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O que está em jogo no julgamento da aposentadoria especial dos vigilantes no STF

Estimativa do governo federal de eventual decisão favorável aos segurados poderia gerar impacto de aproximadamente R$ 200 bilhões ao longo de 35 anos

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O Supremo Tribunal Federal (STF) iniciará, nas próximas semanas, o julgamento de uma controvérsia que ultrapassa cifras bilionárias ou os interesses de uma categoria profissional específica. Está em debate se o vigilante, armado ou não, tem direito à aposentadoria especial em razão do risco permanente inerente à sua atividade.

Segundo estimativa do governo federal, uma eventual decisão favorável aos segurados poderia gerar impacto de aproximadamente R$ 200 bilhões ao longo de 35 anos.

O dado é relevante do ponto de vista fiscal, mas não pode obscurecer o verdadeiro núcleo da discussão: o alcance constitucional da proteção previdenciária quando o trabalhador exerce atividade sob o risco contínuo da sua integridade física.

Em 2020, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) firmou entendimento no sentido de que é possível o reconhecimento do tempo especial do vigilante, desde que comprovada a exposição permanente ao risco, independentemente do uso de arma de fogo.

A decisão refletiu uma leitura mais ampla e realista da proteção previdenciária, alinhada às condições concretas da profissão. O Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) recorreu, levando a controvérsia ao STF.

Na defesa do INSS, a Advocacia-Geral da União (AGU) sustenta que a Constituição autoriza a aposentadoria especial apenas nos casos de exposição a agentes físicos, químicos ou biológicos nocivos à saúde. Para a AGU, o risco, por si só, não produziria desgaste orgânico mensurável e, portanto, não justificaria a concessão do benefício diferenciado.

O argumento, embora tecnicamente elaborado, parte de uma premissa excessivamente restritiva. A Constituição Federal não protege apenas a saúde em sentido clínico, mas também a integridade física do trabalhador. E integridade física não se limita a danos decorrentes de agentes químicos, biológicos ou laboratoriais.

A atividade do vigilante é marcada por ameaça permanente, tensão contínua e exposição concreta à violência. Não se trata de risco eventual ou abstrato, mas de um risco estrutural, indissociável da função exercida.

Reduzir essa realidade à compensação por adicional de periculosidade ignora que a Previdência Social possui natureza preventiva e protetiva, e não meramente indenizatória.

Outro argumento recorrente na manifestação do governo é o receio de que o reconhecimento do direito aos vigilantes abra precedente para a extensão da aposentadoria especial a inúmeras outras profissões, como motoristas ou trabalhadores da construção civil.

Esse temor, contudo, não encontra respaldo jurídico. O ordenamento não opera por generalizações automáticas, mas por critérios técnicos bem definidos, como permanência, habitualidade, inevitabilidade do risco e vínculo direto com a atividade desempenhada.

O risco enfrentado pelo vigilante é qualificado, específico e historicamente reconhecido, inclusive pelo Estado, ao prever adicionais legais de periculosidade.

Ao pautar o tema, o STF não decide apenas sobre vigilantes armados ou desarmados. Decide se o conceito constitucional de proteção previdenciária será interpretado de forma realista, conectada ao mundo do trabalho, ou de maneira excessivamente formal, restrita a categorias estanques de agentes nocivos.

Uma decisão excessivamente restritiva pode representar mais um passo no esvaziamento silencioso da aposentadoria especial, afastando-a de sua finalidade social. Já uma interpretação sensível à realidade do risco reafirma o compromisso constitucional com a dignidade do trabalhador e com a função social da Previdência.

O debate não é fiscal versus social. É constitucional. O Supremo tem diante de si a oportunidade de afirmar que a proteção previdenciária não se limita ao que pode ser mensurado em exames, mas também ao que ameaça, diariamente, a vida e a integridade de quem trabalha sob risco permanente.

A pergunta central não é quanto custa reconhecer esse direito, mas qual é o custo social de ignorá-lo.

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Pax trumpista

Ao contrário das parcerias formadas apenas por conveniência profissional ou capital, empreender com um amigo significa colocar em jogo valores, histórias e afetos

16/02/2026 07h45

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Fazer negócios com amigos é uma aposta ousada. Para muitos empreendedores, a confiança forjada em anos de convivência representa uma base sólida para construir algo grandioso. Para outros, é um terreno escorregadio em que as emoções podem sabotar decisões racionais e colocar em risco uma amizade preciosa.

O dilema é real: amizade e sociedade podem ser combustível ou armadilha.

Ao contrário das parcerias formadas apenas por conveniência profissional ou capital, empreender com um amigo significa colocar em jogo valores, histórias e afetos. A sintonia pessoal pode facilitar a comunicação, promover decisões mais rápidas e criar um ambiente de trabalho leve e coeso.

Mas essa mesma proximidade pode dificultar conversas difíceis, esconder conflitos sob o verniz da amizade e impedir a tomada de decisões objetivas.

O grande trunfo de uma sociedade entre amigos – a confiança – também é seu ponto mais vulnerável. A informalidade típica dos laços afetivos, se não for controlada, pode se infiltrar nos processos de gestão, enfraquecendo o profissionalismo.

Expectativas mal alinhadas e a relutância em estabelecer regras rígidas, por medo de parecer “frio” ou “desconfiado”, são erros recorrentes que abrem brechas para desentendimentos profundos.

Para que a sociedade prospere, é necessário um pacto de maturidade. Isso inclui: separação clara entre amizade e gestão, acordos formais e transparentes e planejamento para o conflito, prevendo mecanismos de mediação e resolução.

Há casos emblemáticos que mostram que a aposta pode valer a pena. Larry Page e Sergey Brin (Google), Bill Gates e Paul Allen (Microsoft), Steve Jobs e Steve Wozniak (Apple), Ben Cohen e Jerry Greenfield (Ben & Jerry’s), Bill Hewlett e David Packard (HP) são exemplos de amizades que geraram gigantes da inovação, da tecnologia e da cultura.

Em comum, essas parcerias sustentaram-se em uma visão compartilhada e, muitas vezes, em uma gestão complementar.

Mas mesmo essas histórias de sucesso enfrentaram tensões. Algumas amizades se desgastaram ao longo do tempo, provando que nem o êxito financeiro garante a longevidade do vínculo pessoal se ele não for cuidado. Empreender com amigos não é para os ingênuos.

É para quem tem coragem de enfrentar os riscos com responsabilidade, combinando afeto com racionalidade. A amizade pode ser, sim, o maior ativo de uma sociedade. Mas só será sustentável se vier acompanhada de diálogo franco, planejamento e disciplina.

Mais do que ter uma boa ideia ou uma conexão pessoal, é preciso construir um negócio sobre pilares firmes – e isso começa com clareza, respeito e compromisso mútuo.

Quando bem conduzida, a jornada empreendedora entre amigos pode ser não apenas bem-sucedida, mas transformadora. E provar, na prática, que o melhor dos dois mundos é possível.

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De onde vem o mal?

Apesar dos avanços teóricos, esse questionamento permanece como um dos grandes enigmas da condição humana

16/02/2026 07h30

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Casos recentes de violência extrema, amplamente divulgados pela mídia, reacendem uma pergunta antiga e inquietante: de onde vem o mal? A origem do mal é um tema discutido por diferentes áreas do conhecimento, da religião à filosofia, da sociologia à psicologia.

Apesar dos avanços teóricos, esse questionamento permanece como um dos grandes enigmas da condição humana. Ao longo da história, há uma tendência recorrente em compreender o mal como algo inerente ao humano, inscrito nas construções sociais e nas relações que estabelecemos.

Uma das primeiras dificuldades está em defini-lo. O mal é inato ou adquirido? O ser humano nasce bom e é corrompido pela sociedade ou nasce com tendências violentas que precisam ser contidas por leis e normas? 

Para Hobbes, o homem carrega uma inclinação natural à violência, pois vive em permanente desconfiança. Já para Santo Agostinho, o mal não é uma substância, mas a ausência do bem. São Tomás de Aquino aprofunda essa ideia ao entendê-lo como uma falha do ser.

Nietzsche rompe com a moral cristã ao afirmar que bem e mal são construções históricas moldadas pelas relações de poder. Maquiavel, por sua vez, trata o mal de forma pragmática, como instrumento possível para a manutenção do poder.

Foucault amplia essa leitura ao mostrar que crime, loucura e perversidade são categorias produzidas por discursos e instituições.

No século XX, Hannah Arendt introduz o conceito de banalidade do mal ao analisar o julgamento de Adolf Eichmann. Ela não encontrou um monstro, mas um homem comum, incapaz de refletir criticamente sobre seus atos.

O mal, nesse contexto, não nasce apenas da perversidade consciente, mas da obediência cega e da diluição da responsabilidade individual.

A sociedade contemporânea, marcada pelo enfraquecimento do pensamento crítico e pela polarização ideológica, cria um terreno fértil para a banalização da violência.

O outro passa a ser desumanizado e visto como ameaça. Assim, o mal deixa de ser exceção e se apresenta como resposta legitimada.

A psicanálise reconhece uma pulsão agressiva inerente ao ser humano, mas aponta que cabe às mediações sociais transformá-la em algo simbolizável. Quando essas instâncias falham, a violência emerge de forma crua.

O aspecto mais inquietante é admitir que o mal não está apenas no outro. Ele pode ser cometido por pessoas comuns, movidas pelo medo, pela ideologia ou pela sobrevivência, como ocorreu no Holocausto.

Ao projetarmos o mal exclusivamente nos sujeitos que consideramos malignos ou que taxamos como “loucos”, criamos uma distância psicológica que nos permite sustentar a fantasia de nossa própria pureza, evitando o confronto com a universalidade maldade inerente à condição humana.

Diante disso, talvez a reflexão mais urgente seja reconhecer que o mal não é algo externo, distante ou restrito a figuras excepcionais. Ele habita também o cotidiano, os pequenos gestos, as omissões e as escolhas aparentemente banais.

Somente ao reconhecer essa dimensão humana da maldade é possível construir limites, fortalecer o pensamento crítico e impedir que a violência se naturalize. Estar atento ao mal em nós mesmos exige vigilância ética permanente, capacidade de autocrítica e disposição para enfrentar a própria sombra.

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