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A construção social da enfermidade

Outros se dopam para não enxergar a estranha e confusa realidade

Da Redação

11/05/2022 07:30

Gilberto Verardo- Psicólogo

Falar em sintoma ou patologia virou um mantra herdado da Medicina, a qual criou uma cultura da doença, tendo como pano de fundo a presença mítica de uma figura de jaleco branco e óculos que, com seu semblante bondoso e suave, se coloca como única opção para os aflitos em busca de cura para seus males corporais.  

No plano econômico da sobrevivência, falar em deficit orçamentário, poupança, receita, despesa e inflação se tornou o pão nosso de cada dia, resumindo a existência humana ao desejo de um dia tornar-se um banqueiro no mundo numérico. 

Junta-se a isso a sensação de insegurança que vai além de alarmes, sirenes e fardas, que, nos noticiários, querendo exercer controle social, termina por inibir a liberdade de cada um analisar seu próprio risco em um ambiente social controlado por regras burocráticas e comportamentais emanadas de instituições com descrédito progressivo, respaldada por uma mídia de massa com fragilização da sua imparcialidade crítica.  

Se colocarmos a vida cotidiana nos meios urbanos, observaremos que o automóvel, com suas implicações urbanísticas e orçamentárias, consome boa parte dos orçamentos públicos e privados, nos quais se sobressaem os constantes acidentes e hospitalizações.  

O mercado da burocracia, com seu aspecto patogênico de mediação, restringe a opção de escolher caminhos próprios para garantir a posse de seu tempo e a autonomia nos deveres, com seus direitos apenas garantidos se obedecer à cordialidade dos trâmites vagarosos.  

Querer entretenimento pela TV é aceitar goela abaixo um telemarketing embutido, pois tudo que ela oferece sustenta uma ideologia de consumo, que termina sua propaganda nos oceanos infestados por lixo plástico, onde a regra é o descarte lucrativo.  

Dos templos tradicionais, substituídos por uma tela em HD, emanam doutrinações dizimáticas de fazer corar um albino hereditário, oferecendo soluções mágicas para problemas criados no mesmo meio social que nutre seu duvidoso poder de cura com hóstia pecuniária. As religiões viraram irmãs siamesas da cultura da doença espiritual.