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O colapso da modernização

Vai achar contemporâneo e condizente com os novos tempos

Da Redação

04/07/2022 07:30

Gilberto verardo - Psicólogo e psicoterapeuta

Título de um exemplar garimpado em uma livraria de usados. “Os passageiros do Titanic querem ficar no convés e que a banda continue tocando. Se tivermos de viver mesmo o fim da história, não será um fim feliz”. 

Com estas palavras de ar fúnebre, o economista alemão Robert Kersz resumiu, na apresentação do seu livro, o processo da economia mundial, examinando o cenário entre as décadas de 1960 e 1990. 

Lançado pela editora Paz & Terra (1993), com ares premonitórios, afirmou que as perspectivas eram negras para a economia mundial e estavam reservadas a todos os países de índole capitalista, sem exceção, caso o atual sistema regido pela lei de troca de mercadorias insistisse em se perpetuar.

Neste período, o fenômeno das mudanças climáticas, claramente provocado por este atual modelo econômico, mesmo como notícia, não era digna de veiculação. No mesmo lugar e oportunidade garimpei outro livro mais novo, lançado em 2019: 

“A lógica do Cisne Negro” de Nassin N. Taleb. Ensinando a teoria da probabilidade em gerenciamento de riscos no Instituto Causant de Ciências Matemáticas da Universidade de Nova York, inicia assim o prólogo – Antes da descoberta da Austrália, as pessoas do antigo mundo estavam convencidas de que todos os cisnes eram brancos. 

Esta era uma crença inquestionável. Deparar-se com o primeiro cisne negro pode ter sido uma surpresa e tanto para alguns ornitólogos intelectuais, mas não é aí que está a importância da história. Ela simplesmente ilustra uma limitação severa da educação moderna, que dá ênfase ao aprendizado por meio de observações e experiências empíricas, ao mesmo tempo em que revela a fragilidade do nosso conhecimento diante de fatos e ocorrências inusitadas. 

Nosso sistema educacional marginalizou a teoria de Paulo Freire, que estimulava o aprendizado crítico sobre a realidade. Preferiu seguir o Estruturalismo, Piaget e Vygotsky, que, em sua essência, apenas reproduzem o status quo do conhecimento vigente. 

A natureza cognitiva humana faz com que desenvolvamos explicações para a ocorrência de eventos inesperados, se tornando explicáveis e previsíveis depois de já ter ocorrido. Temos o surgimento do Google e das redes sociais como exemplo de cisne negro, assim como foi o atentado de 11 de setembro nos EUA. Por que não reconhecemos um fenômeno antes que ele ocorra?

Continuamos a não perceber certas ocorrências óbvias (cisne negro), como a crise climática, o colapso da modernização criada pela revolução industrial, a decadência da condição humana, a riqueza germinando a desigualdade, a divisão da vida humana em pequenas especializações, os valores e sentimentos humanos reféns do monetarismo e do ódio, enfim, as criações virtuosas humanas indo pro ralo e novas explicações teóricas “tampa buraco” nascendo, mas sem caminhar junto a ações efetivas.