Clique aqui e veja as últimas notícias!

EDUCAÇÃO

Falta equipamento de proteção na rede municipal para volta às aulas

Prefeitura fez ata de compra, mas não confirmou aquisição; atividades presenciais só ocorrerão no 2º semestre
08/02/2021 09:00 - Daiany Albuquerque


A Prefeitura de Campo Grande ainda não recebeu os equipamentos de proteção individual (EPIs) para a volta às aulas presenciais na Rede Municipal de Ensino (Reme). 

Isso porque até agora há apenas uma ata de registro de preços feita pela Secretaria Municipal de Gestão (Seges) para atender a Secretaria Municipal de Educação (Semed), mas os materiais ainda não foram efetivamente comprados.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

O documento é datado de 5 de janeiro deste ano e foi publicado no Diário Oficial de Campo Grande (Diogrande) no dia 15 do mesmo mês. 

Nele, quatro empresas foram habilitadas para a compra de diversos materiais, como protetor facial de plástico, luvas, aventais, álcool, álcool gel, dispenser para álcool gel e sabonete líquido, tapete higiênico, toalha de papel, termômetro digital infravermelho e sabonete.

Entretanto, segundo o Portal da Transparência da prefeitura, apesar de o contrato já estar valendo, nenhum valor foi pago ou empenhado para as empresas.

Em contato com a assessoria de imprensa da prefeitura, a resposta foi de que a “Secretaria Municipal de Educação/Semed já realizou todos os procedimentos necessários para aquisição de materiais de limpeza, higienização e EPI para atender a Rede Municipal de Ensino/Reme. Conforme extrato da ata de registro de preço n° 001, celebrada em 5 de janeiro de 2021 e devidamente publicada em Diário Oficial, obedecendo todos os trâmites administrativos exigidos”.

A administração não respondeu, porém, se esse material foi efetivamente adquirido nem por que não há máscaras entre os itens comprados. Para o retorno presencial dos alunos, todos esses materiais devem ser disponibilizados tanto para estudantes como para professores e trabalhadores da área.

O processo tem validade de seis meses, mas pode ser prorrogado por igual período. Segundo a prefeitura, o prazo foi estabelecido porque com o avanço da vacinação a administração espera que “com isso a provável queda do preço dos itens”.

AULAS PRESENCIAIS

A não aquisição dos produtos pode ser justificada pelo adiamento, por mais seis meses, do retorno das aulas presenciais. As atividades na Reme só devem começar no sistema híbrido (uma parte dos estudantes na escola e a outra em casa) a partir de 1º de julho, já que a prefeitura publicou decreto mantendo as aulas, que começam hoje, no sistema on-line.

“O possível retorno híbrido é preparado com responsabilidade, levando em consideração a situação de saúde e o melhor para nossos alunos e toda a comunidade escolar”, concluiu nota da prefeitura.

A medida é apoiada por professores da rede municipal. Segundo o presidente do Sindicato Campo-grandense dos Profissionais da Educação Pública (ACP), Lucílio Nobre, a volta às atividades presenciais só deveria ocorrer quando os profissionais da educação estivessem imunizados.

“Nós não temos segurança para voltar sem vacina. Pode haver um surto maior ainda da Covid-19. A logística para chegar até as escolas é muito complicada, os estudantes usam transporte coletivo, e a rede pública, se retornar, são mais de 100 mil pessoas circulando, alunos, mais professores e pais. Seria prejudicial para todos. O município tem plataforma, disponibiliza o caderno de atividades fisicamente, nós temos de trabalhar em função da vida. Sem vacinação, sem aulas presenciais. Todos têm a mesma expectativa, mas não dá para voltar neste momento”, declarou.

OUTRO LADO

A visão não é compartilhada pela promotora Vera Aparecida Cardoso Bogalho Frost Vieira, coordenadora do Grupo de Atenção Especial de Educação (Geduc). Para ela, a educação deveria ser tratada como atividade essencial.

“Não há motivos plausíveis para se manter o ensino remoto durante todo o ano, em prejuízo às crianças e aos adolescentes, que já estão com prejuízo total e irreparável, porque perderam as aulas e o acesso à escola no ano de 2020. A gente está em uma situação de pandemia, mas todo o comércio está aberto, à noite você vê bares abertos, boates abertas. Nos bares ninguém cumpre o plano de biossegurança, não tem distanciamento, as mesas são coladas, eu constatei isso em várias oportunidades e não tem por que não abrir as escolas, porque tem o plano de biossegurança, é só começar de forma gradual”, avalia.

Bogalho pede para que o município – já que não tem condições de fazer um cronograma com 50% dos alunos presenciais e a outra metade por meio remoto – reduza esse porcentual para um valor executável.

“No interior do Estado, em Dourados, não atuo lá, mas estou sabendo como coordenadora do Geduc, as aulas vão retornar no sistema híbrido, e o prefeito foi eleito agora. Campo Grande com muito maior razão, que é uma Capital, não dá para ser 50%? Então volta com 20%, faz revezamento e, à medida que a situação vai se estabilizando, os alunos vão retornando”, completa.

O Estado, por outro lado, confirmou que os EPIs já foram todos adquiridos e distribuídos para algumas escolas de Mato Grosso do Sul. Segundo a Pasta, o envio dos materiais ainda não terminou, mas até o retorno das atividades, que deve acontecer no dia 1º de março, de forma híbrida, eles serão entregues nas mais de 300 instituições estaduais.

Para Nobre, o governo deveria ter a mesma postura da Capital e voltar com o ensino remoto. 

“Que causa prejuízo [aulas remotas], não resta dúvida, mas não adianta voltar da maneira que está e o aluno e o professor contrair a doença e vir a óbito. Nesse caso deve-se fazer um esforço maior para que autoridades olhem para categoria e inclua no grupo prioritário. Saúde, segurança e educação precisam ser imunizados o mais rápido possível e a ACP espera que Estado tenha a mesma sensibilidade e comece remoto dia 1º de março”.

A promotora, por outro lado, alega que as crianças são as mais afetadas com as aulas remotas. 

“Muitos pais, principalmente de famílias com poucos recursos, às vezes têm um único celular, que nem pega 4G, cujo pai utiliza esse celular para trabalho e a criança ou adolescente só tem acesso à noite. Tem família que tem três, quatro filhos e não tem estrutura, então é com tudo isso que acho que tem de retornar. As sequelas de ordem psicológicas são imensas, tem crianças com quadro de depressão”.

Assine Correio do Estado