Artigos e Opinião

Correio do Estado

Editorial desta segunda-feira:
Educação na berlinda

Editorial desta segunda-feira:
Educação na berlinda

Redação

24/08/2015 - 00h00
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É preocupante verificar que o gasto por aluno em Campo Grande seja considerado aquém do ideal até para a secretaria pública responsável pelo Ensino Fundamental

O investimento em Educação é tarefa que envolve várias frentes de ações, como por exemplo, formação e remuneração de professores, melhorias e construção de infraestrutura, gestão escolar e discussão da grade curricular. O Brasil está em uma política de expansão que conseguiu resultados expressivos nos últimos oito anos, mas ainda longe da meta oficial traçada -  10% do equivalente ao Produto Interno Bruto (PIB) no setor até 2024 -.  A continuidade do crescimento é ameaçada pela crise econômica e o programa do governo Federal de ajuste das contas públicas, que compromete repasse de verbas a estados e municípios. É preocupante verificar que o gasto por aluno em Campo Grande seja considerado aquém do ideal até para a secretaria pública responsável pelo Ensino Fundamental na capital.

Ao longo da última década, União, Estados e municípios gastam, em média, por estudante da rede pública, R$ 6,2 mil, segundo dados atualizados. Em 2003, eram R$ 2,2 mil. Avanço considerável, mas que corre o risco de empacar com a retração da economia. Campo Grande está na média, mas, se for comparado a outras cidades do Estado, o cenário destoa. De acordo com o que consta no Sistema de Informações sobre Orçamentos Públicos em Educação (Siope), do Fundo Nacional do Desenvolvimento da Educação (FNDE), Campo Grande está na 44ª posição no ranking em Mato Grosso do Sul de gasto por aluno, ou seja, valores investidos na Educação, que engloba estrutura, salário de professores e gestão. Em 2014, capital do Estado investiu R$ 6,2 mil por ano do erário, ficando atrás de Anaurilândia (R$ 10,3 mil), Taquarussu e Jateí (R$ 9,8 mil), os três primeiros colocados, respectivamente. Mesmo respeitando a proporção de habitantes e o valor por estudante, a posição da capital do Estado, que fica abaixo da metade dos 79 municípios, chega a ser constrangedora.

A secretaria estima que seriam necessários mais R$ 152,7 milhões de recursos para melhorar no ranking estadual, aporte que foi pleiteado ao FNDE,  e que seriam investidos em 2016.

Curiosamente, os melhores colocados no levantamento são municípios que utilizam mais recursos próprios do que federais. A dependência de verba via ministério pode ser entrave na pretensão da prefeitura de Campo Grande de melhorar os índices, levando-se em conta o quanto ainda será feito de ajustes econômicos para estancar a sangria da retração.

A polícia de investimento no setor precisa ser revista, com urgência. A Unesco fez estudo que demonstra que aporte efetivo e de qualidade traz retornos práticos, com elevação do PIB de um país em até 23% num período de 40 anos. “Investir em Educação” não pode continuar sendo uma falácia de período eleitoral. Educação aprimora o indivíduo no convívio social, capacita para mercado de trabalho e pode ser incorporado à inovação de bens e tecnologia, transformando metas de futuro de longo para médio ou curto prazo. 

O valor agregado é muito maior do que ações de politicagem que costumam tornar-se prioridade dos candidatos eleitos. É investimento a longo prazo, com retorno demorado, mas, definitivamente, um bom negócio para a população.

EDITORIAL

Operações do MPMS e o recado às prefeituras

MPMS, sociedade e imprensa seguem atentos. Transparência não é concessão; é obrigação. E controle não é perseguição; é instrumento de proteção ao interesse público

13/02/2026 07h15

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Desde o ano passado, mais de uma dezena de prefeituras em Mato Grosso do Sul foram alvo de operações conduzidas pelos grupos especializados no combate aos crimes do colarinho branco e ao crime organizado, em ações do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS).

Muitas delas com cumprimento de mandados de busca e apreensão e afastamento de agentes públicos, escancararam um cenário preocupante: indícios de conluios envolvendo integrantes do primeiro escalão municipal e fornecedores com a finalidade de desviar recursos públicos.

Não é a primeira vez que este espaço elogia a atuação cirúrgica do MPMS. E reiteramos: se há crime, deve haver investigação e punição. O dinheiro público não pertence a gestores, partidos ou grupos políticos. Pertence à população.

Cada centavo desviado representa menos remédio nos postos de saúde, menos qualidade na merenda escolar, menos infraestrutura nas cidades. O Ministério Público de Mato Grosso do Sul cumpre o seu papel constitucional ao fiscalizar, investigar e denunciar.

O que chama a atenção, contudo, é a reação do outro lado – o político. Nesta edição mostramos que, ao que tudo indica, parte da classe política ainda não compreendeu a gravidade do momento.

Ou, se compreendeu, tem demonstrado dificuldade em assimilar o recado. As operações não são fatos isolados. Não se trata de um episódio pontual, mas de um padrão que precisa ser interrompido.

É preciso ampliar os mecanismos de controle sobre o gasto público. E isso só se faz com transparência absoluta. Portais de transparência atualizados, processos licitatórios claros, contratos acessíveis, fiscalização social estimulada.

Quem age com clareza, quem expõe seus atos à luz do dia, tende a ter menos problemas com investigações. E, quando ocorre algum equívoco de procedimento, pode demonstrar que agiu de boa-fé, sem dolo, sem intenção de lesar os cofres públicos.

O que não é admissível é que, depois de sucessivas operações, de denúncias envolvendo esquemas estruturados para fraudar contratos e desviar dinheiro, tudo continue como se nada tivesse acontecido. Não é normal. Não pode ser tratado como rotina administrativa.

A naturalização do desvio corrói a confiança da população nas instituições e enfraquece a democracia.

Mais do que nunca, é preciso seriedade na gestão pública. Seriedade com o dinheiro do contribuinte, com os contratos assinados, com as prioridades definidas. A mensagem das operações é clara: há fiscalização, há investigação e haverá responsabilização.

Assim como o MPMS cumpre sua função, a imprensa seguirá atenta e a sociedade também. Transparência não é concessão; é obrigação. E controle não é perseguição; é instrumento de proteção ao interesse público. Quem administra recursos coletivos deve estar preparado para prestar contas – sempre.

ARTIGOS

Afeto em modo on-line

A proximidade construída, esse acesso aos bastidores da vida cotidiana, cria uma poderosa ilusão de que a conexão é mútua

12/02/2026 07h45

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Sabe aquela sensação de que você realmente conhece seu podcaster favorito, a ponto de antecipar as piadas e opiniões dele? Ou aquele leve orgulho que você sente quando um influenciador que você acompanha atinge uma nova meta, como se fosse um amigo próximo celebrando uma conquista?

Talvez você já tenha se visto defendendo um youtuber em uma seção de comentários ou sentindo uma tristeza genuína com o término de um casal famoso. Se alguma dessas situações parece familiar, você já vivenciou a essência de um comportamento que define a nossa era.

Essa conexão tão particular tem nome: relacionamento parassocial. O termo, que descreve um vínculo de mão única que uma pessoa desenvolve com uma figura pública, foi eleito a Palavra do Ano de 2025 pelo Dicionário Cambridge.

Essa escolha não foi por acaso, ela oficializa a importância de um fenômeno que, embora antigo, foi intensificado de forma radical pela era digital, deixando de ser um assunto de especialistas para fazer parte do vocabulário popular, muito em função da estrutura proposta pelas redes sociais.

No passado, nossos avós admiravam estrelas de cinema distantes, projetadas em telas e envoltas em mistério. Hoje, por outro lado, um criador de conteúdo compartilha sua rotina nos stories, desabafa sobre seu dia em um post e interage com seus seguidores.

Essa proximidade construída, esse acesso aos bastidores da vida cotidiana, cria uma poderosa ilusão de que a conexão é mútua. O fenômeno, no entanto, é interessante não apenas pelo comportamento que descreve, mas também pela forma como a própria palavra se popularizou.

Nesse ponto, a internet é a grande protagonista, pois funciona como um acelerador de novas palavras. Ela captura conceitos complexos e os transforma em termos de uso massivo.

Palavras como “cringe” (algo que causa vergonha alheia), “shippar” (torcer por um casal) ou “biscoiteiro” (alguém que busca validação on-line), por exemplo, nasceram ou ganharam força nesse ambiente, sendo rapidamente integradas à nossa língua.

A internet, portanto, não apenas cria fenômenos sociais, ela também nos fornece, em tempo real, as ferramentas para nomeá-los.

Fica claro, dessa forma, o papel duplo e central das redes sociais. Por um lado, elas moldam nosso comportamento, criando novas formas de interação, como os laços parassociais. Por outro, contribuem ativamente para a renovação do nosso vocabulário, popularizando termos que nos ajudam a dar sentido a essa realidade cada vez mais digital.

A ascensão da palavra “parassocial” é, nesse sentido, o exemplo perfeito dessa dinâmica: um reflexo de como nossas vidas mudaram e, ao mesmo tempo, de como nossa linguagem corre para acompanhar essa mudança.

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