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MEIO AMBIENTE

Depois da catástrofe ambiental que deixou animais carbonizados e vegetação destruída, região pantaneira começa a se regenerar

Região pantaneira se recupera após fogo que atingiu o bioma durante meses
24/10/2020 10:00 - Silvio Andrade


A imagem de um macaco búgio carbonizado em meio às cinzas de uma mata completamente consumida pelo fogo em uma fazenda no Pantanal de Corumbá virou símbolo da destruição causada pelas queimadas no bioma. A seca extrema, a maior dos últimos 50 anos, e o fogo foram implacáveis na maior área úmida do mundo, cujas consequências ambientais são imprevisíveis.

Lembrando as cenas de Pompéia (Itália), onde pessoas e animais foram petrificadas pelas larvas do vulcão Vesúvio, no século 79 d.C, o corpo do macaco em posição de fuga, assemelhando-se a uma figura humana, é uma cena chocante e revela um cenário de horror nunca visto no Pantanal. Efeitos das mudanças climáticas, do desmatamento na borda do ecossistema e da ação do homem. O fotógrafo paulista Lalo Almeida se deparou com uma família de macacos búgios carbonizada em um campo devastado da fazenda Santa Tereza, o registro macabro o impressionou e o entristeceu. Nos galhos das árvores, ele também encontrou aves mortas, sem chances de alçar voo diante de um fogo empurrado por um vento a 50 km/h. “O fogo parecia turbina de avião”, conta em relato emocionante.

Os satélites apontam que os incêndios florestais de grandes proporções destruíram 4,1 milhões de hectares este ano no Pantanal, representando 27% da área do bioma, entre Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. Para a ciência, a vegetação do ecossistema tem resposta rápida ao fogo, mas e a fauna? Não se tem noção, ainda, da quantidade de animais mortos e dos impactos a seus habitats.

Muitos animais, entre onças, cobras, antas, jacarés, cutias e capivaras, foram resgatados pelas equipes de combate ao fogo e por organizações não-governamentais, porém, um porcentual insignificante diante da mortandade ocorrida e registrada pelas câmeras. Os técnicos observam que os animais sobreviventes sofrem de desidratação e têm dificuldades de encontrar alimentos.

“Vi uma realidade muito maior do que qualquer ficção. A face do horror, fogo descontrolado, animais desorientados”, observa o premiado fotógrafo Araquem Alcântara, que passou 19 anos documentando o fogo na região. “Vi bichos fugindo, muita fumaça, uma terra arrasada, verdadeiro holocausto”, diz ele, autor de vários livros sobre as belezas naturais dos biomas brasileiros.

 

O ciclo perdido

Os esforços para salvar os animais feridos e os que se refugiaram mobilizaram uma aeronave para resgatar uma anta na Serra do Amolar – trazida para se recuperar em Campo Grande –, e entidades e voluntários em campanhas de arrecadação de alimentos para serem distribuídos na natureza. O socorro também envolveu os povos ribeirinhos que vivem na linha do fogo – 200 km ao longo do Rio Paraguai.

Pesquisadores de várias universidades estão em campo para avaliar as consequências das queimadas para o ambiente pantaneiro. O ecólogo Claumir César Muniz, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), trabalha há 16 anos na região e nunca assistiu a uma devastação dessa proporção em um bioma que tem ocorrência anual de fogo. Ele cita que o impacto à ictiofauna será ainda mais grave.

“Os peixes vão sentir os reflexos do fogo depois, principalmente com a perda de alimentos e a redução da qualidade das águas. Em ambientes inundáveis, muitas espécies vegetais fornecem abrigo e alimento e, em contrapartida, os peixes dispersam suas sementes, contribuindo com a manutenção das florestas”, explica. “Mas há uma enormidade de espécies destruídas e, com isso, esse ciclo é perdido”.