Artigos e Opinião

CORREIO DO ESTADO

Editorial desta sexta-feira: "Socorro aos náufragos"

Editorial desta sexta-feira: "Socorro aos náufragos"

Redação

21/08/2015 - 00h00
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O socorro às indústrias é indicativo de que o governo tomou pé da grave situação em que colocou o País, ação muito mais contundente do que as tomadas até agora

O anúncio de socorro às empresas do setor automotivo pode ser sopro para as indústrias que, a cada mês, registram queda nas vendas, aumento nos gastos e nos índices de demissões. É o reconhecimento do governo federal de que a intervenção é necessária, urgente e que a crise não é a “marolinha” que insistiam em defender. Não é estratégia nova e já foi adotada para ajudar o setor elétrico, por meio do Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

O socorro prometido será por meio de desembolsos que podem chegar a R$ 14 bilhões, via Banco do Brasil e Caixa. São linhas de crédito e de capital de giro com condições especiais, dinheiro que deve ajudar as empresas do setor automotivo a pagar dívida com credores. Os valores serão concedidos por meio de títulos, tendo como garantia o próprio contrato de fornecimento de peças à montadoras. Nas próximas semanas, o Banco do  Brasil deve ampliar o crédito também às cooperativas agrícolas, petróleo e gás e construção civil. 

Não é de hoje que governos dão uma “mãozinha” para grandes empresas. Nos Estados Unidos a prática foi usada diversas vezes. Lá, eclodiu a crise em 2008, considerada maior que a Grande Depressão de 1929, sendo gerada pelo mercado imobiliário. O quarto maior banco americano, o Lehman Brothers, declarou falência. A  instituição não recebeu ajuda, sucumbiu e levou junto boa parte dos investidores. O governo teve que abrir a torneira para que outros bancos não caíssem e evitar o pânico no mercado.

Naquela época, o então presidente do Brasil, Luis Inácio Lula da Silva, disse que a onda de crise americana não chegaria  ao  país e, se chegasse, não passaria de  uma “marolinha”. Não foi o que aconteceu e o governo teve que baixar juros, reduzir alíquotas de de produtos da linha branca, automóveis, além de liberar bilhões em depósitos compulsórios para estimular o setor financeiro a emprestar mais. No período, o país se segurou, mas viu o PIB fechar com número negativo de -0,3%. Agora, o presidente do Banco do Brasil, Alexandre Abreu, diz que a estratégia adotada não segue os moldes das ações tomadas naquele período, já que o socorro, segundo ele, é “cirúrgico”. Porém, não se pode ignorar que o cenário atual é muito mais pessimista, em decorrência das condições internas de crise, deflagradas pelo próprio governo brasileiro. 

A aposta de Abreu é que a situação comece a melhorar a partir de 2016, com perspectiva de queda de inflação e possível retomada de crescimento, porém,a expectativa é contraditória, levando em conta a perspectiva feita por economistas do mercado financeiro de redução do PIB no próximo ano e manutenção do indicativo de retração econômica.

O socorro às indústrias é indicativo de que, o governo tomou pé da grave situação em que colocou o País, ação muito mais contundente do que as tomadas até agora, mesmo levando em conta os ajustes fiscais. Resta esperar para ver se as ações surtirão efeito necessário em tempo, para evitar o crescimento da bola de neve que se tornou a economia do país.

EDITORIAL

Diversificar é o caminho da economia

Diversificação é sinônimo de resiliência. É isso que Mato Grosso do Sul precisa para crescer de forma mais consistente, previsível e sustentável

15/01/2026 07h15

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A economia de Mato Grosso do Sul não pode permanecer excessivamente dependente do agronegócio, por mais relevante e estratégico que esse setor seja para o Estado.

O campo seguirá sendo um pilar fundamental, mas transformá-lo no quase único motor do crescimento econômico é uma escolha que cobra seu preço ao longo do tempo. Dependência excessiva gera vulnerabilidade, limita alternativas e reduz a capacidade de reação diante de crises.

É preciso reconhecer que o governo estadual tem avançado nesse debate e adotado medidas concretas. A atração de grandes indústrias, especialmente as processadoras de celulose, e o estímulo à agroindústria – com investimentos em frigoríficos, plantas de esmagamento de soja e cadeias de valor mais complexas – apontam um caminho correto.

Esses movimentos representam um salto qualitativo em relação ao modelo primário-exportador clássico, ao agregar valor à produção local e gerar empregos mais estáveis.

Ainda assim, é evidente que não basta. As próprias autoridades reconhecem que o desafio da diversificação econômica vai além da industrialização ligada ao agro. Industrializar parte da matriz econômica é um passo decisivo, mas não pode ser o único.

Quando um estado depende quase exclusivamente de um setor, ele se torna refém das oscilações desse segmento, sejam elas climáticas, de mercado ou geopolíticas.

O paradoxo vivido por Mato Grosso do Sul ilustra bem esse problema. Quando o agronegócio vai bem, o Produto Interno Bruto (PIB) cresce, mas muitas vezes abaixo da média nacional, porque o desempenho positivo não se espalha de forma homogênea pela economia.

Quando o agro vai mal, o impacto negativo é imediato e igualmente concentrado, puxando o crescimento para baixo. Em ambos os cenários, a dependência excessiva limita o potencial de expansão e reduz a resiliência econômica.

Diversificar não significa abandonar o agronegócio, mas complementar sua força com outros setores capazes de sustentar o crescimento em momentos adversos.

Indústria de transformação, logística, tecnologia, economia do conhecimento, serviços especializados e energias renováveis são exemplos de áreas que podem ampliar a base produtiva do Estado.

Quanto mais variada for essa base, maior será a capacidade de absorver choques externos e manter o ritmo de desenvolvimento.

Diversificação é sinônimo de resiliência. É isso que Mato Grosso do Sul precisa para crescer de forma mais consistente, previsível e sustentável. O caminho já começou a ser trilhado, mas exige continuidade, ousadia e planejamento de longo prazo.

O futuro econômico do Estado depende menos de apostar tudo em um único setor e mais de construir um ambiente capaz de sustentar vários motores de crescimento ao mesmo tempo.

ARTIGOS

Taxação da carne bovina brasileira pela China

Outros países, como Argentina, EUA, Uruguai e Austrália, também terão cotas estabelecidas e tarifas extras de 55% no que superar as cotas

14/01/2026 07h45

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A China anunciou que, desde 1º de janeiro deste ano, vai taxar em mais 55% a carne bovina brasileira importada que ultrapassar a cota de 1,1 milhão de toneladas. Até a cota, a taxa continuará em 12%. Em 2025, a China importou 1,7 milhão de toneladas de carne bovina do Brasil; se for mantida a quantidade, 600 mil toneladas terão a tarifa extra de 55%.

Outros países, como Argentina, EUA, Uruguai e Austrália, também terão cotas estabelecidas e tarifas extras de 55% no que superar as cotas. Trata-se de uma medida que visa proteger os produtores chineses, que estão investindo para aumentar a produção nacional.

Trata-se de notícia complicada, que exige ação do governo e entidades do setor do Brasil. O Brasil é o 5º maior produtor de agronegócio mundial (2,6%) e o 3º maior exportador (8,4%). É o País que apresenta o maior saldo comercial no agronegócio mundial.

O Brasil exporta para mais de 150 países. As carnes são o 2º produto mais exportado pelo agronegócio brasileiro (18%), só sendo superado pelo complexo da soja (36%). A China é o principal destino das exportações do agronegócio brasileiro (31%). Entre estes produtos se destaca a carne bovina.

O Brasil é o principal produtor (12,4 milhões de toneladas) e o 2º maior exportador de carne bovina do mundo. Exporta cerca de 30% da sua produção. O principal destino da carne bovina brasileira exportada é a China (48%). As exportações do Brasil são responsáveis por 54% das importações da China.

Alguns setores do Brasil já esperavam o estabelecimento de cotas e sobretaxas. Serão necessários ajustes no mercado, que já vinha se preparando para conviver com o comércio internacional como um instrumento geopolítico. 

Entidades privadas, como a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec) e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), e do governo, como o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), Ministério das Relações Exteriores (MRE) e Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) devem atuar para minimizar os efeitos negativos da medida.

O Brasil mantém um adido agrícola na China, que deverá contribuir para manter as boas relações comerciais Brasil-China, que vêm se consolidando nos últimos anos. A tarifa extra deve ser medida temporária sujeita a ajustes.

O consumo de carne bovina continua crescente na China. A produção chinesa é de cerca de 7,8 milhões de toneladas. A estratégia da medida visa oferecer alguma proteção aos pecuaristas locais e ampliar a produção doméstica. Atualmente, a China importa 30% da carne bovina consumida.

A medida adotada pela China pode funcionar como um desestímulo aos investimentos dos pecuaristas brasileiros. Entretanto, o fortalecimento das relações entre os dois países, especialmente comerciais, vem se intensificando. A medida pode gerar distorções internas na China, induzindo inflação.

O Brasil pode, ainda, recorrer à Organização Mundial do Comércio (OMC) e tentar ampliar a cota estabelecida. Isto porque as exportações fora da cota vão se tornar mais difíceis. E a China vinha defendendo um comércio internacional sem salvaguardas.

De qualquer forma, o Brasil deve diversificar o mercado de importadores de sua carne bovina. Não é conveniente para qualquer produto, concentrar 48% das exportações para um único país. E, para isto, deve usar todas as estruturas privadas e públicas, visando alçancar este objetivo a curto prazo. Nos últimos anos, 29 mercados foram abertos.

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