Artigos e Opinião

CORREIO DO ESTADO

Confira o editorial desta quinta-feira: "O melhor remédio"

Confira o editorial desta quinta-feira: "O melhor remédio"

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Para que o povo brasileiro cresça em consciência de trabalho, e forme uma nação mais justa, é importante que o jeitinho deixe de ser a solução para muitos.

Desde que a crise derrubou a atividade econômica em 2015 e, consequente, a arrecadação de impostos que mantém a máquina pública, os gestores vivem um problema que é consequência destes tempos difíceis, de baixa arrecadação: o cobertor curto. Quando se corta a despesa em um setor, a sociedade, sobretudo a parte mais vulnerável, sente os reflexos imediatamente.

O Brasil vive neste ano o desafio de se tomar decisões corajosas em tempos difíceis. Normalmente, não são decisões fáceis de serem tomadas, sobretudo porque quem as toma, sabe de suas consequências: muitas geram o sofrimento de algumas pessoas, e como afirmamos acima, normalmente são mais vulneráveis.

Infelizmente, para que os tempos em que cortes na educação, na saúde, cheguem ao fim, serão necessárias decisões ainda mais difíceis. Nesta semana, por exemplo, o governo federal anunciou um novo contingenciamento de verbas. E não há muito o que se fazer: dinheiro não se reproduz.

Levará um tempo até que a cultura da prevenção - não somente na saúde, mas em tudo - seja definitivamente implantada no Brasil. Aliás, sempre nos gabamos de ser o país do improviso. Do esporte aos negócios. O jeitinho brasileiro é exaltado por alguns - ainda bem que cada vez menos - quando as coisas dão certo. Mas nem sempre as coisas dão certo. E quando o êxito não vem, aí não tem jeitinho, aparece a falta de planejamento e a procrastinação.

Para que o povo brasileiro cresça em consciência, e forme uma nação mais justa, é importante que o jeitinho deixe de ser a solução, ou o remédio para muitos. Aliás, o remédio em muitos dos casos, é a consequência da falta de prevenção.

Nesta edição, por exemplo, mostramos que alguns postos de saúde não têm, há três meses pelo menos, vários remédios. A prefeitura alega dificuldades no processo de compra, que de fato é muito burocrático. Mas também é possível entender que o cobertor, às vezes é curto.

Para que não falte remédio, mas que também não falte serviços públicos, ou mesmo que não falte oportunidades para os cidadãos, seja no setor público e no privado, é preciso uma virada de pensamento: mais ação e prevenção. Atitudes que são evitam os males da vida e seus remédios.
 

EDITORIAL

Loterias: arrecadar com responsabilidade

Entrar no mercado das loterias pode ser uma decisão que aumenta a arrecadação. Mas, em tempos de apostas on-line desenfreadas, é também um teste de responsabilidade pública

14/02/2026 07h15

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O governo de Mato Grosso do Sul decidiu relicitar o serviço de loterias estaduais. Trata-se de uma medida que, à primeira vista, pode causar desconfiança em parte da sociedade, especialmente em um momento em que o debate sobre apostas e jogos eletrônicos ganha contornos preocupantes no País.

Ainda assim, é preciso reconhecer: do ponto de vista fiscal, a iniciativa é positiva.

Ao assumir oficialmente a exploração da atividade, o Estado transforma em receita pública um fluxo financeiro que, gostemos ou não, já existe. As apostas digitais se disseminaram de forma acelerada no Brasil, muitas delas operadas por empresas sediadas fora do território nacional ou sob marcos regulatórios frágeis.

Quando o poder público organiza e regula esse mercado, cria condições para arrecadar recursos que podem – e devem – ser revertidos em políticas públicas.

Mato Grosso do Sul, aliás, é um dos últimos Estados a entrar formalmente nesse jogo das loterias estaduais. E fez certo ao não agir por impulso. Enquanto outras unidades da Federação correram para estruturar seus sistemas, o governo sul-mato-grossense observou, avaliou riscos e amadureceu o modelo. A cautela, nesse caso, foi virtude.

Mas justamente por chegar depois, o Estado tem a obrigação de fazer melhor. As novas loterias são essencialmente digitais, operadas por meios eletrônicos que ampliam o acesso e, ao mesmo tempo, potencializam riscos.

A facilidade de apostar pelo celular, a qualquer hora, é também a porta de entrada para a dependência. Os relatos de endividamento, conflitos familiares e adoecimento psíquico associados ao vício em jogos não podem ser ignorados.

Se a arrecadação é bem-vinda, a redução de danos deve ser prioridade. É fundamental que o edital e o contrato prevejam mecanismos claros de proteção ao consumidor: limites de apostas, ferramentas de autoexclusão, monitoramento de comportamento compulsivo e transparência nos dados.

Mais do que isso, é indispensável que parte dos recursos arrecadados seja destinada a campanhas permanentes de conscientização sobre os riscos da dependência em jogos.

Essas campanhas não podem ser meramente protocolares. Devem ser constantes, amplas e financiadas também pela empresa operadora do sistema. Afinal, quem lucra com a atividade precisa compartilhar a responsabilidade social pelos seus efeitos colaterais.

Outro ponto inegociável é a transparência. A operação das loterias deve estar submetida a rígido controle, com divulgação periódica de arrecadação, destinação dos recursos e auditorias independentes. Só assim a sociedade poderá confiar que o dinheiro movimentado pelo jogo retorna, de fato, em benefícios coletivos.

Entrar no mercado das loterias pode ser uma decisão pragmática e fiscalmente inteligente. Mas, em tempos de apostas on-line desenfreadas, é também um teste de responsabilidade pública. Que Mato Grosso do Sul mostre que é possível arrecadar sem fechar os olhos para os riscos.

ARTIGOS

O Carnaval como ensaio geral de uma vida mais inteira

É desejo circulando livre no ar, risos fáceis, beijos sem história e histórias sem amanhã, com a sensação rara de poder fazer tudo sem consequência, como se o mundo tivesse suspendido por alguns dias a memória, o julgamento e o depois

13/02/2026 07h45

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Ah, o Carnaval no Brasil. Por aqui, o Carnaval é só calor, suor que cola na pele, fantasia que mais revela do que esconde, samba que nasce no pé antes de chegar ao ouvido, o batuque dos tambores chamando o corpo para existir sem tradução.

É desejo circulando livre no ar, risos fáceis, beijos sem história e histórias sem amanhã, com a sensação rara de poder fazer tudo sem consequência, como se o mundo tivesse suspendido por alguns dias a memória, o julgamento e o depois.

É no Carnaval que as mulheres experimentam versões de si que passam o resto do ano sob vigilância. Saem com mais de uma pessoa, usam aplicativos sem culpa, flertam sem promessa, colecionam encontros, histórias e possibilidades. Não porque estão sozinhas, mas porque estão vivas.

Durante alguns dias, “ser mulher” não precisa ser explicado, não vira caráter, não vira diagnóstico, nem sentença. O Carnaval mostra desejos que não cabem na rotina, no crachá, no currículo ou no roteiro de “boa mulher, profissional de sucesso, cuidadora dedicada”.

A pergunta incômoda, que vem depois da Quarta-feira de Cinzas, é: por que essa liberdade só é tolerada como exceção?

Na carreira, acontece algo parecido. Mulheres que investigam novos caminhos, testam áreas, mudam de direção ou recusam trajetórias lineares (moldadas por uma forma masculina) ainda são vistas como instáveis, sem talento, pouco profissionais.

Como se maturidade fosse sinônimo de engessamento e enquadramento, e não de escolha consciente.

E se o Carnaval fosse só um ensaio do que a vida plena pode ser? Um espaço seguro para experimentar versões possíveis de si, encontrar seu propósito, o que te traz brilho nos olhos e autonomia para escolher nem leque amplo de opções profissionais que um dia foram ocupadas apenas por homens?

Fica aqui a proposição (ou provocação): aproveite o embalo do Carnaval e teste as suas versões possíveis. Com planejamento, estrutura e um pouquinho de coragem, talvez o ano inteiro possa ser assim.

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