Artigos e Opinião

OPINIÃO

Thaynara Silva Bandeca e Fabiano Santana dos Santos: "Os impactos do turismo desigual"

Thaynara Silva Bandeca é Acadêmica do curso de Administração da UFMS - Três Lagoas
Fabiano Santana dos Santos Professor no curso de Administração Pública da UFAL - Campus da Arapiraca (AL)

Redação

14/01/2016 - 00h00
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Desde os primórdios, o turismo é praticado pela civilização – e registros arqueológicos comprovam que as pessoas já se deslocavam do seu habitat em um determinado período de tempo em busca de diversão e outros interesses sociais e culturais.  Com o passar do tempo, essa prática foi-se expandindo e acabou tornando-se uma atividade econômica muito atrativa tanto para os empresários quanto para os turistas. 

O turismo nada mais é que uma atividade econômica entrelaçada com as condições geográficas do local. A paisagem pode ser natural (clima, relevo, hidrografia), como também cultural (museu, paisagem arquitetônica, eventos culturais e econômicos, entre outros). O primeiro contato do turista é visual e, partindo desse ponto, o empresário preocupa-se com o espaço físico do atrativo, de modo que, muitas vezes, o ambiente é afetado drasticamente com desvio de rios, desmatamento de florestas, plantação de espécies de plantas que o solo daquele espaço não comporta, alterando, assim, a capacidade de sustentar a vida vegetal e animal do ambiente.

Além do impacto ambiental causado, o turismo influencia diretamente a cultura do local, podendo chegar a descaracterizá-la ou desvalorizá-la: os habitantes, em decorrência do contato contínuo com pessoas de todas as regiões, acabam incorporando determinados costumes e comportamentos distintos. O comércio também pode ser influenciado negativamente, pois ocorre a venda de produtos de outras regiões com a intenção de agradar quem por ali passa, deixando os produtos locais de lado, prejudicando, assim, os comerciantes. A geração de emprego também é, muitas vezes, bastante limitada em pontos turísticos, pois, para tornar mais ágeis muitos processos, a mão de obra escolhida acaba vindo de outras regiões.

A sociedade de uma cidade turística carente sofre com a má distribuição de verbas destinadas às melhorias. Geralmente, nessas cidades, a maior parte da renda vai para o turismo local, deixando de lado, por vezes, investimentos mais importantes, como hospitais, postos de saúde, escolas, vias urbanas, entre outros. É o que se pode observar na cidade de Ipojuca, em Pernambuco. Apesar da economia crescente e do forte potencial turístico, 80% dos alunos da rede municipal de ensino não sabem ler ou escrever corretamente. O que mais impressiona é que se trata do segundo maior PIB do estado e de uma arrecadação de impostos que ultrapassa R$ 43 milhões por mês. As belezas naturais da região são reconhecidas internacionalmente, com destaque para o vilarejo de Porto de Galinhas, contudo o local, que recebe turistas o ano inteiro, só possui uma escola municipal e não tem creche pública.

A cobiça pelo dinheiro faz que os investidores tratem com indiferença os muitos impactos negativos que o turismo pode causar, pensando apenas na quantidade de “zeros” à direita em suas contas bancárias. E essa gula pelo “querer ter sempre mais” acarreta cidades turísticas sujas, violentas, sem incentivos à economia local, com moradores totalmente desmotivados e desesperançados.

Para fazer que essa situação seja diferente, o governo deve ter uma postura mais rigorosa para com os empresários, cobrando estatísticas positivas para a cidade, como melhoria da qualidade de vida da comunidade local, utilização da população local como mão de obra, indicadores ambientais positivos, entre outras políticas. Dessa forma, o turismo seria benéfico tanto para as pessoas que por ali passeiam, quanto para os habitantes.

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Como identificar relações amorosas abusivas

08/06/2024 08h30

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O Dia dos Namorados está chegando e se tornou muito comum trocar presentes e fazer declarações amorosas. Se por um lado essa prática apresenta expressões de afetividade, carinho e dedicação, por outro, pode ocultar traços de algo muito frequente na nossa cultura: as relações abusivas.

Viver um relacionamento abusivo é um processo mais complexo do que se pode supor à primeira vista. Raramente um relacionamento já se inicia evidenciando as características abusivas. Normalmente, trata-se de um processo que vai se aprofundando ao longo do tempo de convivência a partir de um domínio psicoemocional de uma das partes sobre a outra. 

Esse é um assunto sério e que merece absoluta atenção e cuidado de todos os segmentos sociais. De acordo com dados do relatório publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), somente em 2023 foram registrados 1.463 casos de feminicídio no Brasil, cerca de um caso a cada seis horas. Esse é o maior número registrado desde que a lei contra feminicídio foi criada, em 2015.

A pesquisa apontou que 18 estados apresentaram uma taxa de feminicídio acima da média nacional, de 1,4 mortes para cada 100 mil mulheres. Entre eles, o estado de Mato Grosso apresentou a maior taxa no ano passado, com 2,5 mulheres mortas por 100 mil. Entre 2015 e 2023, um total de 10,65 mil mulheres foram vítimas de feminicídio.

Afinal, por que esse é um problema que atinge muito mais as mulheres do que os homens no Brasil? A resposta é um tanto quanto óbvia, somos um País de bases extremamente patriarcais e machistas, o que significa dizer que, simbolicamente, as mulheres tendem a ocupar um lugar de inferioridade no tecido social e, por isso, são mais vulneráveis a todo tipo de violência. É pelo mesmo motivo que se torna, frequentemente, mais difícil para elas saírem ou evitarem situações de violência.

O psiquiatra austríaco Viktor Frankl fala de dois comportamentos humanos que favorecem a perpetuação de situações de violência: o conformismo e o totalitarismo. O primeiro (conformismo) é caracterizado pela aceitação sem oposição do que fazem conosco por não sabermos o que fazer. Já no segundo (totalitarismo), há uma imposição da vontade de um dos parceiros, desconsidera-se completamente a outra pessoa e suas as diferenças, não há empatia.

Assim, uma relação abusiva é necessariamente totalitária, já que uma das partes desconsidera deliberadamente a outra e a subjuga às suas vontades. É importante frisar que uma relação abusiva não começa declaradamente abusiva, ela vai construindo um domínio sobre o outro.

Inicialmente, há uma tendência ao encantamento, movimentos sedutores com elogios, agrados e dedicação quase exclusiva à pessoa. Posteriormente, vai-se havendo um controle em todas as instâncias da vida do outro: rede de relacionamento, vestimenta, lugares aonde vai, atividades de lazer, etc. Por fim, surgem as críticas, o menosprezo e os xingamentos, proibições no ir e vir, exclusão da convivência com amigos e familiares e agressões que podem escalar de humilhações psicológicas para físicas.

Há na vítima um sentimento em níveis variados de insegurança e inferioridade, além da baixa estima e da percepção distorcida da relação consigo, da relação e da realidade. O agressor costuma se manter em um patamar de alguém que “não faz por mal” ou “que exerce um cuidado além da conta” ou “que mudará”. 

Mesmo tendo a percepção do que está acontecendo, são muitos os fatores que podem dificultar para que a vítima saia de um relacionamento abusivo, tais como a dependência financeira, a dependência emocional, a pressão familiar, a pressão religiosa, o medo do que pode acontecer se denunciar e a falta de apoio social para sua emancipação.

Trata-se de uma problemática cultural no Brasil que deve implicar a todos nós, uma vez que estamos educando os nossos filhos e filhas a partir de como nos relacionamos em sociedade e da maneira como desenvolvemos e exercemos a nossa cidadania.

Políticas públicas de apoio a vítimas de abuso têm crescido no Brasil, contribuindo para a conscientização social e a introdução de novas perspectivas em nossa cultura. Graças a essas ações, cada vez mais pessoas têm buscado ajuda por meio dos serviços de saúde mental públicos e privados para construir novas relações e romper com o ciclo da violência.

Ainda assim, é preciso mais. Mais conscientização, mais políticas de educação e promoção social, mais iniciativas que nos aproximem pela via do afeto, da convivência com as diferenças, em que a perspectiva totalitária de um indivíduo ser subjugado pelo outro não faça mais sentido.

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Caminho da vida

08/06/2024 08h00

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Sabemos por meio das lições diárias que a vida nos oferece que, apesar das limitações intelectuais, nos encontramos sempre a caminho. Nada é definitivo. Tudo é passageiro. Tudo é vulnerável. Tudo em seus limites. E nós, míseros humanos, nos sentimos insaciáveis. Isso significa busca permanente de maneiras de viver.

Buscamos sempre caminhos possíveis. Buscamos sempre verdades que preencham o vazio da alma. Buscamos algo que consiga saciar a sede do eterno. Buscamos algo além do comum que consiga saciar a fome de amar e de ser amado, confiar e encontrar confiança, acreditar e ser acreditado.

Por esses assim chamados caminhos, ter a surpresa agradável de encontrar Deus e saborear sua grandeza de alma, sua generosidade no coração e sua misericórdia em suas mãos. Esse Deus de poucas palavras e de muito amor. Esse Deus de nada exigir e tudo doar na gratuidade. Esse Deus que não perturba, mas tudo renova.

Essa seria a imagem que todos e todas deveriam contemplar em seu interior. E deveria comunicar a tanta gente perdida nesse mundo por lhe faltar alguém que console na tristeza e lhe devolva a serenidade nos momentos amargos.

O Mestre dos mestres tantas vezes, em sua caminhada missionária, alertou a todos quantos quisessem segui-lo que não tivessem medo. O caminho, por vezes, se tornaria íngreme, o caminhar seria cansativo e desgastante. Era preciso coragem e confiança naquele que se encontrava no mesmo caminho.

A felicidade se encontra justamente nesse caminhar. Mas, apesar desse alerta, muitos desistiram e o abandonaram. Outros negaram reconhecê-lo e seguiram por outros caminhos. Outros o traíram e o condenaram. Outros juraram contra ele, o condenando à morte e morte de cruz.

A fidelidade de Deus viu-se transgredida e destruída. Mas ele não pensa em vingança, pensa em perdão e misericórdia, porque os humanos não entendem o amor divino. E isso poderia causar dificuldades, sem contar que Deus pode se aproximar da humanidade. Mas ele continua acreditar em uma convivência fiel.

O evangelista Marcos, em seus ensinamentos, mostra muito claramente as dificuldades que o Mestre estava encontrando para atender a tantos necessitados. Eram tantos que não sobrava espaço para o descanso e a alimentação. Revela o tanto que se dedicava e o tanto de desgaste por atender.

Mostra o tanto que seus seguidores deveriam aprender em esforço por acolher, atender e servir. Assim, hoje essas necessidades continuam e desafiam a generosidade dos também seguidores do Mestre dos mestres.

Mas o mundo de hoje tem maneiras diferentes de olhar as necessidades dos irmãos e das irmãs. Alegam que não sobra tempo para a caridade, não sobra tempo para a oração, não sobra tempo para a generosidade, não sobra tempo para a misericórdia. Não sobra tempo para Deus.

Entendemos que Deus terá que se contentar com as sobras de tempo. Terá que se contentar com as sobras de amor. Terá que se contar apenas com as sobras de bens a serviço da vida e da dignidade desses seres marginalizados e condenados a sobreviver com humanos e divinos.

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