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TRAGÉDIA

Vaga para aposentado chegou uma hora antes de sua morte

No domingo, um idoso de 66 anos morreu sem conseguir ser transferido para uma UTI com máquina de hemodiálise
14/01/2021 10:32 - Daiany Albuquerque


No domingo, um idoso de 66 anos morreu sem conseguir ser transferido para uma UTI com máquina de hemodiálise. 

O aposentado Alcides Cavéquia foi internado na Santa Casa de Naviraí com Covid-19. Mesmo intubado, ele necessitava de cuidados específicos em leitos de UTI com o equipamento, o que não conseguiu. 

Ele pode ter sido a primeira vítima da doença a morrer sem o atendimento adequado. A Secretaria de Estado de Saúde (SES) nega a falta de leitos.

A reportagem procurou a SES para saber os motivos da demora para encontrar o leito. A secretaria confirmou a demora, que chegou a 38 horas – a vaga só foi encontrada uma hora antes da morte do paciente, quando ele já estava em estado gravíssimo e não tinha condições de transporte.

“No dia 8 de janeiro o estado de saúde do paciente agravou, apresentando quadro de insuficiência renal aguda. Sendo necessário, a partir de então, um leito de UTI com hemodiálise. O Hospital de Naviraí solicitou transferência para a Central de Regulação de Dourados as 18h08min do dia 08 de janeiro, solicitando um leito de UTI em Hospital de maior complexidade", diz trecho da nota enviada pela pasta.

"A Central de regulação de Dourados tentou outras centrais em outros municípios para assegurar a transferência, no entanto, a vaga só foi disponibilizada pelo Hospital Universitário de Dourados, 38 horas após a solicitação, às 7h53min, de 10 de janeiro. O Paciente faleceu às 8h45min de 10 de janeiro, não sendo realizada a transferência”.

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A família contou à reportagem que havia conseguido uma vaga para o idoso em Três Lagoas, entretanto, quando já estava quase tudo certo, a transferência foi negada. Sobre isso, a SES afirma que solicitou o nome do médico responsável que havia autorizado a transferência, mas isso não foi informado.

“Segundo a ficha do paciente, às 16h do dia 09 de janeiro, a família informou aos médicos do Hospital de Naviraí que haviam conseguido por meio de acordo familiar uma vaga no Hospital de Três Lagoas", continua a secretaria.

"Entretanto, quando a equipe questionou o nome do médico em Três Lagoas, a família não quis informar o nome nem os detalhes para que fosse checada a veracidade da informação”.

De acordo com uma das filhas de Alcides, Karla Cavéquia, a autorização veio do Hospital Nossa Senhora Auxiliadora, em Três Lagoas, e não foi lhe informado um nome para contato.  

“O NIR [Núcleo Interno de Regulação] me informou que havia uma única vaga. Ainda perguntei se era leito com hemodiálise e a pessoa que me atendeu disse que havia sim essa única vaga. Ainda me explicou como eu faria para consegui-la. E disse que eu poderia não conseguir, por conta da procura por vagas".

"E se alguém chegasse na frente, eu perderia. Por isso, eu fiz de tudo para conseguir transferir o mais rápido possível. Tentei de tudo depois que recusaram a vaga, eu liguei de novo no hospital e disseram que não havia mais vaga disponível. Não sei se foi preenchida. Não foi acordo familiar. Foi informação do hospital de Três Lagoas. Não me passaram protocolo nenhum da informação”, contestou.  

Ainda segundo a secretaria, no Estado, dos 274 leitos de UTI para Covid-19, 171 possuem equipamento para hemodiálise. Porém, nenhum deles está disponível em Naviraí.

De acordo com a secretária Municipal de Saúde de Três Lagoas, Elaine Fúrio as vagas de leitos em Mato Grosso do Sul ficam disponíveis no Complexo Regulador Estadual (CORE), sistema controlado pela administração do Estado.

No caso de Naviraí, a cidade do aposentado, a primeira referência é Dourados, seguido por Campo Grande e depois Três Lagoas. 

"Essa ordenação por disponibilidade de leitos ninguém intervém. Os médicos regulam essas vagas e os secretários, prefeitos e pacientes não intervém nessas regulações", afirmou Fúrio.

*Colaborou Gabrielle Tavares

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