Artigos e Opinião

ARTIGO

Ruben Figueró: "Em cima do laço!"

Ex-senador da república

Redação

09/08/2017 - 02h00
Continue lendo...

“Em cima do laço” é uma expressão idiomática regional usualmente proferida nas lides do campo para significar quando o fato está para acontecer. Lembrei-me dela ao me preocupar com os acontecimentos que estão convulsionando o já tenso quadro político que a nação vivencia. Tenho para mim estar no meio de uma borrasca com rajadas de ventos soprados por forças organizadas por energias contraditórias e irreconciliáveis, de um lado busca-se o poder e do outro para nele se manter. 

Sou dos que tem profundo respeito pelos conceitos rotineiramente expressos pelo festejado cientista político Bolívar Lamounier. Ainda recente em sua coluna no Estadão, Lamounier ressaltou : “Estamos sentados num barril de pólvoras, sem forças para levantar e nem ter para onde correr”. Realmente essa a sensação que a população aflita manifesta a todo momento ao observar essa briga de foice no escuro entre aqueles que em Brasília parecem não mais nos representar.

Nada obstante esta esdrú-  xula sensação, algo me alerta que há uma nesga de luz surgindo mercê da recente decisão da Câmara dos Deputados ao negar a autorização para que o Supremo Tribunal Federal apure a denúncia feita pela Procuradoria-Geral da República contra o primeiro magistrado da nação. Como todos os cidadãos e cidadãs também me senti envolvido por aquele imbróglio político, máxime porque pertenço ao PSDB, partido envolvido por ser parte pri na administração do governo atual.

Aliás, estive sempre contrário à participação tucana no governo, pois sempre entendi que a solidariedade do PSDB deveria ser de apoio integral às propostas das reformas (político-eleitoral, trabalhista, previdenciária, tributária e outras tantas imprescindíveis à modernização de nossas instituições públicas). Jamais ao escandalizante acerto de cúpula que enodoou a legenda tucana.

O que nos resta agora ao vexame com a atuação fratricida do PSDB, denunciando uma inconcebível crise de opinião e valores entre suas lideranças parlamentares testemunhada ao apagar das luzes da histórica sessão do dia 2 de agosto na Câmara dos Deputados, é juntar os cacos e tentar erguer um edifício que represente as verdadeiras razões do partido da social democracia. 

No momento as perspectivas são de que perdemos a confiança e a chance de conquistar em 2018 o poder presidencial. As esperanças estão se esvaindo. Resta-nos uma frágil pinguela sobre um caudal revolto. O PSDB ainda possui um programa de propostas que poderão reeerguê-lo, dentre elas ressalto a luta pela implantação do parlamentarismo. É um fato que poderá acontecer.

EDITORIAL

Benefício social exige dado, não achismo

Programas sociais não podem ser tratados nem como vilões automáticos nem como soluções mágicas, eles são ferramentas e precisam de dados, fiscalização e ajuda constante

22/01/2026 07h15

Continue Lendo...

Quando o assunto é benefício social, o primeiro desafio é vencer as paixões. E isso não é pouco. Poucos temas despertam tantos achismos, frases prontas e conclusões de mesa de boteco quanto programas de transferência de renda. Ainda assim, se quisermos discutir o tema com seriedade, é justamente dessas paixões que precisamos nos despir.

Programas como o Bolsa Família não são novidade. Eles existem há mais de duas décadas no Brasil e em Mato Grosso do Sul, atravessaram governos, crises econômicas e mudanças de nome e continuam no centro do debate público.

Fala-se, recorrentemente, em “porta de saída”, em dependência crônica do Estado e até em concorrência desleal com empregos de baixa remuneração, ancorados no salário mínimo. São discussões legítimas, mas que só fazem sentido quando sustentadas por dados, não por impressões.

A verdade é que constatações empíricas baseadas em casos isolados ou em narrativas convenientes não podem prevalecer quando se trata de política pública. Benefícios sociais exigem números, critérios claros, avaliação permanente de impacto e, sobretudo, fiscalização rigorosa.

É fundamental saber quem recebe, por que recebe e se ainda preenche os requisitos. As portas de entrada desses programas – especialmente os Centros de Referência de Assistência Social (Cras) – precisam funcionar com responsabilidade, transparência e controle.

Nesta edição, mostramos que apenas no ano passado o Bolsa Família, na esfera federal, e o Mais Social, no âmbito estadual, movimentaram mais de R$ 1,8 bilhão em Mato Grosso do Sul.

É um volume expressivo de recursos, superior, inclusive, ao que muitas prefeituras e grandes empresas desembolsam anualmente com folhas salariais. Ignorar esse dado ou tratá-lo de forma superficial é perder a dimensão real do tema.

Mas esse número também precisa ser analisado sob outro prisma: o econômico. Por se tratar de recursos destinados majoritariamente à população de baixa renda, há uma alta probabilidade de que esse dinheiro circule rapidamente na economia local.

Ele vai para o comércio de bairro, para o pequeno mercado, a farmácia da esquina, a padaria, o transporte. Em muitos casos, sustenta micro e pequenas empresas e ajuda a manter empregos.

Isso não significa, evidentemente, que o modelo não precise ser aprimorado. Pelo contrário. O caminho está no aperfeiçoamento, não na demonização. É urgente ampliar os mecanismos de controle para evitar distorções, como proibir o uso desses recursos em apostas e jogos on-line.

Também é necessário reforçar as condicionalidades, como a matrícula escolar e o acompanhamento das famílias pelas Unidades de Saúde.

Programas sociais não podem ser tratados nem como vilões nem como soluções mágicas, eles são ferramentas e, como toda ferramenta pública, precisam de dados, fiscalização e ajustes constantes. Só assim deixam de ser alvo de paixões e passam a cumprir, de fato, o papel para o qual foram criados.

ARTIGOS

Criatividade sob nova gestão

A criatividade depende do "pensamento divergente", aquela capacidade que temos de explorar múltiplas soluções e conectar conceitos distantes

21/01/2026 07h45

Continue Lendo...

Imagina só: você finalmente encontrou a solução para ser criativo. Basta digitar um prompt, apertar “enter” e pronto, a máquina faz o trabalho que seu cérebro deveria fazer. Problema resolvido. Inovação garantida. Só que não!

Pesquisadores da Wharton School, na Universidade da Pensilvânia, mostraram que a inteligência artificial (IA) tornou todos nós criativos exatamente da mesma forma.

Sim, você leu certo. Este estudo mostrou que enquanto o ChatGPT melhora a qualidade média das ideias individuais, ele faz algo muito mais insidioso: força todos a pensar igual. Em um experimento simples, criar um brinquedo com um ventilador e um tijolo, participantes que usaram IA convergiram para a mesma solução.

Vários até nomearam a criação “Build-a-Breeze Castle”. Enquanto isso, o grupo sem IA gerou ideias completamente únicas. Apenas 6% das ideias com IA foram consideradas originais, contra 100% do grupo humano.

Isso significa que a IA transformou a criatividade em um jogo de múltipla escolha em que todos marcam a mesma resposta.

Do ponto de vista neurobiológico, o fenômeno é fascinante e aterrorizante simultaneamente. A criatividade depende do “pensamento divergente”, aquela capacidade que temos de explorar múltiplas soluções e conectar conceitos distantes.

A IA, porém, funciona por probabilidade. Ela oferece o caminho mais provável, a solução mais otimizada, o resultado mais esperado. É como se pedisse ao seu cérebro para caminhar por uma estrada perfeitamente asfaltada quando a verdadeira inovação está na floresta ao lado.

O resultado? Uma “mente coletiva” homogênea. Um eco cognitivo em que as melhores ideias são apenas variações sofisticadas do mesmo tema. A inovação disruptiva, aquela que muda indústrias inteiras, nasce da colisão de perspectivas radicalmente diferentes.

Quando todos bebem da mesma fonte probabilística, essa colisão nunca acontece. Todos pensam parecido. Todos chegam às mesmas conclusões. Todos fracassam juntos.

Mas aqui vem a ironia deliciosa: a solução não é abandonar a IA. É aprender a usá-la de forma diferente. Os pesquisadores de Wharton descobriram que variar os comandos, usar múltiplos modelos de IA e, obviamente, começar com pensamento humano antes de envolver a máquina conseguem mitigar essa convergência perigosa.

Chain of thought prompting, múltiplos modelos, prompts diversificados, técnicas simples que transformam a IA de uma muleta para o pensamento em um parceiro de treino legítimo.

A verdade incômoda que ninguém quer ouvir é esta: a IA não cria nada que você já não seja capaz de criar, ela apenas amplifica o que você já é. Se você é criativo, a IA potencializa sua criatividade, mas apenas se você souber dançar com ela, variar seus passos, desafiar suas sugestões.

Se você é medíocre, ela torna sua mediocridade mais eloquente, mais polida, mais convincente. A máquina não inventa, ela espelha, e espelhos, como sabemos, refletem exatamente o que colocamos na frente deles.

Se a criatividade humana começa a terceirizar a si mesma, talvez não seja a tecnologia que esteja avançando rápido demais, talvez sejamos nós que estejamos freando cedo demais.

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).