Artigos e Opinião

OPINIÃO

José Carlos de Oliveira Robaldo: "Educação, pobreza e criminalidade"

Procurador de Justiça aposentado, advogado, Mestre em Direito Penal pela Unesp.

Redação

16/08/2015 - 00h00
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Há correlação entre pobreza, educação e criminalidade? Em outras palavras, há similitude entre crime, educação e pobreza? A causa preponderante da criminalidade estaria relacionada com a deficiência na educação, com a favela, enfim, com a pobreza em geral? Educação formal ou aquela oriunda do berço, da família, das boas práticas, inclusive religiosas? Enfim, são vários os questionamentos dignos de reflexões acadêmicas sobre o tema. Excelentes, portanto, para teses de doutorado, de mestrado, até mesmo para conclusão de cursos na área jurídica, sociológica entre outros. A sugestão está no ar e o contexto para pesquisa é fértil. Preferencialmente sem viés ideológico, porém com visão crítica. 

Penalistas, sociólogos e criminólogos há tempos debatem acerca das causas da criminalidade. A educação, sobretudo a sua carência, ao lado de outras, entre elas a própria impunidade, está entre as causas do fenômeno criminológico. 

Contudo, há teses, ainda que isoladas, que colocam educação e pobreza como as únicas causadoras da criminalidade, o que é – se encarar a sociedade como um todo - uma meia verdade, para não dizer falaciosas. É meia verdade porque a realidade do dia a dia tem dado inúmeras provas de que a criminalidade não é exclusiva desta ou daquela classe social. Assim como têm criminosos pobres e pessoas que nunca frequentaram escola, de igual forma, há muitas pessoas de classe média e rica e com alto grau de escolaridade que também trilham o caminho do crime e, não raras vezes, com maior perversidade. Não há dúvida de que a segregação social seja ela de cunho material ou cultural, de uma forma ou de outra, tende a influenciar o encaminhamento para a criminalidade. Tanto a sociologia como a criminologia não ignoram essa realidade.

Com notícias de corrupção, de mazelas e de má gestão da coisa pública, que diariamente invadem os nossos lares, ao lado de bárbaros crimes praticados (em especial nas escolas e universidades dos Estados Unidos), não diríamos que põem por terra as teses de que os personagens principais da cena do crime são os pobres, negros e sem escolaridades, mas que balançam, balançam. Há muito preconceito até mesmo ideológico nesse contexto. De fato, não é a cor da pele, o volume do bolso/da conta bancária ou o grau de escolaridade que direcionam o indivíduo para o mundo do crime. Talvez a oportunidade ou o seu próprio DNA. Aliás, não é descartável a ideia defendida por alguns de que, em face da tendência criminógena, quanto maior for o grau de escolaridade de determinadas pessoas, maior será a sua perniciosidade para a sociedade.

Se atentarmos para as qualificações escolares e universitárias dos principais personagens envolvidas nas operações mensalão, lava-jato, pixuleco e tantas outras, percebe-se que, senão todos, a sua grande maioria é constituída de profissionais altamente qualificados: engenheiros, advogados, médicos, administradores, economistas, altos executivos. Até mesmo um engenheiro naval, especialista em enriquecimento de urânio, com mestrado no MIT (Massachussetts Institute of Technology), com alta patente da Marinha Brasileira, faz parte desse rol! Não há dúvida de que a educação formal (ensino infantil, fundamental, médio e superior) é a mola propulsora do desenvolvimento de qualquer País e do próprio indivíduo em si. A Coreia do Sul é um exemplo dessa assertiva. Contudo, essa educação formal deve estar construída sobre as bases da educação substancial, ou seja, daquela que vem do berço. O que significa, com efeito, que o slogan “Pátria educadora”, por si só, não atinge o grau cultural que se deseja.

Educação de qualidade (substancial e formal) é determinante para mudar esse contexto.

Editorial

O "mundo perfeito" da estatal MSGás

É curioso que uma empresa controlada pelo governo do Estado, um ente que enfrenta dificuldades de caixa, esbanje mordomias e altos salários com sua cúpula

12/05/2026 07h15

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Fundada em 1988, a MSGás é, sem dúvida, uma empresa importante para o desenvolvimento de Mato Grosso do Sul. Só que ela precisa dar passos mais largos, ser mais abrangente, para cumprir o propósito estabelecido à época de sua fundação.

Atualmente, a MSGás, uma das empresas estatais de Mato Grosso do Sul, com a Sanesul, é uma distribuidora de gás natural que parece estar blindada dos desafios de seu controlador, o governo do Estado. Temos uma gestão que foca muito em conexões, seminários e debates, e muito pouco em resultados concretos.

Desde o ano passado, por exemplo, mostramos que sua presidente, Cristiane Alkmin Junqueira Schmidt, que passou a ganhar quase o dobro e ajustou seu salário aos de CEOs do eixo Rio-São Paulo, entrega muitas viagens, bastante discussão sobre processos, muitos eventos, mas poucos resultados concretos.

Aliás, os ganhos do alto escalão da empresa estatal não coadunam com os desafios fiscais pelos quais passa o Estado.

Sim, é claro, trata-se de uma empresa – ainda que estatal – cuja gestão e contabilidade independem da situação do caixa do governo, mas é curioso que uma empresa controlada por um ente que enfrenta dificuldades de caixa esbanje mordomias e altos rendimentos.

Enquanto a MSGás vive este mundo paralelo, quase um mundo perfeito, a empresa peca em expandir-se.

Atualmente, está construindo um duto para ligar a megafábrica da Arauco ao gasoduto Bolívia-Brasil. Mas, ao mesmo tempo, investe muito pouco na expansão da rede de gás natural por Mato Grosso do Sul, para atender os cidadãos na ponta.

Em Campo Grande, os domicílios atendidos pela estatal são praticamente os mesmos de anos atrás. Em cidades por onde o gasoduto passa, como Corumbá, os serviços da MSGás praticamente inexistem. Ainda nem falamos da cidade de Dourados, uma promessa não cumprida há anos.

A gestão atual fala em investir em gás biometano. Mas não há projeção clara de ganho de escala; tudo é muito incipiente, parecendo mais um produto de marketing, com aposta quase exclusiva no conceito e na propaganda, e não na efetividade.

Evidentemente, o biometano pode representar uma alternativa importante para o futuro energético. Porém, entre anunciar projetos em eventos e transformá-los em realidade concreta existe uma distância enorme.

É claro que, para expandir, é preciso aprovação do Conselho de Administração e concordância dos sócios – inclusive do sócio privado, que detém 49% da empresa.

Nem sempre o sócio privado quer investir em expansão; ele pode se satisfazer com os resultados cotidianos obtidos a partir do que já existe.

O problema é que uma empresa estatal não deveria pensar apenas na lógica da acomodação financeira, mas também no interesse público e na indução do desenvolvimento.

E, por falar em expansão, o sócio privado foi contra o fato de a atual CEO quase ter dobrado o salário no ano passado. Foi voto vencido.

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Artigo

Os cuidados com a saúde mental na adolescência

O período em que a vida ganha cores novas, em que as primeiras grandes descobertas acontecem e em que a liberdade começa a ter gosto próprio

11/05/2026 07h45

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A adolescência é um território cheio de contrastes, e talvez seja justamente isso que a torna tão marcante. É uma fase em que tudo parece acontecer ao mesmo tempo: o corpo muda, as relações mudam, as expectativas aumentam e a sensação de que o mundo inteiro está observando cada passo se torna quase constante.

Ao mesmo tempo, é também o período em que a vida ganha cores novas, em que as primeiras grandes descobertas acontecem e em que a liberdade começa a ter gosto próprio. De um lado, estão as dores.

A insegurança é uma das mais presentes. O espelho vira um juiz implacável, e qualquer detalhe – uma espinha, um cabelo fora do lugar, uma roupa que não parece “certa” – pode parecer um problema enorme.

Há também a pressão por pertencimento: querer fazer parte de um grupo, ser aceito, ser compreendido. E quando isso não acontece, a sensação de isolamento pesa.

Além disso, surgem as primeiras responsabilidades reais: decisões sobre o futuro, cobranças escolares, expectativas familiares. Tudo isso enquanto o cérebro ainda está tentando entender quem você é.

A Pense 2024 entrevistou 118.099 estudantes e apontou prevalência elevada de tristeza, irritabilidade e pensamentos de que a vida não vale a pena, com diferenças de gênero marcantes – meninas apresentam índices mais altos em quase todos os indicadores.

Além disso, 26,1% disseram sentir que ninguém se preocupa com eles e menos da metade das escolas públicas oferece algum tipo de suporte psicológico. Esses dados colocam solidão, sensação de desamparo e insatisfação corporal como fatores centrais da crise.

Mas, do outro lado, estão as delícias, e elas são muitas. A adolescência é o momento das primeiras paixões, intensas e desajeitadas, mas inesquecíveis.

É quando a música favorita parece falar diretamente com você, quando cada amizade tem o potencial de durar para sempre, quando sair de casa sem destino pode ser a melhor aventura do dia.

É a fase em que a criatividade explode, em que você começa a testar limites, a experimentar estilos, a descobrir talentos que nem imaginava ter.

Existe também uma delícia silenciosa: a sensação de que tudo é possível. Mesmo com as dúvidas, existe uma energia única, uma vontade de mudar o mundo, de ser alguém que faça diferença. É um período em que a imaginação corre solta e em que o futuro, apesar de assustador, parece cheio de portas abertas.

Ser adolescente é viver em um constante vai e vem entre euforia e frustração, coragem e medo, liberdade e confusão. É contraditório, é intenso, é cansativo e, ao mesmo tempo, é profundamente formador.

As dores moldam, as delícias impulsionam. E, quando essa fase passa, o que fica é uma coleção de memórias que ajudam a explicar quem você se torna depois.

Um dos métodos mais eficazes no cuidado é a psicoterapia. Muitas vezes, quanto mais cedo começa o tratamento em crianças e jovens, melhor.

Ela tem se mostrado uma ferramenta eficaz no combate a depressão e ansiedade. Revisões brasileiras e internacionais mostram que intervenções psicossociais reduzem sintomas e melhoram funcionamento social e escolar.

Ela atua em habilidades de regulação emocional, reestruturação cognitiva e estratégias de enfrentamento, complementando intervenções médicas, quando necessárias.

Porém, além de tratamentos psicológicos, a saúde mental entre jovens brasileiros exige resposta integrada: políticas públicas para ampliar suporte escolar e atenção primária, triagem precoce e acesso a psicoterapias baseadas em evidência como parte central do cuidado.

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