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CRÔNICA

A crônica da incerteza

"As palavras sumiram."
27/06/2020 09:22 - Theresa Hilcar


As palavras sumiram. Não consigo achar mais nada que faça sentido. A esta altura do caos nenhuma sentença, nenhum parágrafo, nada que seja minimamente relevante. Sensação é de esgotamento semântico, de uma total incapacidade narrativa a respeito dos assuntos que nos rodeiam. 

Andei até pesquisando sobre a produção literária durante guerras e pandemias e percebi que, com exceção dos poetas, escritores de modo geral sentiram dificuldades, não com a narrativa, mas com o sentido, o sentimento.  Afinal, como nos dirigir aos leitores em plena guerra? Em tom otimista? Caótico? Ou simplesmente passando ao largo dos acontecimentos?

O que interessa ao caro leitor nestes mais de 100 dias de aflição e medo? Com exceção dos colunistas políticos, que têm vasto e potente material todos os dias, lidamos com uma espécie de hiato. A crônica literária que não fale sobre anjos e demônios é quase inútil. A ansiedade que tomou conta de boa parte das pessoas encontrou seu refúgio nas lives diárias que pululam nas redes sociais. 

O cronista precisa de cenas do cotidiano para escrever. Mas não um cotidiano encerrado em alguns metros quadrados, onde o sol aparece num pequeno espaço no final da tarde, e a única natureza próxima são os quatros vasos de planta na exígua varanda. Como contar histórias se o dia se resume a ouvir o barulho de carros lá embaixo, o sino da igreja que se intromete no silêncio gritante do apartamento duas vezes ao dia? 

 É neste cenário, cercado de saudade, insegurança e muito medo que passo meus dias. O confinamento compulsório exige uma mudança coerciva de rotina a que não consigo me ajustar. Sou indisciplinada por natureza. E como a de outros milhões de pessoas, minha reação de um mínimo ajustamento situacional é caracterizada por ansiedade, angústia, irritabilidade e desconforto em relação à nova realidade. 

Ficar depressivo e ansioso durante a pandemia é, de acordo com psiquiatras, uma reação normal diante das circunstâncias e da impotência que nos reserva o futuro. “O vírus causa tanto um estresse ambiental direto, pelo risco de contaminação e morte, quanto uma série de intercorrências relacionadas com a economia e o distanciamento social”, escreveu o titular da psiquiatria da Unifesp. Dr. Jesus Mari.

Segundo ele, o medo de ser contaminado ou de contaminar outras pessoas não difere de situações traumáticas como as que se observam em um terremoto. “A Covid-19 é uma condição particular de estresse que veio para impactar nossas mentes, desorganizar as economias das populações e aumentar o risco para o desenvolvimento de transtornos mentais em nível global”, escreveu.

Com exceção dos negacionistas de plantão, é nesse cenário que estamos vivendo. Não há como tapar o sol com a peneira. Não dá para minimizar, fazer de conta que tudo está bem, que logo vai passar. Nem todos os emojis, danças, tik tok, lives e mensagens de otimismos do mundo são capazes de mudar o que no fundo, bem lá no fundo, todos nós percebemos.  Corrigindo, nem todos. Infelizmente.

Como a amiga de longa data, a quem demonstrei preocupação ao saber que, mesmo aposentada e em condições econômicas estáveis, continua saindo de casa, indo ao trabalho e às ruas – sem o devido cuidado. Ela, que está no grupo de risco, respondeu que a situação estava sob controle. E ainda alfinetou dizendo que, por certo, eu estava acreditando nas notícias de certa rede de televisão.  Mal tive vontade de argumentar, tamanho desapontamento.  Chega a um ponto em que não adianta falar sobre bom senso, principalmente para quem já o perdeu. 

Mas devo confessar: estou perdendo a paciência. Por isso às vezes sinto que minhas palavras são inúteis. Acabam no vazio, neste limbo em que vivemos há quatro meses. Sem pendores para ficção e no lado oposto da retórica negacionista, fico diante desta tela tentando arrumar as palavras, formar frases coerentes, dar sentido ao que não tem qualquer sentido.

Tudo que sei – ou percebo, melhor dizendo - é que nada será como antes, como já cantava Milton Nascimento. Amanhã ou depois de amanhã, com sorte, ainda estaremos aqui cumprindo a mesma rotina, enfrentando os mesmos algozes, assistindo impotente aos números que vêm aos milhares. E sofrendo, sim, sofrendo, a indiferença e a ignorância que ainda continuam. Apesar de tudo.

 

Felpuda


Com trabalho suspenso, por causa da Covid-19, investigação parou sem ter começado e, agora, dois dos cabeças do grupo de trabalho estão “chovendo no molhado”. Assim, para continuar, digamos, em evidência, vêm divulgando sobre a “firmeza” de ambos em “dar continuidade”, tão logo acabe a pandemia que, assim como os resultados dos trabalhos, são incógnitas que só. Portanto, melhor seria aguardar o desenrolar dos acontecimentos para sair “cantando de galo”.