Cidades

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Sonhos e planos concretizados com o lixo

Sonhos e planos concretizados com o lixo

Redação

23/02/2010 - 04h01
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Três pessoas relataram ao Correio do Estado como chegaram ao lixão de Campo Grande. O sonho do catador Josuel dos Santos era ser mecânico. O que para muitos é um sonho simples, para ele não houve oportunidade. “Sempre precisei ajudar a minha família e quem tem contas a pagar não tem muito tempo para sonhar”. Usando a combinação de palavras, o “garimpeiro do lixo” tem fala fácil e boa articulação. “Eu era servente de pedreiros, mas o setor de obras sofreu uma grande crise, o desemprego bateu, e qual a alternativa para quem tem apenas a 3ª série?”, questiona. Há dez anos na atividade, Josuel viu no lixo o sustento para a família e a chance de ter alguma dignidade, e sabe que o local gera muito dinheiro e desperta interesses. “Nós aqui do lixão somos consumidores do comércio não só aqui da vila (bairros do entorno) como também das grandes redes”. A família dele também trabalha na coleta. O pai, a esposa, os irmãos e duas cunhadas. “Aqui todos nós vivemos do lixo mesmo, mas foi o melhor sistema de trabalho que eu achei até hoje. Não importa se é sujo, se ficamos fedendo, mas sim que ganhamos bem e podemos ter uma vida digna”. Quando questionado sobre os projetos que o poder público tem para os catadores, Santos ameniza. “Seria bom organizar, mas sempre levando em conta os catadores. Teria que ser uma proposta razoável, não um salário mínimo, já que aqui tem gente que ganha isso em apenas uma semana, quem vai catar lixo por mixaria?”, questiona. Bom negócio Na casa do comprador de VALDENIR REZENDE Ao completar 18 anos, jovem comemora poder trabalhar no lixão A noite em que o jovem Adriano completou 18 anos foi especial. Ele comemorou o aniversário com os colegas catadores do lixão. Julio, 14, Willian, 16, e Marcos, 17, fazem brincadeira com o aniversariante que se defende comemorando a maioridade. “Agora eu posso catar sossegado, ninguém pode mais me tomar o gancho”. Ele cata materiais recicláveis desde os dez anos e os cerca de R$ 1,5 mil conquistados mensalmente no local são destinados para ajudar no sustento da casa. Da família de sete irmãos, quase todos trabalham no lixo. “Eu tenho pai e mãe, tudo certinho, e o dinheiro que ganho aqui, ajuda bastante. Se não fosse aqui onde eu iria trabalhar?”, questiona o jovem. Os meninos correm das fotos, eles têm medo de ser reconhecidos e não poder mais trabalhar. Para Willian, a idade não pode impedir de ganhar dinheiro. “Minha mãe é separada e trabalha de empregada doméstica na cidade, eu preciso ajudar ela e também comprar as coisas que eu quero”, explica o garoto, que tem três irmãos. Restrição Segundo os meninos, os funcionários que trabalham no local, quando estão de “mau humor”, tomam o gancho e batem neles. “Falam assim: vocês não podem trabalhar aqui, não! Daí chegamos na vila e a polícia enquadra a gente e diz: vai trabalhar, vagabundo. Afinal, quem nós devemos obedecer? Eu não quero uma vida de bandido”, diz. Brincadeiras e sorrisos desaparecem quando o assunto drogas é abordado. “Aqui ninguém usa droga, é doida?”, questiona Julio. Mas todos conhecem alguém que usa. Marcos, o mais tímido do grupo, resolve, então, dar sua opinião. “Lá na vila tem uns meninos que usam, mas eles nem colam com a gente, não, nosso negócio é trabalhar, ganhar dinheiro e ter um futuro. Eu vou voltar a estudar e quem sabe um dia eu saio do lixo. Mas só saio se for para ganhar algo parecido com o que ganho aqui”, avisa. O trabalho termina quando os compradores chegam. Os meninos fecham os últimos bags (sacos usados para guardar materiais recicláveis) que faltam e os salgados trazidos pelos vendedores aliviam a fome e o cansaço de mais um dia de trabalho. (LBC) Adolescentes desafiam regras e brigam para continuar no trabalho O grupo de adolescentes conversa animadamente. Se não fossem os trajes sujos e o assunto, seria apenas mais um grupo como outro qualquer. O tema é o material reciclável e a ação dos funcionários que trabalham no lixão. “Mas esse povo só atrapalha a gente, isso quando não tomam os ganchos e ainda dão uns tapas”, reclama Clayton. O jovem mente dizendo que tem 15 anos, e logo é corrigido por um comprador. “Fala a verdade, você tem só 12”. A entrada de crianças e adolescentes é proibida no local, e de acordo com os funcionários, a ordem é não deixar que menores trabalhem. “É para protegê-los, mas não conseguimos controlar todo mundo, e eles entram mesmo”, explica um dos funcionários da prefeitura, que prefere não se identificar. Para ele, deveria deixar que eles continuassem. “É melhor do que eles ficarem por aí roubando”, fala. Este tipo de proibição faz com que jovens como Clayton sintam medo de não conseguir mais catar lixo. “Muitos ajudam os pais ou mesmo sustentam a casa com o dinheiro do lixo e por causa da lei os funcionários tomam os ganchos deles”, explica o mesmo comprador. Clayton trabalha em grupo com Marcos, 17, e Adriano, 15. Recolhendo cerca uma tonelada, cada um chega a ganhar R$ 1,5 mil mensalmente. “Não vou achar serviço melhor que no lixo”, conta. Ele acredita que se não fossem os guardas, conseguiria ganhar muito mais do que isso. Trabalho Os bags (sacos) estão cheios e os plásticos e materiais que podem ser comercializados precisam ser separados para render mais. Os meninos parecem não se importar com o mau cheiro ou com os restos de comida misturados. Sem luvas ou qualquer outro tipo de proteção, eles param e comem salgados sentados em volta do material coletado durante a noite. Uma cena chocante para muitos, mas considerada normal ali. “Não tem onde lavar a mão, e nem compensa, vai sujar de novo”, explica Marcos. Entre eles, não há discussões sobre meninas, planos, sonhos ou internet. Os assuntos da moda não interessam a eles e sim aquilo que gera dinheiro. “Sem dinheiro, não vamos a lugar nenhum. Como vamos ter as coisas sem dinheiro?”, questionam. Para os meninos do “garimpo do lixo”, sonho mesmo é conseguir comprar os próprios pertences sem ter que recorrer ao crime. “Eu trabalho e ganho igual a gente grande e quero ser tratado como adulto, o resto não me interessa muito”, finaliza Clayton, dizendo que não quer mais conversar com a reportagem. (LBC) No meio do lixo, jovem comemora a maioridade porque não será mais repreendido pelos guardas que impedem a entrada de menores no local materiais recicláveis Cristiano Gamarra o dia começa cedo. Às 5 horas, já se pode ouvir o ronco do caminhão que o leva até o lixão. Ele trabalha com reciclagem há dez anos, ofício que aprendeu com a família de sua esposa e que hoje é o sustento da mulher e dos dois filhos. A reciclagem antes dava muito dinheiro, mas a concorrência aumentou e com isso os lucros minguaram. Para ele, ainda assim é um bom negócio. “O que eu poderia fazer? Eu só sei mexer com isso ou dirigir caminhões, mas o salário de um motorista é muito baixo se comparado ao que eu consigo ganhar como autônomo aqui”. A rotina pesada de até 14 horas diárias não assusta Gamarra, como ele é conhecido pelos catadores. Com a compra de latinhas de alumínio e os fretes que faz para aqueles que não têm caminhão, ele consegue ganhar até R$ 2,5 mil mensais. “Tem mês que é mais, tem mês que é menos, mas dependemos até do tempo para ter uma boa renda”. Assim como a maioria, ele acredita que o fechamento do lixão pode causar um colapso na economia local. “Os comerciantes daqui vivem do que é arrecadado no lixo, desde o dono da bicicletaria até o supermercado. Sem o dinheiro do lixo os bairros param”, explica ele, em referência ao Dom Antônio Barbosa, Lageado e Parque do Sol. Quando questionado sobre a antítese de sair da casa confortável em que mora em um bairro central e ir até o lixão, o comerciante justifica: “o palhaço pinta a cara para sobreviver, e nós aqui respiramos o mau cheiro, comemos poeira e tentamos ao menos ter dignidade para dar conforto e uma vida diferente aos nossos filhos”, afirma. Luxos “O lixo me deu tudo que eu tenho e hoje é o sustento dos meus filhos”, afirma Nivaldo Arguilhera. Conhecido como Alemão, ele trabalha desde “que se entende por gente” na reciclagem. “Quem começa a trabalhar nisso dificilmente sai. Aqui não tem patrão, não tem horário e dá dinheiro”. Acostumado com o cheiro que os materiais exalam, Alemão hoje trabalha separando e prensando materiais em um dos muitos depósitos instala- LIZIANE BERROCAL COSTA A influência econômica da reciclagem nos bairros próximos ao lixão e também a queda no preço dos produtos serão mostrados na terceira reportagem da série.  ve j a a m a n h ã  dos nos bairros próximos ao lixão. A renda de cerca de R$ 1,2 mil já lhe proporcionou luxos, como computador para os filhos e uma televisão de 42 polegadas na sala de casa. “Eu também já bati gancho (instrumento de ferro usado para revirar o lixo), só que aqui tenho mais segurança, mas não hesitaria em voltar para o lixão, caso fosse necessário, não temos medo do trabalho”, finaliza.

Polícia

Motorista desvia de lobinho, capota veículo e passageiro morre na BR-262

De acordo com a polícia, a vítima estava no banco de trás do veículo. A família voltava de uma festa quando um animal atravessou a pista.

14/07/2024 14h30

Acidente aconteceu sentido ao município de Terenos, a 31 quilômetros de Campo Grande

Acidente aconteceu sentido ao município de Terenos, a 31 quilômetros de Campo Grande Foto: Marcelo Victor / Correio do Estado

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Evaldo Luis do Nascimento, de 21 anos, morreu na madrugada deste domingo (14), próximo ao município de Terenos, a 31 quilômetros de Campo Grande, enquanto voltava de uma festa com a família. De acordo com a Polícia Civil, o caso será investigado, mas há a possibilidade de que o motorista tenha perdido o controle do veículo após um animal cruzar a pista.

Conforme informações da polícia, no veículo estavam cinco pessoas da mesma família, que voltavam de um evento em Dois Irmãos do Buriti, quando um lobinho atravessou a pista. O motorista, de 27 anos, se assustou com o movimento do animal e perdeu o controle do carro, saindo da rodovia.

Com o impacto da batida, Evaldo, que estava no banco de trás sem cinto de segurança, morreu no local. A condutora, de 27 anos, seu marido e duas passageiras que também estavam no banco de trás ficaram feridos e foram encaminhados à Santa Casa de Campo Grande.

Ainda de acordo com a polícia, o motorista não possuía Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e o caso será investigado pela Polícia Civil de Terenos.

 

Rodovia da Morte 

Números compilados de 2018 mostram que no Mato Grosso do Sul e na Região Centro-Oeste, a BR-163 ainda mantinha o título de "rodovia que mais mata", sendo que a privatização de 2013 buscava tirar o título macabro do trecho. 

Cerca de dois anos após a privatização, os números de 2015, de fato, apontavam para uma queda de mais de 50% nas mortes, com a PRF indicando que os 64 óbitos de 2014 haviam caído para apenas 30 em 2015.

Acontece que os números voltaram a subir, e as melhorias na via estão paradas há sete anos, já que a CCR MSVia, não cumpriu com o contrato, que previa a duplicação de todos os 845 km da BR-163, de Mundo Novo, na divisa com o Paraná, a Sonora, na divisa com o Mato Grosso. Desde o início da concessão, há dez anos, foram duplicados apenas cerca de 155 km.

O prazo para a duplicação completa terminaria em 2024, mas a concessionária fez apenas a duplicação necessária para iniciar a cobrança de pedágio, nos três primeiros anos.

A rodovia não recebe investimentos desde 2017, quando a empresa solicitou o reequilíbrio do contrato. A CCR chegou a dizer em 2019 que não tinha interesse em permanecer com a rodovia e até cobrou a devolução de ativos da União, no valor de R$ 1,4 bilhão.

Desde então, o Governo Federal vem prorrogando o contrato com a CCR MSVia para a administração da BR-163.

Em 2023, foram realizadas audiências públicas em Brasília e em Mato Grosso do Sul para debater o futuro da rodovia federal que corta o estado. Em julho, uma decisão do Tribunal de Contas da União (TCU) autorizou a assinatura do acordo consensual entre o Governo e a CCR MSVia.

Dois meses depois, a União e o Estado fizeram uma proposta para que a CCR MSVia continuasse com a concessão, apresentando regras para assinatura do novo contrato, como a manutenção do pedágio, a duplicação de mais 68 km de rodovia e a implantação de 63 km de faixa adicional, 8 km de marginais e 9 km de contornos.

A CCR MSVia teria mais 20 anos com a BR-163, porém, com esse novo acordo, o prazo será estendido por mais 15 anos. Nos primeiros três anos contratuais, haverá investimento de boa parte do total de recursos destinados.

A empresa promete a duplicação de mais 190 km e mais 170 km de terceira faixa.

O novo contrato, que prevê R$ 12 bilhões de investimento na rodovia, deveria ter sido assinado no primeiro mês de 2024. No entanto, um impasse do Tribunal de Contas da União atrasou o processo, que ainda está parado.
 

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CIDADES

Mais Médicos abre 196 novas vagas para atuação em comunidades indígenas

Parte dos profissionais da saúde deve atuar em teritório Yanomani; inscrições seguem até sexta-feira (19)

14/07/2024 13h30

Ministério da Saúde pretende contratar 700 médicos em todo o Brasil

Ministério da Saúde pretende contratar 700 médicos em todo o Brasil Alejandro Zambrana/Sesai

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O Programa Mais Médicos do Governo Federal abriu edital de inscrições com 196 vagas para profissionais que deverão atuar em territórios indígenas de todo o Brasil. A expectativa, segundo o Ministério da Saúde é contratar 700 médicos. Das vagas ofertadas, 28 são para assistência no território Yanomami, entre os estados de Roraima e Amazonas. 

Importante destacar que os profissionais interessados devem se inscrever até sexta-feira (19). Desde o início da atual gestão, a quantidade médicos nos territórios indígenas mais do que dobrou, passando de 242 em 2022 para 541 profissionais atualmente, o que representa crescimento de 123%.

O novo edital também promove a seleção dentro do regime de cotas, que contemplam pessoas com deficiência e grupos étnico-raciais, como negros, quilombolas e indígenas. A seleção é voltada para vagas desocupadas definidas em articulação com a Secretaria de Saúde Indígena (Sesai).

O foco é a redistribuição atendendo às prioridades de alocação nos DSEIs (Distritos Sanitários Especiais Indígenas). 

“Esse novo edital segue no objetivo de garantir cotas para os médicos, inclusive, para estimular que as médicas e os médicos indígenas possam desenvolver suas atividades junto a esses territórios de grande importância”, destaca o secretário de Atenção Primária, Felipe Proenço. 

No Brasil, há 34 DSEIs divididos estrategicamente por critérios territoriais, tendo como base a ocupação geográfica das comunidades indígenas. Eles não obedecem os limites dos estados. A estrutura de atendimento conta com Unidades Básicas de Saúde Indígenas, pólos-base e Casas de Saúde Indígena (Casai). 

Edital inédito com regime de cotas

O Ministério da Saúde lançou o primeiro edital da história do programa para chamamento de médicos com vagas no regime de cotas para pessoas com deficiência e grupos étnico-raciais, como negros, quilombolas e indígenas. 

O número de inscritos por vaga foi recorde, com um total de 33 mil profissionais interessados em trabalhar no programa Mais Médicos. Mais de 10 milhões de brasileiros em regiões de vazios assistenciais serão diretamente beneficiados, na missão de resgatar o direito e o acesso da população à saúde. 

Em live transmitida pelo canal da pasta no Youtube, foi esclarecida, entre outras questões, como será a ajuda de custo para participação no Módulo de Acolhimento e Avaliação (MAAv) para brasileiros formados no exterior.  

“O médico recebe o equivalente a uma bolsa de formação do Mais Médicos. Com esse recurso, ele tem a possibilidade de custear tanto o deslocamento quanto a hospedagem e questões necessárias ao longo desse período de formação”, explicou o secretário Felipe Proenço. 

Conforme o Ministério da Saúde é necessário cumprir os seguintes requisitos: concluir a inscrição, com a apresentação de todos os documentos, e certificar-se de que ela foi finalizada.

Além disso, é necessário estar atento ao processo de escolha e alocação dessas vagas. A etapa de realização do MAAv (Módulo de Acolhimento e Avaliação) será realizada simultaneamente para os candidatos que atuarão nos municípios e nos DSEIs. 

*Com informações da assessoria 

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