Cidades
INSEGURANÇA ALIMENTAR

Lixo se torna fonte de alimento e disputa diária para quem tem fome

Com a pandemia de Covid-19, houve o aumento de 336,86% nos fornecimentos de cestas básicas entre os anos de 2019 e 2020

Thais Libni

21/05/2022 09:30

A insegurança alimentar é quando o acesso e a disponibilidade de alimentos são escassos, e essa é a realidade de uma parcela quase que invisível da população campo-grandense que disputa os restos de alimentos nas lixeiras da Capital.

“Existem muitas pessoas procurando alimento, famílias, idosos, jovens, todo tipo de gente. Dá para sentir que aumentou o número de pessoas na rua, principalmente venezuelanos e bolivianos. E conseguir alimento está cada vez mais competitivo, às vezes mais de três pessoas passam pela mesma lixeira”, relatou Bruno da Silva Souza, 26 anos, morador em situação de rua.

Segundo ele, a cada dia que passa, menos pessoas querem ajudar moradores de ruas, e os estabelecimentos são proibidos de darem as sobras das mesas, então ele opta por nem pedir.

“Eu evito pedir comida porque muita gente que pede por passagem, dinheiro e alimento acaba trocando por drogas e, por este motivo, as pessoas que antes ajudavam, agora, pensam duas vezes. Não são todos que fazem essa troca [de alimento por droga], eu mesmo não faço, quando peço comida é porque realmente estou faminto”, relatou.

O jovem que se mudou para Campo Grande para servir ao exército em 2013, explica que começou a morar na rua após testar positivo para o vírus da imunodeficiência humana (HIV) – vírus causador da Aids, que ataca células específicas do sistema imunológico (os linfócitos T-CD4+), responsáveis por defender o organismo contra doenças.

“Eu parei de servir porque tive um problema de saúde, minha companheira me disse que era soropositivo depois de mais de um ano em que estávamos juntos, fiz o teste para HIV e deu positivo. Depois que eu descobri, pedi o desligamento do quartel e tentei arrumar outro serviço. Menti que não tinha problema nenhum e fui mandando embora por justa causa. Não digo que ser soropositivo é um problema que me derrubou, mas ajudou, e, desde então, moro na rua”, contou.

SERVIÇO

Conforme a Secretaria Municipal de Assistência Social (SAS), moradores em situação de rua acolhidos pelo Serviço Especializado de Abordagem Social (Seas) recebem alimentação.

“A pessoa que está em situação de rua e é acolhida em nossas unidades de ajuda, ela tem todas as refeições necessárias do dia, sendo um total de quatro refeições”, afirmou a Pasta em nota.

Além disso, famílias em estado de vulnerabilidade causada por evento adverso, como pandemia, tempestade, entre outras situações, recebem o Benefício Eventual, recurso de ajuda temporária.

“Já para pessoas que têm moradia, mas estão com necessidades básicas, elas precisam se dirigir aos Centros de Referência de Assistência Social [Cras] mais próximo de sua casa, passar por uma avaliação para ter acesso ao Benefício Eventual. Mas vale destacar que não é um benefício que você recebe todo mês, são para situações de calamidade pública ou extrema vulnerabilidade”, esclareceu a secretaria.

Segundo levantamento da Pasta, com a pandemia de coronavírus houve o aumento de aproximadamente 336,86% nos atendimentos com cestas básicas entre os anos de 2019 e 2020.

Sendo 5.689 famílias atendidas em 2019 e 24.853 famílias no ano de 2020. Já no ano de 2021, houve uma redução de aproximadamente 41,12% comparado ao ano de 2020, quando foram atendidas 14.634 famílias. Em 2022, o Benefício Eventual de segurança alimentar forneceu comida para aproximadamente 4 mil famílias entre o mês de janeiro e fevereiro. 

LEI

Visando evitar o desperdício e facilitando a doação de alimentos para pessoas em estado de vulnerabilidade, em junho de 2020, o presidente Jair Bolsonaro (PL) sancionou a Lei 14.016, aprovada no Congresso Nacional, que autoriza estabelecimentos dedicados à produção de alimentos, como bares e restaurantes, a doarem os excedentes de refeições que não tenham sido comercializadas.

O alimento precisa estar dentro do prazo de validade e estar próprio para o consumo humano, respeitando a segurança sanitária.

A doação pode ser feita “diretamente, em colaboração com o poder público, ou por meio de bancos de alimentos, de outras entidades beneficentes de assistência social certificadas na forma da lei ou de entidades religiosas”.