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Medo do vírus, trabalho e falta de aula: as faces da abstenção recorde do Enem

Medo do vírus, trabalho e falta de aula afugentaram oc candidatos ao Enem 2021
24/01/2021 11:32 - Estadão Conteúdo


Realizado em meio à segunda onda da covid-19, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) nunca teve tão pouca participação desde que a prova se tornou, em 2009, a principal porta de entrada para o ensino superior. 

Medo do vírus, trabalho e falta de aula, são as justificativas dos candidatos.

Mais de 2,8 milhões de inscritos deixaram de fazer o exame no último domingo. 

O número, gigantesco, revela histórias de desalento de Norte a Sul, em um país que tem fracassado no gerenciamento da Saúde e da Educação durante a pandemia.

Rostos pretos, brancos, molhados de suor ou de lágrimas são a cara da abstenção do Enem. 

Os ausentes no exame são jovens como o Ruan, de 22 anos, que trabalhava como motoboy enquanto outros da mesma idade faziam a prova. 

Ou têm história parecida com a da Larissa, que perdeu a paz depois de enterrar a tia, infectada com a covid-19, e agora vê os avós no hospital.

Muitos tiveram medo de se contaminar, caso da Manuela, ou não puderam ir porque já estavam doentes, como o Danilo, 

E teve até quem tentou fazer a prova, mesmo com medo, percorreu quase duas horas em um ônibus, mas encontrou as salas lotadas e acabou impedido de entrar - história do Tiago Felipe.

A segurança do exame, em meio à pandemia, foi questionada na Justiça, mas o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), órgão do Ministério da Educação (MEC), conseguiu manter as datas. 

Após o primeiro dia de aplicação, a Defensoria Pública da União (DPU) fez novo pedido para que as provas fossem adiadas e para que o exame seja reaplicado a todos os ausentes, mas a solicitação foi novamente negada. 

Hoje, estudantes fazem os testes de Ciências da Natureza e Matemática - os resultados do Enem só devem sair em março. 

As notas são usadas para concorrer a bolsas no ensino superior privado ou a vagas em universidades federais.

No último domingo, o ministro Milton Ribeiro afirmou que o Enem "foi um sucesso", mesmo com o índice de abstenção de 51,5%. 

"Para os alunos que puderam fazer a prova, foi um sucesso", disse.

Já Priscila Cruz, presidente executiva e cofundadora do Todos pela Educação, classifica o último domingo como um fracasso.

"O Enem é mais um triste episódio de um Ministério da Educação incompetente, omisso e alheio à realidade da educação, dos estudantes e da pandemia no Brasil." 

Ela pede transparência sobre a prova. "A sociedade precisa saber a dimensão dos prejuízos causados."

Foram ouvidos alguns jovens que deixaram de fazer a prova no último domingo. 

Confira os depoimentos.

Larissa Paiva, de 19 anos.

'Perdi uma tia e meus avós estão internados'

Meu maior sonho é entrar em uma faculdade. 

No início do ano, estava estudando para o vestibular, muito animada, até que veio a covid-19. 

Meu salário foi reduzido e tive de parar o pré-vestibular que estava custeando. 

Em março, minha tia morreu de covid (uma das 28,2 mil vítimas no Estado). Ela tinha 42 anos, deixou filho e marido. 

Quem teve de dar a notícia e cuidar de tudo fomos eu e minha prima. Foi um baque! Aquilo acabou comigo. 

Tentei estudar por conta própria em casa, mas sozinha é difícil. 

As coisas estavam ficando cada vez mais complicadas, tinha o medo, porque minha mãe trabalha fora. 

Ainda queria fazer a prova, até que, em janeiro, minha avó e meu avô foram para o hospital com a covid. 

Estão internados e sem previsão de alta. 

Não temos contato. 

Ali percebi que não tinha mais estrutura para fazer o Enem. Não tenho cabeça, meu psicológico está abalado, são muitas informações.

Ruan Felipe Machado, de 22 anos


'Abri mão da prova. Eu tinha de trabalhar'

No começo de 2020, resolvi que voltaria a estudar. 

Lembrei do cursinho popular e fui. 

O pessoal me ajudou bastante, mas infelizmente a pandemia me quebrou. 

Estudei até março, mas, quando as aulas online começaram, nunca batiam com meu horário livre.

Pego serviço do meio-dia às 23 horas. 

E não ia parar de trabalhar para assistir às aulas online. 

Se eu não trabalhasse, iam faltar coisas em casa. 

E nunca que vou deixar isso acontecer ano passado, trabalhei em restaurante e como entregador iFood de bike até conseguir meu emprego de motoboy. 

Terminei o ensino médio em 2018, quando nasceram minhas filhas gêmeas.

Em 2020, consegui isenção e seria a primeira vez que eu tentaria fazer a prova. Pelo menos esse ano, abdiquei de estudar e abri mão do Enem. Eu tinha de trabalhar.

Manuela Verli, de 18 anos

'Preferi não arriscar a vida dos meus pais'

Desisti da prova por causa da covid-19. 

Meus pais são do grupo de risco e eu não queria arriscar a minha vida e a deles. 

Meu pai tem problema de coração e diabete, e minha mãe tem aneurisma.

Esse seria meu primeiro Enem.

Sou aluna de escola pública e estava estudando por conta própria. 

Não é a mesma coisa que um cursinho ou uma escola particular, mas estava tentando o meu melhor por isso, fiquei frustrada por não fazer. 

Foi uma escolha minha e não me arrependo. 

A minha vida e a dos meus familiares sempre vêm em primeiro lugar, mas ainda tem aquela sensação de estar jogando uma oportunidade no lixo.

Duas semanas antes da prova, já estava sentindo medo e preocupação. Na semana do Enem, me perguntei se deveria ir. Aumentaram os casos na minha cidade, teve aquela situação em Manaus (falta de oxigênio) e percebi que não valia a pena.

Danilo Ferraz, de 18 anos


'Tive sintomas e o cuidado de dizer não'

Comecei a ter sintomas da covid-19 cinco dias antes do Enem. 

Descobri que estava contaminado e precisei entrar com processo para reaplicação. 

Meus sintomas foram leves, dor de garganta, e só depois do teste é que senti febre. Perdi paladar e olfato.

Fiz cursinho durante o ano e não foi muito fácil porque estava tudo a distância, mas eu estava tentando me preparar da melhor forma. 

Quero prestar Medicina. 

Foi frustrante ter covid porque estava tão perto do Enem... 

No dia do exame, quando deu 12 horas, pensei: 'O que faço agora?' Estava todo mundo fazendo a prova. Mas nunca cogitei prestar o exame contaminado. 

Tive o cuidado de falar não.

Vejo em Manaus a falta de oxigênio e tenho medo de apresentar um quadro mais grave. 

Hoje estou bem, mas amanhã não sei.