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CRÔNICA

O caminho na Pandemia

"Manter a lucidez na pandemia é uma experiência única."
20/06/2020 10:54 - Theresa Hilcar


 

O aviso luminoso no celular me lembra do voo de amanhã. Saindo de Porto (Portugal) para São Paulo, segue depois para Campo Grande. Foi assim a semana inteira: avisos de voos, hotéis e rotas. Mas enquanto meu aparelhinho surtava com os avisos, eu estava bem guardadinha em casa. A prima, que seria a companheira de viagem, reclamou: puxa, a gente estaria no final do caminho. Mas estamos bem, retruquei como Pollyanna.

Percorrer o Caminho de Santiago significa, para mim, completar o projeto de uma busca espiritual. Assim como foi Machu Picchu, no Peru, e a Índia. Um verdadeiro triângulo de autoconhecimento sonhado há 30 anos e que levou um bocado de tempo para ser iniciado. O Caminho seria então o ápice, e Santiago de Compostela marcaria o final de uma jornada de busca.

Para quem não está ligando o nome ao lugar, o Caminho de Santiago de Compostela é a peregrinação mais conhecida do mundo, percorrida desde a Idade Média. O objetivo é chegar à cidade (na comunidade autônoma da Galícia, Espanha) onde se encontram os restos mortais do apóstolo São Tiago (ou Santiago Maior), que foi para a Galícia disseminar a palavra de Jesus Cristo. Hoje, independentemente de qualquer religião ou crença, as diferentes rotas espalhadas pela Europa congregam pessoas de todos os tipos, idades e cores, do mundo todo. 

Ao longo de todo ano, milhares de pessoas percorrem centenas de quilômetros, durante muitos dias, da forma como acharem melhor: a pé, a cavalo, de bicicleta. O ponto de partida, a quantidade de quilômetros percorridos ou de dias de caminhada, quem define também é o próprio peregrino, que é totalmente livre para caminhar o quanto quiser e decidir quando e onde parar. 

O trajeto clássico, que tem cerca de 800 km e leva em média 30 dias para ser percorrido, começa na França na cidade de Saint-Jean-Pied-de-Port. Tenho vários amigos corajosos que já passaram pela experiência de cruzar três países a pé, andando em estradas e trilhas muitas vezes íngremes e em meio a paisagens que se transformam dependendo da estação do ano. As pessoas, como as paisagens, também se transformam , disseram-me.

Por isto o Caminho sempre foi para mim um sonho a ser realizado. Mas o tempo foi passando e nada de conseguir tempo, dinheiro e companhia – embora cada um faça o seu próprio caminhar. O sonho foi ficando cada vez mais longe, mais improvável a cada ano. Foi quando me apontaram a possibilidade de fazer o chamado Caminho Português. Que pode começar no Porto ou, para quem tem menos tempo ainda, em Tuí, na fronteira com a Espanha. A rota diminui para 120 km e mais ou menos seis a sete dias de caminhada. 

O universo conspirava a meu favor, pensei. Sem titubear lá fui eu organizar a viagem marcada para junho, como presente de aniversário que costumo dar a mim mesma sempre que posso. Em janeiro, seis meses antes da partida, comecei a treinar longas caminhadas. A viagem que até então era segredo, começou a ser falada no grupo de peregrinos. Homens e mulheres na mesma jornada e compartilhando toda sorte de informações. Era a viagem dentro da viagem.

Mas o universo conspirou contra mim e o mundo inteiro com a pandemia de Covid-19.  Ao invés de caminhar 20 quilômetros por dia por trilhas ensolaradas e natureza exuberante, teríamos sorte de andar alguns metros quadrados na própria casa. O sonho de chegar a Santiago de Compostela estava cancelado, interrompido, revogado, adiado na melhor das hipóteses. As botas, mochilas, cajados, meias, roupas de neoprene, tudo isto foi guardado. As passagens e hospedagens canceladas. Acabou-se o que era doce.

Interessante lembrar que sempre ouvi dos peregrinos mais experientes que o Caminho, além de ajudar no autoconhecimento, também ajuda a se conectar consigo mesmo e com o momento presente. Muitos dizem que depois da peregrinação aprenderam a dar valor para o que realmente é importante na vida. Cada passo para o caminhante é repleto de intensidade, superação e desapego.

Mais interessante, portanto, é constatar que, de certa forma, e mesmo em casa, estou fazendo a caminhada. No isolamento também estou aprendendo a dar valor ao momento presente, a cada amanhecer com saúde. Passar os dias com uma camiseta velhinha e nem sentir falta de vestir as roupas que estão hibernando no armário também é uma forma de desapego. 

A superação vem quando nos mantemos firmes, mesmo olhando o mundo – principalmente o País – desabando lá fora. Manter a lucidez na pandemia é uma experiência única.  No Caminho de Santiago de Compostela, assim como em casa, o caminhar é solitário mas sem dúvida muito intenso. Tomara seja também transformador. 

Felpuda


Ex-cabecinha coroada anda dizendo por aí ser o responsável por vários projetos para Campo Grande, executados posteriormente por sucessor. 

Ao fim de seus comentários, faz alerta para que o eleitor analise atentamente de como surgiram tais obras e arremata afirmando que não foi “como pó mágico de alguma boa fada madrinha. 

Houve muito suor nos corredores de Brasília”. Então, tá!...