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MEIO AMBIENTE

Pouca chuva em MS alerta para intensidade das queimadas no alto Pantanal

De acordo com estudos de monitoramento, mesmo com precipitações, área de risco deve continuar seca
23/01/2021 08:00 - Silvio Andrade


As previsões hidrológicas para o Pantanal, com base nas chuvas que ocorrem em janeiro, não são nada otimistas para a região com maior incidência de queimadas em 2020 – a parte alta, que compreende o município de Poconé, em Mato Grosso, e a Serra do Amolar, em Corumbá.

A inversão das precipitações, que estão mais intensas na parte baixa (planície), devem manter a área de risco de fogo ainda muito seca, apontam os estudos de monitoramento.

Os prognósticos da Embrapa Pantanal e do Serviço Geológico do Brasil (CPRM) consideram lenta a recuperação do Rio Paraguai, com chuvas abaixo das normais ao Norte da bacia, onde os afluentes Cáceres e Cuiabá apresentam níveis inferiores para o período do ano.

O nível do rio em Cáceres, na quinta-feira, estava em 1,85 m, enquanto em 2020 registrou 2,34 m, e em 2019, 3,66 m, na mesma data. O Cuiabá, que recebe água do São Lourenço, está em queda há três anos.

O cenário serve de alerta para os órgãos governamentais que estão na linha de frente de combate e prevenção aos focos de calor no Pantanal.  

A intensidade das queimadas em 2020, destruindo mais de 4,2 milhões de hectares por causa da extrema seca que assola o bioma, exigiu tomadas de decisões estratégicas, e o governo de Mato Grosso do Sul anunciou investimentos de R$ 56 milhões na estruturação do Corpo de Bombeiros e na formação de brigadas permanentes.

Navegação

Se por um lado, as perspectivas não são otimistas para a integridade ambiental do Pantanal, a intensidade não normal das chuvas na planície, principalmente no entorno de Corumbá, pode antecipar o retorno das operações comerciais no Rio Paraguai, atualmente paralisadas por conta do baixo calado. Os rios afluentes Miranda, Taquari e Aquidauana começam a subir e favorecem Porto Murtinho, onde as exportações fluviais podem retomar no fim de fevereiro.

Já os portos de Corumbá, que basicamente carregam minério da mineradora Vale, continuarão inoperantes por mais tempo a se confirmar as estimativas matemáticas. O sistema de alerta hidrológico da bacia, conduzido pelo CPRM, aponta que o Rio Paraguai na régua de Ladário não deve ultrapassar 3,0 m no pico de uma cheia abaixo da média, a ocorrer em maio ou junho. As embarcações conseguem navegar com o rio a 2,5 m, mas com carga reduzida.

“Existe a probabilidade de 97% de o rio [Paraguai] ter uma cheia abaixo da média em 2021”, informa o geólogo Marcos Suassuna Santos, que faz o monitoramento hidrológico da bacia. Além da baixa precipitação na parte alta, as análises consideram ainda a condição de umidade antecedente em razão da seca extrema em 2020, a maior em 50 anos, como fator determinante para prever pouca inundação dos campos, baías e lagoas no bioma como um todo.

“A recuperação da bacia ao fim do período de estiagem vem sendo bastante lenta, o que corrobora o prognóstico, sendo improvável que os níveis do rio se aproximem do comportamento médio”, diz o geólogo.

Rios em recuperação

O pesquisador em uso e conservação dos recursos hídricos do Pantanal, Carlos Padovani, da Embrapa Pantanal, é taxativo: a continuar a inversão de fortes precipitações, com maior concentração na planície, não haverá recuperação das condições hidrológicas do bioma este ano.

“Embora as chuvas de janeiro estejam acima da média no Pantanal de MS, principalmente em Corumbá, em fevereiro e março as chuvas tendem a diminuir”, observa ele.

Padovani explica que se essa previsão se concretizar, o nível máximo (pico) do Rio Paraguai em Ladário atingirá abaixo da cota de 4 metros, “que é a cota de extravasamento e inundação significativa na planície”. O CPRM estima que, para as próximas semanas, os rios pantaneiros retomem a recuperação dos níveis com maior intensidade no período de 28 de janeiro a 3 de fevereiro nas bacias do Miranda, Aquidauana e Taquari, onde a Defesa Civil já está em alerta.

Os pantaneiros, acostumados ao vai e vem das águas, estimam uma cheia normal nos pantanais do Paiaguás, Nhecolândia e Nabileque, entre Corumbá e Porto Murtinho, onde as chuvas têm sido mais intensas do que os anos anteriores.

O Rio Taquari, que praticamente secou no ano passado, já tem água na calha e extravasa para a planície do Paiaguás. Os açudes e vazantes também estão com água, e a pastagem e a vegetação começam a vigorar.