e a nota fiscal desse serviço denominado Mutirão. Há suspeitas e o povo sabe disso.

 

EDITORIAL

Governar é decidir: o impasse do transporte

Governar é decidir, e decidir, muitas vezes, significa enfrentar contratos mal resolvidos, como o do transporte coletivo, interesses consolidados e riscos políticos

17/01/2026 07h15

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Governar não é tarefa fácil. E nunca foi. A condução de uma cidade, de um estado ou de um país exige escolhas diárias que, quase sempre, desagradam a algum grupo. O ônus de governar, por incrível que pareça para muitos, é justamente esse: tomar decisões.

E, mais do que isso, ter coragem para arcar com as consequências que elas inevitavelmente trazem.

A prefeita de Campo Grande, Adriane Lopes, volta a se ver diante de uma encruzilhada desse tipo. Nos próximos dias, ela precisará decidir se acata a decisão judicial que determina uma intervenção no Consórcio Guaicurus ou se recorre da medida até as últimas instâncias.

A opção que se desenha, ao que tudo indica, é a do recurso. Não apenas por estratégia jurídica, mas também porque o Município, hoje, não parece preparado para cumprir integralmente com o que a decisão exige.

Ainda assim, é impossível ignorar o pano de fundo dessa discussão. Se houve pedido de intervenção e se a Justiça entendeu haver fundamentos para deferi-lo, isso não ocorreu por acaso. O contrato de concessão do transporte coletivo urbano de Campo Grande não tem atendido às expectativas da população.

Se estivesse funcionando de forma satisfatória, a cidade não teria assistido, há cerca de um mês, à maior greve da história do setor. Tampouco teria havido no ano passado uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara Municipal para apurar falhas, responsabilidades e possíveis irregularidades.

O transporte coletivo da Capital enfrenta problemas conhecidos e recorrentes: qualidade insatisfatória do serviço, modelo de financiamento frágil, falhas de planejamento e insuficiência de investimentos ao longo dos anos.

Esses fatores se combinam e resultam em um sistema que não atende plenamente nem usuários, nem trabalhadores, nem o próprio poder público. E, apesar da gravidade do cenário, pouco tem sido feito, na prática, para alterar essa realidade de forma estrutural.

Independentemente do juízo de valor que se faça sobre a ação judicial e sobre a intervenção como instrumento, é inegável que ela busca uma solução para um problema concreto e antigo.

Se essa é a melhor saída, se é juridicamente adequada ou administrativamente viável, caberá ao Judiciário, ao Município e aos demais atores envolvidos definir. O que não é mais possível é tratar o tema como se nada estivesse errado.

Governar é decidir. E decidir, muitas vezes, significa enfrentar contratos mal resolvidos, interesses consolidados e riscos políticos. Fugir dessa responsabilidade pode até adiar o desgaste, mas não resolve o problema.

O transporte coletivo de Campo Grande exige respostas. E elas não podem ser eternamente empurradas para depois.

ARTIGOS

Colapso teocrático

O que vemos hoje é o esgotamento de um modelo que nasceu em 1979 e que vive seu epílogo

16/01/2026 07h45

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Em janeiro de 2026, o Irã vive um momento de ruptura definitiva. As ruas de Teerã e das principais províncias não clamam mais por reformas graduais, mas pelo fim de um sistema que se tornou anacrônico.

O regime, que por décadas utilizou o fervor religioso e o nacionalismo para se sustentar, enfrenta hoje uma combinação letal: o colapso econômico interno e a sucessão de derrotas no cenário externo. O que vemos hoje é o esgotamento de um modelo que nasceu em 1979 e que vive seu epílogo.

Compreender a crise contemporânea exige revisitar o colapso de Mohammad Reza Pahlavi. Ao tentar converter o país em uma potência ocidentalizada, o xá negligenciou as bases tradicionais e o clero xiita, enquanto a repressão da Savak, sua polícia política, alienava a elite intelectual.

Esse cenário culminou na Revolução de 1979 – uma coalizão heterogênea em que emergiu a liderança de Ruhollah Khomeini, que ascendeu após a queda da monarquia. O vácuo de poder foi preenchido pela “velayat-e faqih”, doutrina que submeteu a nação à tutela política e espiritual de um clérigo supremo, consolidando a teocracia moderna.

Quase meio século depois, o contrato social da República Islâmica ruiu. O sistema que prometia justiça social entregou uma economia de espoliação, controlada por fundações opacas e pelo braço empresarial da Guarda Revolucionária, que opera em moldes mais cruéis que a antiga Savak.

A crise atual é o ápice de uma década de má gestão e expansionismo baseado no terror, agravada pelas sanções e pelo impacto da Guerra dos 12 Dias, em 2025, que degradou a infraestrutura nuclear e militar do país.

Diferentemente de 2022, as manifestações atuais têm caráter existencial. O coração do levante bate no Bazar, o termômetro da estabilidade política persa. Quando mercadores fecham as portas e se unem aos jovens e às minorias étnicas, o regime perde sua última âncora de legitimidade. Ao mesmo tempo, a repressão mostra sinais de fadiga, com relatos de deserções e a incapacidade de conter focos simultâneos em todas as 31 províncias.

A análise de risco político nos obriga a desenhar caminhos para este desenlace. O Irã de amanhã não será o mesmo de ontem, e sua transição é um debate com reflexos globais.

Um cenário provável é a solução pretoriana: diante da queda iminente, a Guarda Revolucionária poderia desferir um golpe interno, afastando os aiatolás em troca de uma abertura econômica nacionalista e pragmática, aos moldes do Egito.

Outro caminho é a restauração de uma democracia parlamentarista laica, com Reza Pahlavi como símbolo de unidade transicional, assemelhando-se ao modelo espanhol pós-Franco.

Contudo, não se deve subestimar a resiliência ideológica de uma teocracia acuada e o recrudescimento do regime ainda é uma opção, o que poderia transformar o país em uma “Coreia do Norte do Oriente Médio”, mantendo o poder pelo terror e o isolamento absoluto.

Por fim, existe o risco latente de fragmentação e “balcanização”, em que o colapso fomentaria movimentos separatistas e uma guerra civil devastadora.

Os sinais são de que o experimento teocrático chega ao seu epílogo. A questão não é mais se o regime mudará, mas quem estará no controle quando a poeira baixar. O mundo deve estar preparado para o que emergirá das cinzas da teocracia.

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