Artigos e Opinião

EDITORIAL

Judicialização expõe falhas na Saúde

A Saúde pública não precisa de atalhos, mas de investimento em infraestrutura, planejamento e sistemas de controle orçamentário auditáveis e fáceis de compreender

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A judicialização da Saúde pública em Mato Grosso do Sul deixou de ser um fenômeno pontual para se tornar uma característica estrutural do sistema. O Estado figura entre aqueles em que mais cidadãos recorrem ao Judiciário para garantir acesso a consultas, exames, cirurgias, medicamentos e procedimentos de alta complexidade.

Embora esse seja um problema presente em todo o Brasil, a intensidade com que ele ocorre por aqui exige uma reflexão mais profunda: por que a Saúde sul-mato-grossense depende tanto de decisões judiciais para funcionar?

A resposta passa por diferentes perspectivas e não comporta simplificações. Um dos fatores que ajudam a explicar esse cenário são fatos recentes que vieram à tona e expuseram distorções graves.

Há, ou houve, esquemas claros envolvendo médicos e advogados, nos quais o poder público era condenado a custear procedimentos para pessoas de baixa renda a valores muito superiores aos praticados no mercado privado.

Em muitos casos, os custos ultrapassavam não apenas a Tabela SUS, mas também os preços cobrados de pacientes particulares e de planos de saúde. O resultado foi o consumo de recursos públicos de forma desproporcional, beneficiando poucos e prejudicando o atendimento coletivo.

Esse problema, porém, não esgota a discussão. Especialmente em Campo Grande, há uma sobrecarga histórica do sistema.

Nas últimas décadas, foram escassos os investimentos na ampliação da rede hospitalar de leitos exclusivamente públicos, incapazes de acompanhar o crescimento populacional e o aumento da demanda por serviços de média e alta complexidade.

Diante dessa carência, surgem propostas como o aluguel de leitos privados, que raramente funcionam como solução estrutural. Além de onerosas, muitas vezes carecem de auditoria rigorosa e transparência, abrindo espaço para desperdício de recursos e, em situações mais graves, corrupção.

Nesse cenário, o exemplo positivo de ampliação de leitos vem basicamente de um único ator: o governo do Estado.

Os investimentos em hospitais regionais em Três Lagoas e Dourados ajudaram a descentralizar o atendimento e a aliviar a pressão sobre a Capital. Agora, a ampliação do Hospital Regional de Mato Grosso do Sul, em Campo Grande, aponta para o caminho correto.

Quando há mais oferta de leitos e serviços, uma parcela maior da demanda é atendida de forma regular, reduzindo a pressão que normalmente culmina em ações judiciais.

A lição é clara. O que a Saúde pública precisa não é de atalhos, mas de investimento em infraestrutura, planejamento e sistemas de controle orçamentário auditáveis e fáceis de compreender. Recursos financeiros existem: a Saúde movimenta bilhões todos os anos.

O desafio está em utilizá-los com eficiência, transparência e foco no interesse coletivo. Reduzir a judicialização passa, necessariamente, por fortalecer o sistema público para que o direito à saúde seja garantido na prática, e não apenas por meio de decisões judiciais.

EDITORIAL

Loterias: arrecadar com responsabilidade

Entrar no mercado das loterias pode ser uma decisão que aumenta a arrecadação. Mas, em tempos de apostas on-line desenfreadas, é também um teste de responsabilidade pública

14/02/2026 07h15

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O governo de Mato Grosso do Sul decidiu relicitar o serviço de loterias estaduais. Trata-se de uma medida que, à primeira vista, pode causar desconfiança em parte da sociedade, especialmente em um momento em que o debate sobre apostas e jogos eletrônicos ganha contornos preocupantes no País.

Ainda assim, é preciso reconhecer: do ponto de vista fiscal, a iniciativa é positiva.

Ao assumir oficialmente a exploração da atividade, o Estado transforma em receita pública um fluxo financeiro que, gostemos ou não, já existe. As apostas digitais se disseminaram de forma acelerada no Brasil, muitas delas operadas por empresas sediadas fora do território nacional ou sob marcos regulatórios frágeis.

Quando o poder público organiza e regula esse mercado, cria condições para arrecadar recursos que podem – e devem – ser revertidos em políticas públicas.

Mato Grosso do Sul, aliás, é um dos últimos Estados a entrar formalmente nesse jogo das loterias estaduais. E fez certo ao não agir por impulso. Enquanto outras unidades da Federação correram para estruturar seus sistemas, o governo sul-mato-grossense observou, avaliou riscos e amadureceu o modelo. A cautela, nesse caso, foi virtude.

Mas justamente por chegar depois, o Estado tem a obrigação de fazer melhor. As novas loterias são essencialmente digitais, operadas por meios eletrônicos que ampliam o acesso e, ao mesmo tempo, potencializam riscos.

A facilidade de apostar pelo celular, a qualquer hora, é também a porta de entrada para a dependência. Os relatos de endividamento, conflitos familiares e adoecimento psíquico associados ao vício em jogos não podem ser ignorados.

Se a arrecadação é bem-vinda, a redução de danos deve ser prioridade. É fundamental que o edital e o contrato prevejam mecanismos claros de proteção ao consumidor: limites de apostas, ferramentas de autoexclusão, monitoramento de comportamento compulsivo e transparência nos dados.

Mais do que isso, é indispensável que parte dos recursos arrecadados seja destinada a campanhas permanentes de conscientização sobre os riscos da dependência em jogos.

Essas campanhas não podem ser meramente protocolares. Devem ser constantes, amplas e financiadas também pela empresa operadora do sistema. Afinal, quem lucra com a atividade precisa compartilhar a responsabilidade social pelos seus efeitos colaterais.

Outro ponto inegociável é a transparência. A operação das loterias deve estar submetida a rígido controle, com divulgação periódica de arrecadação, destinação dos recursos e auditorias independentes. Só assim a sociedade poderá confiar que o dinheiro movimentado pelo jogo retorna, de fato, em benefícios coletivos.

Entrar no mercado das loterias pode ser uma decisão pragmática e fiscalmente inteligente. Mas, em tempos de apostas on-line desenfreadas, é também um teste de responsabilidade pública. Que Mato Grosso do Sul mostre que é possível arrecadar sem fechar os olhos para os riscos.

ARTIGOS

O Carnaval como ensaio geral de uma vida mais inteira

É desejo circulando livre no ar, risos fáceis, beijos sem história e histórias sem amanhã, com a sensação rara de poder fazer tudo sem consequência, como se o mundo tivesse suspendido por alguns dias a memória, o julgamento e o depois

13/02/2026 07h45

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Ah, o Carnaval no Brasil. Por aqui, o Carnaval é só calor, suor que cola na pele, fantasia que mais revela do que esconde, samba que nasce no pé antes de chegar ao ouvido, o batuque dos tambores chamando o corpo para existir sem tradução.

É desejo circulando livre no ar, risos fáceis, beijos sem história e histórias sem amanhã, com a sensação rara de poder fazer tudo sem consequência, como se o mundo tivesse suspendido por alguns dias a memória, o julgamento e o depois.

É no Carnaval que as mulheres experimentam versões de si que passam o resto do ano sob vigilância. Saem com mais de uma pessoa, usam aplicativos sem culpa, flertam sem promessa, colecionam encontros, histórias e possibilidades. Não porque estão sozinhas, mas porque estão vivas.

Durante alguns dias, “ser mulher” não precisa ser explicado, não vira caráter, não vira diagnóstico, nem sentença. O Carnaval mostra desejos que não cabem na rotina, no crachá, no currículo ou no roteiro de “boa mulher, profissional de sucesso, cuidadora dedicada”.

A pergunta incômoda, que vem depois da Quarta-feira de Cinzas, é: por que essa liberdade só é tolerada como exceção?

Na carreira, acontece algo parecido. Mulheres que investigam novos caminhos, testam áreas, mudam de direção ou recusam trajetórias lineares (moldadas por uma forma masculina) ainda são vistas como instáveis, sem talento, pouco profissionais.

Como se maturidade fosse sinônimo de engessamento e enquadramento, e não de escolha consciente.

E se o Carnaval fosse só um ensaio do que a vida plena pode ser? Um espaço seguro para experimentar versões possíveis de si, encontrar seu propósito, o que te traz brilho nos olhos e autonomia para escolher nem leque amplo de opções profissionais que um dia foram ocupadas apenas por homens?

Fica aqui a proposição (ou provocação): aproveite o embalo do Carnaval e teste as suas versões possíveis. Com planejamento, estrutura e um pouquinho de coragem, talvez o ano inteiro possa ser assim.

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