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EUA na Venezuela: poder, petróleo e controle

Trump afirmou agir em nome da paz, da democracia e da segurança do povo venezuelano, evocando uma retórica humanitária, contudo, o discurso não se limitou a esse diagnóstico

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Na madrugada de sábado, os Estados Unidos lançaram uma operação militar sem precedentes na Venezuela, com ataques que provocaram explosões em Caracas e em outras cidades do país, culminando na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa.

O episódio marca uma inflexão profunda na política externa norte-americana para a América Latina e recoloca na agenda regional uma lógica que muitos acreditavam estar superada.

Em pronunciamento realizado no mesmo dia, direto de sua residência, o presidente Donald Trump justificou a ação militar como parte de uma suposta luta contra o narcoterrorismo e o tráfico internacional de drogas, que, segundo ele, afetariam diretamente a saúde e a segurança pública em solo estadunidense.

No mesmo discurso, Trump afirmou ainda agir em nome da paz, da democracia e da segurança do povo venezuelano, evocando uma retórica humanitária, frequentemente utilizada para legitimar intervenções externas.

É inegável que o governo Maduro sustenta uma democracia frágil, esvaziada e essencialmente formal, marcada por questionamentos recorrentes quanto à transparência e à legitimidade de seus processos políticos.

As últimas eleições presidenciais foram amplamente contestadas, com denúncias de práticas institucionais destinadas a restringir o exercício do voto livre por parcelas significativas da população.

Soma-se a isso o fato de que cerca de oito milhões de venezuelanos vivem hoje em situação de exílio, sobretudo em países vizinhos, o que evidencia a profundidade da crise política, econômica e social enfrentada pelo país.

Contudo, o discurso de Trump não se limitou a esse diagnóstico. Três pontos específicos chamaram atenção e acenderam sinais de alerta. O primeiro foi a menção direta ao petróleo venezuelano, tratado como ativo estratégico.

O segundo, a referência à necessidade de administração externa da Venezuela, sugerindo uma tutela política temporária.

O terceiro, a alegação de que María Corina Machado, vencedora do Nobel da Paz, não seria uma liderança por não ser respeitada na cena política venezuelana, argumento apresentado como elemento adicional para justificar a permanência norte-americana na condução do país.

Quando analisados em conjunto, esses pontos revelam uma narrativa que vai além da retórica de combate ao narcotráfico ou de defesa da democracia. Eles apontam para uma tentativa de legitimar o controle político e econômico sobre um Estado soberano, utilizando fragilidades internas reais como justificativa para uma intervenção de amplo alcance.

O posicionamento de Trump e de sua equipe foi claro em diversos momentos do pronunciamento: “Não se mexe com os Estados Unidos”, ainda que sem direcionar explicitamente a quem essa advertência se destinava. Apesar disso, o efeito colateral imediato é evidente.

A ação coloca em xeque os projetos de integração latino-americana e levanta a hipótese de uma estratégia deliberada de desagregação regional, com o possível objetivo de manter os países do continente sob a zona de influência norte-americana e afastá-los de parcerias estratégicas com atores como China e Rússia.

Nesse jogo de xadrez geopolítico, o Brasil será inevitavelmente chamado a se posicionar de modo mais ativo.

Mais do que notas emitidas em meios de comunicações oficiais, o governo brasileiro deverá refletir cuidadosamente sobre os impactos de curto e médio prazo dessa nova dinâmica, equilibrando princípios de soberania, interesses econômicos, estabilidade regional e relações estratégicas com os Estados Unidos.

A forma como o País conduzirá esse posicionamento poderá definir nossa política externa imediata e nosso papel na redefinição do equilíbrio político da América Latina nos próximos anos.

Neste cenário, o mais recomendável é adotar uma abordagem de realismo político. Isso significa reconhecer que o sistema internacional é essencialmente anárquico e que a manutenção do poder e da segurança deve sempre priorizar o interesse nacional.

Em outras palavras, parte-se do princípio de que as relações entre Estados são marcadas pela desconfiança, pela instabilidade e por uma cooperação que é sempre limitada pela busca de vantagens próprias.

EDITORIAL

Loterias: arrecadar com responsabilidade

Entrar no mercado das loterias pode ser uma decisão que aumenta a arrecadação. Mas, em tempos de apostas on-line desenfreadas, é também um teste de responsabilidade pública

14/02/2026 07h15

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O governo de Mato Grosso do Sul decidiu relicitar o serviço de loterias estaduais. Trata-se de uma medida que, à primeira vista, pode causar desconfiança em parte da sociedade, especialmente em um momento em que o debate sobre apostas e jogos eletrônicos ganha contornos preocupantes no País.

Ainda assim, é preciso reconhecer: do ponto de vista fiscal, a iniciativa é positiva.

Ao assumir oficialmente a exploração da atividade, o Estado transforma em receita pública um fluxo financeiro que, gostemos ou não, já existe. As apostas digitais se disseminaram de forma acelerada no Brasil, muitas delas operadas por empresas sediadas fora do território nacional ou sob marcos regulatórios frágeis.

Quando o poder público organiza e regula esse mercado, cria condições para arrecadar recursos que podem – e devem – ser revertidos em políticas públicas.

Mato Grosso do Sul, aliás, é um dos últimos Estados a entrar formalmente nesse jogo das loterias estaduais. E fez certo ao não agir por impulso. Enquanto outras unidades da Federação correram para estruturar seus sistemas, o governo sul-mato-grossense observou, avaliou riscos e amadureceu o modelo. A cautela, nesse caso, foi virtude.

Mas justamente por chegar depois, o Estado tem a obrigação de fazer melhor. As novas loterias são essencialmente digitais, operadas por meios eletrônicos que ampliam o acesso e, ao mesmo tempo, potencializam riscos.

A facilidade de apostar pelo celular, a qualquer hora, é também a porta de entrada para a dependência. Os relatos de endividamento, conflitos familiares e adoecimento psíquico associados ao vício em jogos não podem ser ignorados.

Se a arrecadação é bem-vinda, a redução de danos deve ser prioridade. É fundamental que o edital e o contrato prevejam mecanismos claros de proteção ao consumidor: limites de apostas, ferramentas de autoexclusão, monitoramento de comportamento compulsivo e transparência nos dados.

Mais do que isso, é indispensável que parte dos recursos arrecadados seja destinada a campanhas permanentes de conscientização sobre os riscos da dependência em jogos.

Essas campanhas não podem ser meramente protocolares. Devem ser constantes, amplas e financiadas também pela empresa operadora do sistema. Afinal, quem lucra com a atividade precisa compartilhar a responsabilidade social pelos seus efeitos colaterais.

Outro ponto inegociável é a transparência. A operação das loterias deve estar submetida a rígido controle, com divulgação periódica de arrecadação, destinação dos recursos e auditorias independentes. Só assim a sociedade poderá confiar que o dinheiro movimentado pelo jogo retorna, de fato, em benefícios coletivos.

Entrar no mercado das loterias pode ser uma decisão pragmática e fiscalmente inteligente. Mas, em tempos de apostas on-line desenfreadas, é também um teste de responsabilidade pública. Que Mato Grosso do Sul mostre que é possível arrecadar sem fechar os olhos para os riscos.

ARTIGOS

O Carnaval como ensaio geral de uma vida mais inteira

É desejo circulando livre no ar, risos fáceis, beijos sem história e histórias sem amanhã, com a sensação rara de poder fazer tudo sem consequência, como se o mundo tivesse suspendido por alguns dias a memória, o julgamento e o depois

13/02/2026 07h45

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Ah, o Carnaval no Brasil. Por aqui, o Carnaval é só calor, suor que cola na pele, fantasia que mais revela do que esconde, samba que nasce no pé antes de chegar ao ouvido, o batuque dos tambores chamando o corpo para existir sem tradução.

É desejo circulando livre no ar, risos fáceis, beijos sem história e histórias sem amanhã, com a sensação rara de poder fazer tudo sem consequência, como se o mundo tivesse suspendido por alguns dias a memória, o julgamento e o depois.

É no Carnaval que as mulheres experimentam versões de si que passam o resto do ano sob vigilância. Saem com mais de uma pessoa, usam aplicativos sem culpa, flertam sem promessa, colecionam encontros, histórias e possibilidades. Não porque estão sozinhas, mas porque estão vivas.

Durante alguns dias, “ser mulher” não precisa ser explicado, não vira caráter, não vira diagnóstico, nem sentença. O Carnaval mostra desejos que não cabem na rotina, no crachá, no currículo ou no roteiro de “boa mulher, profissional de sucesso, cuidadora dedicada”.

A pergunta incômoda, que vem depois da Quarta-feira de Cinzas, é: por que essa liberdade só é tolerada como exceção?

Na carreira, acontece algo parecido. Mulheres que investigam novos caminhos, testam áreas, mudam de direção ou recusam trajetórias lineares (moldadas por uma forma masculina) ainda são vistas como instáveis, sem talento, pouco profissionais.

Como se maturidade fosse sinônimo de engessamento e enquadramento, e não de escolha consciente.

E se o Carnaval fosse só um ensaio do que a vida plena pode ser? Um espaço seguro para experimentar versões possíveis de si, encontrar seu propósito, o que te traz brilho nos olhos e autonomia para escolher nem leque amplo de opções profissionais que um dia foram ocupadas apenas por homens?

Fica aqui a proposição (ou provocação): aproveite o embalo do Carnaval e teste as suas versões possíveis. Com planejamento, estrutura e um pouquinho de coragem, talvez o ano inteiro possa ser assim.

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