Artigos e Opinião

EDITORIAL

Fertilizantes e o papel da Petrobras

A retomada da UFN3 é urgente para a segurança do agronegócio nacional; depender de fertilizantes importados é um risco que o Brasil não pode seguir correndo

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É legítima – e até necessária – a cautela quando se fala, mais uma vez, na retomada da fábrica de fertilizantes da Petrobras em Três Lagoas. Afinal, trata-se de uma obra que, por mais de uma década, existiu muito mais no discurso do que na realidade. Ainda assim, a expectativa agora é de que, desta vez, o investimento seja para valer.

Conforme divulgado em reportagem publicada nesta edição, a Petrobras incluiu em seu plano de investimentos para este ano o aporte de R$ 1,5 bilhão para a retomada da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III (UFN3), em Três Lagoas.

O anúncio reacende a esperança de que um projeto estratégico, abandonado no passado, finalmente saia do papel e cumpra sua função econômica e social.

Não se trata apenas de um investimento regional ou de geração de empregos locais, embora esses efeitos sejam relevantes. A retomada da UFN3 é urgente para a segurança do agronegócio brasileiro, setor que sustenta grande parte da economia nacional.

Em um mundo cada vez mais instável, marcado por conflitos geopolíticos e tensões comerciais, depender excessivamente de fertilizantes importados é um risco que o Brasil não pode continuar correndo.

Hoje, países como Rússia e Irã figuram entre os maiores produtores globais desses insumos. Qualquer instabilidade nessas regiões – como já ocorreu recentemente – tem reflexo imediato nos preços e no abastecimento.

Mitigar essa dependência externa não é opção ideológica, mas uma decisão estratégica de soberania econômica e alimentar.

Nesse contexto, o papel do governo federal é essencial. Cabe ao Estado assegurar que a Petrobras cumpra também sua função estratégica, para além da lógica imediata de mercado.

Evidentemente, a empresa precisa apresentar bons resultados, gerar caixa e distribuir lucros e dividendos – algo que, aliás, tem feito com eficiência. No entanto, nenhuma companhia que pensa em sua sobrevivência de longo prazo pode prescindir de investir em sua própria atividade-fim.

Foi justamente esse equilíbrio que se perdeu na metade final da última década e no início desta, quando a Petrobras reduziu drasticamente investimentos estruturantes, priorizando quase exclusivamente a remuneração dos acionistas.

O resultado foi a estagnação de projetos relevantes e o aumento da vulnerabilidade do País em áreas sensíveis, como a dos fertilizantes.

Por isso, é fundamental que a obra de Três Lagoas, parada por mais de 10 anos, finalmente avance. Que deixe de ser promessa e se transforme em realidade concreta. Para o Brasil, será um passo importante rumo à segurança produtiva.

Para Mato Grosso do Sul, um ganho ainda maior, com desenvolvimento, empregos e protagonismo estratégico. Desta vez, o País espera – e precisa – que o investimento seja definitivo.

EDITORIAL

Loterias: arrecadar com responsabilidade

Entrar no mercado das loterias pode ser uma decisão que aumenta a arrecadação. Mas, em tempos de apostas on-line desenfreadas, é também um teste de responsabilidade pública

14/02/2026 07h15

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O governo de Mato Grosso do Sul decidiu relicitar o serviço de loterias estaduais. Trata-se de uma medida que, à primeira vista, pode causar desconfiança em parte da sociedade, especialmente em um momento em que o debate sobre apostas e jogos eletrônicos ganha contornos preocupantes no País.

Ainda assim, é preciso reconhecer: do ponto de vista fiscal, a iniciativa é positiva.

Ao assumir oficialmente a exploração da atividade, o Estado transforma em receita pública um fluxo financeiro que, gostemos ou não, já existe. As apostas digitais se disseminaram de forma acelerada no Brasil, muitas delas operadas por empresas sediadas fora do território nacional ou sob marcos regulatórios frágeis.

Quando o poder público organiza e regula esse mercado, cria condições para arrecadar recursos que podem – e devem – ser revertidos em políticas públicas.

Mato Grosso do Sul, aliás, é um dos últimos Estados a entrar formalmente nesse jogo das loterias estaduais. E fez certo ao não agir por impulso. Enquanto outras unidades da Federação correram para estruturar seus sistemas, o governo sul-mato-grossense observou, avaliou riscos e amadureceu o modelo. A cautela, nesse caso, foi virtude.

Mas justamente por chegar depois, o Estado tem a obrigação de fazer melhor. As novas loterias são essencialmente digitais, operadas por meios eletrônicos que ampliam o acesso e, ao mesmo tempo, potencializam riscos.

A facilidade de apostar pelo celular, a qualquer hora, é também a porta de entrada para a dependência. Os relatos de endividamento, conflitos familiares e adoecimento psíquico associados ao vício em jogos não podem ser ignorados.

Se a arrecadação é bem-vinda, a redução de danos deve ser prioridade. É fundamental que o edital e o contrato prevejam mecanismos claros de proteção ao consumidor: limites de apostas, ferramentas de autoexclusão, monitoramento de comportamento compulsivo e transparência nos dados.

Mais do que isso, é indispensável que parte dos recursos arrecadados seja destinada a campanhas permanentes de conscientização sobre os riscos da dependência em jogos.

Essas campanhas não podem ser meramente protocolares. Devem ser constantes, amplas e financiadas também pela empresa operadora do sistema. Afinal, quem lucra com a atividade precisa compartilhar a responsabilidade social pelos seus efeitos colaterais.

Outro ponto inegociável é a transparência. A operação das loterias deve estar submetida a rígido controle, com divulgação periódica de arrecadação, destinação dos recursos e auditorias independentes. Só assim a sociedade poderá confiar que o dinheiro movimentado pelo jogo retorna, de fato, em benefícios coletivos.

Entrar no mercado das loterias pode ser uma decisão pragmática e fiscalmente inteligente. Mas, em tempos de apostas on-line desenfreadas, é também um teste de responsabilidade pública. Que Mato Grosso do Sul mostre que é possível arrecadar sem fechar os olhos para os riscos.

ARTIGOS

O Carnaval como ensaio geral de uma vida mais inteira

É desejo circulando livre no ar, risos fáceis, beijos sem história e histórias sem amanhã, com a sensação rara de poder fazer tudo sem consequência, como se o mundo tivesse suspendido por alguns dias a memória, o julgamento e o depois

13/02/2026 07h45

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Ah, o Carnaval no Brasil. Por aqui, o Carnaval é só calor, suor que cola na pele, fantasia que mais revela do que esconde, samba que nasce no pé antes de chegar ao ouvido, o batuque dos tambores chamando o corpo para existir sem tradução.

É desejo circulando livre no ar, risos fáceis, beijos sem história e histórias sem amanhã, com a sensação rara de poder fazer tudo sem consequência, como se o mundo tivesse suspendido por alguns dias a memória, o julgamento e o depois.

É no Carnaval que as mulheres experimentam versões de si que passam o resto do ano sob vigilância. Saem com mais de uma pessoa, usam aplicativos sem culpa, flertam sem promessa, colecionam encontros, histórias e possibilidades. Não porque estão sozinhas, mas porque estão vivas.

Durante alguns dias, “ser mulher” não precisa ser explicado, não vira caráter, não vira diagnóstico, nem sentença. O Carnaval mostra desejos que não cabem na rotina, no crachá, no currículo ou no roteiro de “boa mulher, profissional de sucesso, cuidadora dedicada”.

A pergunta incômoda, que vem depois da Quarta-feira de Cinzas, é: por que essa liberdade só é tolerada como exceção?

Na carreira, acontece algo parecido. Mulheres que investigam novos caminhos, testam áreas, mudam de direção ou recusam trajetórias lineares (moldadas por uma forma masculina) ainda são vistas como instáveis, sem talento, pouco profissionais.

Como se maturidade fosse sinônimo de engessamento e enquadramento, e não de escolha consciente.

E se o Carnaval fosse só um ensaio do que a vida plena pode ser? Um espaço seguro para experimentar versões possíveis de si, encontrar seu propósito, o que te traz brilho nos olhos e autonomia para escolher nem leque amplo de opções profissionais que um dia foram ocupadas apenas por homens?

Fica aqui a proposição (ou provocação): aproveite o embalo do Carnaval e teste as suas versões possíveis. Com planejamento, estrutura e um pouquinho de coragem, talvez o ano inteiro possa ser assim.

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