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CORREIO DO ESTADO

Editorial deste domingo: "Reforma tardia"

Editorial deste domingo: "Reforma tardia"

Redação

04/10/2015 - 00h00
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A redução da quantidade de ministros e servidores comissionados em Brasília pode, no entanto, não ter o efeito esperado, porque chegou tarde demais

O mercado financeiro reagiu positivamente ao gesto da presidente da República, Dilma Rousseff, de cortar oito ministérios, cargos de comissão e o próprio salário. O ato de Dilma também foi suficiente para o governo federal começar o fim de semana em clima de tranquilidade, algo que ainda não se viu neste ano. A redução da quantidade de ministros e servidores comissionados na turbulenta Brasília pode, no entanto, não ter o efeito esperado, porque chegou tarde demais. 

Na reforma administrativa anunciada na sexta-feira (2), foram cortadas dez pastas com status de ministério, e criadas outras duas, a partir de fusão de várias secretarias especiais. A expectativa do governo federal é de economizar até R$ 200 milhões por ano. Quantia que tem efeito muito mais simbólico que prático, em meio ao orçamento trilionário da União e deficit na casa dos bilhões, previsto para o ano que vem.

Na reforma ministerial, quem ganhou espaço foi o PMDB, que, mesmo com uma Esplanada com oito ministérios a menos, aumenta sua participação no governo de Dilma Rousseff, de seis para sete pastas. Agora, serão 31 ministérios, contra as 39 pastas anteriores à reforma. 

O PMDB, partido de maior bancada no Congresso, foi decisivo na reforma, porque também pode ser decisivo em um eventual processo de impeachment da presidente. O grande problema, agora, tanto para Dilma Rousseff quanto aos que fazem oposição a ela, é a instabilidade do próprio PMDB. Esta característica do partido pode não trazer a tranquilidade duradoura que o governo espera, nem o impeachment imediato almejado pela oposição. 

Os efeitos desta reforma serão momentâneos, porque ela, sozinha, não é suficiente para acalmar os ânimos em Brasília, tampouco no mercado financeiro. A crise econômica deve continuar, sobretudo, porque este mesmo corte de ministérios deveria ter ocorrido anteriormente. Fosse assim, o caixa da administração federal estaria muito mais saudável neste momento de dificuldade financeira.

A redução de cargos neste momento pode ser vista também como uma confissão do governo federal. Dilma Rousseff admite, assim, que trabalhava com uma máquina inchada e ineficiente, flagrante desperdício de dinheiro público e amostra de má gestão, que prejudica os brasileiros. Os R$ 200 milhões que serão economizados a partir de agora poderiam, nos últimos cinco anos, ter sido aplicados em infraestrutura, saúde e educação, em favor de quem realmente precisa do governo. 

Apesar de tardia, contudo, a reforma administrativa é válida, e o exemplo deve ser seguido por outros administradores públicos do Brasil, em todos os poderes, Executivo, Legislativo e Judiciário. Em meio às dificuldades financeiras, pelas quais o próprio governo é responsável, não é o momento de esbanjar mordomias e gastos supérfluos, enquanto muitos sofrem com desemprego, queda na renda, e dólar e juros nas alturas.

EDITORIAL

Operações do MPMS e o recado às prefeituras

MPMS, sociedade e imprensa seguem atentos. Transparência não é concessão; é obrigação. E controle não é perseguição; é instrumento de proteção ao interesse público

13/02/2026 07h15

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Desde o ano passado, mais de uma dezena de prefeituras em Mato Grosso do Sul foram alvo de operações conduzidas pelos grupos especializados no combate aos crimes do colarinho branco e ao crime organizado, em ações do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS).

Muitas delas com cumprimento de mandados de busca e apreensão e afastamento de agentes públicos, escancararam um cenário preocupante: indícios de conluios envolvendo integrantes do primeiro escalão municipal e fornecedores com a finalidade de desviar recursos públicos.

Não é a primeira vez que este espaço elogia a atuação cirúrgica do MPMS. E reiteramos: se há crime, deve haver investigação e punição. O dinheiro público não pertence a gestores, partidos ou grupos políticos. Pertence à população.

Cada centavo desviado representa menos remédio nos postos de saúde, menos qualidade na merenda escolar, menos infraestrutura nas cidades. O Ministério Público de Mato Grosso do Sul cumpre o seu papel constitucional ao fiscalizar, investigar e denunciar.

O que chama a atenção, contudo, é a reação do outro lado – o político. Nesta edição mostramos que, ao que tudo indica, parte da classe política ainda não compreendeu a gravidade do momento.

Ou, se compreendeu, tem demonstrado dificuldade em assimilar o recado. As operações não são fatos isolados. Não se trata de um episódio pontual, mas de um padrão que precisa ser interrompido.

É preciso ampliar os mecanismos de controle sobre o gasto público. E isso só se faz com transparência absoluta. Portais de transparência atualizados, processos licitatórios claros, contratos acessíveis, fiscalização social estimulada.

Quem age com clareza, quem expõe seus atos à luz do dia, tende a ter menos problemas com investigações. E, quando ocorre algum equívoco de procedimento, pode demonstrar que agiu de boa-fé, sem dolo, sem intenção de lesar os cofres públicos.

O que não é admissível é que, depois de sucessivas operações, de denúncias envolvendo esquemas estruturados para fraudar contratos e desviar dinheiro, tudo continue como se nada tivesse acontecido. Não é normal. Não pode ser tratado como rotina administrativa.

A naturalização do desvio corrói a confiança da população nas instituições e enfraquece a democracia.

Mais do que nunca, é preciso seriedade na gestão pública. Seriedade com o dinheiro do contribuinte, com os contratos assinados, com as prioridades definidas. A mensagem das operações é clara: há fiscalização, há investigação e haverá responsabilização.

Assim como o MPMS cumpre sua função, a imprensa seguirá atenta e a sociedade também. Transparência não é concessão; é obrigação. E controle não é perseguição; é instrumento de proteção ao interesse público. Quem administra recursos coletivos deve estar preparado para prestar contas – sempre.

ARTIGOS

Afeto em modo on-line

A proximidade construída, esse acesso aos bastidores da vida cotidiana, cria uma poderosa ilusão de que a conexão é mútua

12/02/2026 07h45

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Sabe aquela sensação de que você realmente conhece seu podcaster favorito, a ponto de antecipar as piadas e opiniões dele? Ou aquele leve orgulho que você sente quando um influenciador que você acompanha atinge uma nova meta, como se fosse um amigo próximo celebrando uma conquista?

Talvez você já tenha se visto defendendo um youtuber em uma seção de comentários ou sentindo uma tristeza genuína com o término de um casal famoso. Se alguma dessas situações parece familiar, você já vivenciou a essência de um comportamento que define a nossa era.

Essa conexão tão particular tem nome: relacionamento parassocial. O termo, que descreve um vínculo de mão única que uma pessoa desenvolve com uma figura pública, foi eleito a Palavra do Ano de 2025 pelo Dicionário Cambridge.

Essa escolha não foi por acaso, ela oficializa a importância de um fenômeno que, embora antigo, foi intensificado de forma radical pela era digital, deixando de ser um assunto de especialistas para fazer parte do vocabulário popular, muito em função da estrutura proposta pelas redes sociais.

No passado, nossos avós admiravam estrelas de cinema distantes, projetadas em telas e envoltas em mistério. Hoje, por outro lado, um criador de conteúdo compartilha sua rotina nos stories, desabafa sobre seu dia em um post e interage com seus seguidores.

Essa proximidade construída, esse acesso aos bastidores da vida cotidiana, cria uma poderosa ilusão de que a conexão é mútua. O fenômeno, no entanto, é interessante não apenas pelo comportamento que descreve, mas também pela forma como a própria palavra se popularizou.

Nesse ponto, a internet é a grande protagonista, pois funciona como um acelerador de novas palavras. Ela captura conceitos complexos e os transforma em termos de uso massivo.

Palavras como “cringe” (algo que causa vergonha alheia), “shippar” (torcer por um casal) ou “biscoiteiro” (alguém que busca validação on-line), por exemplo, nasceram ou ganharam força nesse ambiente, sendo rapidamente integradas à nossa língua.

A internet, portanto, não apenas cria fenômenos sociais, ela também nos fornece, em tempo real, as ferramentas para nomeá-los.

Fica claro, dessa forma, o papel duplo e central das redes sociais. Por um lado, elas moldam nosso comportamento, criando novas formas de interação, como os laços parassociais. Por outro, contribuem ativamente para a renovação do nosso vocabulário, popularizando termos que nos ajudam a dar sentido a essa realidade cada vez mais digital.

A ascensão da palavra “parassocial” é, nesse sentido, o exemplo perfeito dessa dinâmica: um reflexo de como nossas vidas mudaram e, ao mesmo tempo, de como nossa linguagem corre para acompanhar essa mudança.

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