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SAÚDE

Cenário da Covid-19 no mundo é pior que pandemia da gripe espanhola

Segundo infectologista, negacionismo da população prejudicou o combate à doença
26/12/2020 10:30 - Brenda Machado


Mais de 100 anos após a gripe espanhola, o mundo enfrenta uma nova pandemia mortal, que colocou a prova o conhecimento científico e mostrou o quanto as notícias falsas e o negacionismo da população e dos governantes podem prejudicar a saúde pública. 

Para a médica infectologista Mariana Croda, a falta de uma política única de combate ao vírus no Brasil se tornou um dos principais agentes propulsores da propagação da Covid-19.

Segundo a especialista, os vírus respiratórios são velhos conhecidos dos seres humanos e talvez por isso não causem tanto medo quanto deveriam.

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No caso da pandemia da gripe espanhola, em 1918, e a pandemia da gripe H1N1, também conhecida como gripe suína, que ocorreu em 2009, foram causados por vírus da família Influenza. Mesmo com tantas mortes pelo caminho e com apenas uma forma de combate – as vacinas –, parece que a população perdeu o medo das doenças.

“A gente entra em um momento de negacionismo para a única solução, que é a vacina, então nós estamos muito piores agora”, frisa Mariana Croda.

Mortes

A gripe espanhola foi responsável por cerca de 500 milhões de infecções ao redor do mundo. No Brasil, o número de casos chegou a 19,5 milhões, o que na época representava 65% da população nacional, que era de 30 milhões de pessoas.  

Em relação aos óbitos, as estimativas globais da época apontam que a gripe espanhola foi responsável pela morte de 20 a 40 milhões de pessoas, segundo a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), sendo que no Brasil esse número foi de 35 mil, entre eles o então presidente eleito, Rodrigues Alves, que acabou não assumindo o cargo.  

Superando este número, em nove meses mais de 189 mil brasileiros perderam a vida em razão do novo coronavírus e, com a crescente de casos diários e a alta nas internações, os sinalizadores indicam que a tendência é o número aumentar. 

“Nenhuma medicação até hoje foi capaz de mudar o curso da doença. Dentro das formas graves, os medicamentos que a gente tem alteram muito pouco a forma da infecção”, frisa.  

Conforme explicou a infectologista, as dificuldades em Saúde enfrentadas anteriormente deveriam servir de espelho para a forma correta de lidar com a situação atual. Porém, além de buscar medicamentos e vacinas para o tratamento, a ciência precisa lutar contra fake news, notícias falsas que deslegitimam a ciência. 

“O governo brasileiro é o maior propagador de fake news, porque quando ele chega e fala que não precisamos de vacina, e que existe um tratamento precoce, quem é a luz da ciência não consegue ter argumento pra tratar isso como inadmissível”, ressalta Croda. 

 
 

Vacina

A vacina da gripe surgiu em agosto de 2010, um ano e seis meses após o início da epidemia da gripe suína no Brasil. Foi incorporado um subtipo do vírus H1N1 ao imunizante, para que ele conseguisse combater a infecção e a aplicações de dose é anual.  

O objetivo dos cientistas é alcançar uma nova vacina que seja capaz de detectar e reagir à presença do vírus Sars-Cov-2, responsável pela doença da Covid-19.  

Enquanto a vacina não chega, a média móvel de casos da doença continua crescendo em vários países, como no Reino Unido e na Alemanha, que chegaram a decretar lockdown, ou seja, o fechamento de todos os serviços não essenciais.  

No Brasil e em Mato Grosso do Sul, os números continuam crescendo. O Estado vive a pior fase da pandemia, com hospitais lotados e recorde de mortes.  

Por enquanto, a prevenção é com o uso de máscara cobrindo nariz e boca, a higienização frequente das mãos e o distanciamento social, recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), é a única forma de prevenir a disseminação da doença.

Estados Unidos

A gripe espanhola teve seu primeiro caso registrado em fevereiro de 1918, nos arredores do Texas, nos Estados Unidos, quando um soldado da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) apresentou sintomas de uma gripe forte e, na mesma semana, acabou infectando outras 200 pessoas do acampamento. 

Segundo a Fiocruz, a gripe aconteceu em duas ondas, na primeira, embora bastante contagiosa, era uma doença branda e não causava mais que três dias de febre e mal-estar. Já na segunda onda, em agosto, quando chegou ao hemisfério Sul, tornou-se mortal.

Em setembro de 1918, o navio Demerara, vindo de Lisboa, desembarcou o vírus no Brasil. Militares doentes aportaram em Recife, Salvador e Rio de Janeiro, então capital federal. Assim como na história recente do País, na época as autoridades também desacreditaram do perigo da doença. Acreditava-se que o vírus não seria capaz de atravessar um oceano.

Passado um século desde o fim da gripe, a evolução da ciência, a globalização e os novos conhecimentos não foram suficientes para frear o contágio da Covid-19.  

A nova pandemia teve seu primeiro caso registrado em dezembro do ano passado, na cidade de Wuhan, na China. De lá pra cá, a média global supera 75 milhões de pessoas infectados e está em quase 1.700 milhão de óbitos.  

No Brasil, o estado de emergência em saúde pública foi decretado pelo Governo Federal em 03 de fevereiro deste ano.

Nos meses mais críticos da pandemia, houve uma intensa mobilização para que, assim como em 1918, hospitais de campanha fossem abertos, auxiliando no tratamento da gripe.  

Na época, o sanitarista Carlos Chagas assumiu a direção da Fiocruz e implantou, além de cinco hospitais de campanha, 27 postos de atendimento para a população. Este ano, o empenho precisou competir com a proporção habitacional, 79 hospitais de campanha foram abertos.

Além das grandes unidades, alguns pontos do País também tiveram de recorrer a esforços extras, como em Mato Grosso do Sul, que manteve o Polo de Atendimento para Casos de Coronavírus ativo por seis meses. A estrutura ocupou parte do Parque Olímpico Ayrton Senna e recebia pacientes suspeitos da doença para diagnóstico e orientação.