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SAÚDE

Autotransfusão é alternativa para queda na doação de sangue em Mato Grosso do Sul

Hemosul registra média de 40% em coleta de sangue durante pandemia e em novembro chegou a 4%
05/12/2020 08:00 - Ana Karla Flores


Com estoques de sangue baixos por causa da pandemia do novo coronavírus, técnica de autotransfusão sanguínea se tornou uma alternativa para a realização de cirurgias de emergência no Estado.

De acordo com a coordenadora do Hemosul, Mayra Franceschi, enquanto no início de 2020, o local chegou a registrar 70% de coleta de sangue diária, com a pandemia, o índice caiu para 40%.

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Além de ser uma alternativa para o deficit, a autrotransfusão também tem outras qualidades, como a redução de chances de contrair doenças infectocontagiosas e tempo de recuperação.  

De acordo com o cirurgião cardiovascular do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (HUMAP), Marco Antônio Mello, a autotransfusão é realizada com um equipamento chamado recuperador de células.

A máquina aspira o sangue que sai dos vasos sanguíneos durante o procedimento cirúrgico e processa a lavagem das hemácias, que depois serão reinfundidas no paciente.

“A nova classe de recuperador de células possui um modo automático que pode ser utilizado nas primeiras horas de pós-operatório, assim reduzindo as perdas sanguíneas nas primeiras horas após a cirurgia cardíaca”, afirma.

Entre as vantagens com a utilização da técnica estão a segurança, a disponibilidade do sangue e o custo-benefício. 

A autotransfusão evita problemas de compatibilidade sanguínea, já que o sangue utilizado é do próprio paciente, tem disponibilidade imediata do próprio sangue e reduz a demanda por sangue doado e suas sorologias de alto custo para doenças transmissíveis.

A técnica reduz as doenças contagiosas ou qualquer outro hemocomponente, como plasma ou plaquetas, por meio do processamento e da retransfusão do sangue perdido pelo paciente durante o procedimento. 

“Observei que os pacientes que foram operadas e foram submetidos a autotransfusão, tiveram menor tempo de internação hospitalar e complicações cirúrgicas, tais como infecção”, explica o cirurgião.

 
 

Queda nas doações

Segundo o cirurgião, a queda nas doações é o principal problema atualmente. 

“Sabe-se que, em decorrência da pandemia, está ocorrendo uma diminuição das doações de sangue e com isso a queda dos estoques de bolsas de concentrado de hemácias e demais hemocomponentes nos hemocentros. A autotransfusão consegue reduzir a necessidade de transfusão de sangue homólogo nas cirurgias”, pontua.  

A coordenadora do Hemosul explica que de junho até a primeira quinzena de setembro os estoques de sangue tiveram a maior queda nas doações de sangue. Na segunda semana de novembro, o número de coleta de sangue chegou a 4%. 

“Essa semana e a outra melhorou um pouco, 30% de sangue mais baixo. Agora, melhorou um pouco, mas tem de continuar essa doação”.

A autotransfusão pode ser utilizada principalmente em cirurgias ortopédicas de grande porte, de trauma, em transplantes de fígado e de coração e outros procedimentos nos quais o cirurgião considera que haverá muita perda sanguínea. 

“Para o hospital, a principal vantagem é a redução do tempo de internação hospitalar e os custos com a transfusão de sangue”, indica o cirurgião.

Mello utiliza a técnica em cirurgias há mais de 10 anos em Mato Grosso do Sul, e operou cerca de 100 pacientes com a autotransfusão. No Hospital Universitário, o método começou a ser utilizado de forma rotineira a partir desse ano. 

“Para operar uma paciente de convênio, eu preciso justificar esse equipamento e o convênio se prontifica em fornecer”, explica.

De acordo com o cirurgião, o equipamento não está incluso no custo hospitalar em cirurgias feitas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e o HU conseguiu a máquina como comodato, ou seja, um aluguel, em que o Hospital paga o tempo de uso. 

“O Hospital compra o kit para utilizar no equipamento mediante contrato e pregão eletrônico. Então isso é questão de interesse da instituição”, frisa.

Os primeiros pacientes que foram contemplados pela técnica não precisaram de transfusão de sangue homóloga e tiveram um tempo de internação hospitalar reduzido, explica Mello.  

O primeiro paciente de autotransfusão do HU, José Antônio Paraná, 64 anos, recebeu alta no terceiro dia de pós-operatório, após uma cirurgia no miocárdio, uma ponte mamária e duas pontes de safena.

A residente do HU e nora do paciente, Michaela Tognini, explica que a máquina acompanhou Antônio no pós operatório, caso tivesse pequenos sangramentos. 

“Ele ficou um tempo mínimo de internação e foi para casa bem, a gente acredita que uma parte desse sucesso da cirurgia cardíaca aberta, a grande parte, claro, é da técnica dos cirurgiões, mas com certeza esse procedimento de autotransfusão diminuiu o tempo de internação e ajudou na recuperação dele”, detalha.