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O fenômeno dos “gurus” digitais

Assim, não será presa fácil do canto da sereia de certos “influenciadores” digitais elevados ao status de “gurus”

Da Redação

14/05/2022 07:30

Iran Coelho das Neves - Presidente do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso do Sul

Movida pelos indefectíveis likes, a busca pela fama imediata, pela projeção social e financeira motiva um incontável exército de pretendentes à celebridade imediata e, se possível, mais ou menos duradoura. 

Neste caso, são rapidamente guindados ao panteão dos oráculos das redes sociais e instados a opinar sobre os mais variados temas, sobre os quais muitas vezes “filosofam” com desconcertantes e desconexos “argumentos”.

Naturalmente, muitos artistas populares, acadêmicos e profissionais de diferentes áreas galvanizam, por sua arte ou conhecimento, incontáveis seguidores e não podem ser confundidos com os tantos “arautos” da superficialidade travestida de sabedoria.

Contudo, os que de fato têm algo a dizer a seus milhares, ou até milhões, de seguidores constituem honrosas exceções em um universo onde a regra é a autocelebração, a publicidade, às vezes dissimulada, de produtos e serviços prontamente “consumidos” pela submissa audiência. 

E, o que é ainda mais sério: a disseminação de valores fluidos e de uma “ética” relativista, na qual tudo, ou quase tudo, encaixa-se ao sabor das conveniências, inclusive a afronta aos princípios democráticos.

Seria rematado obscurantismo – além de quixotesca “empreitada” – pretender modular a algaravia de “influencers” nas redes sociais. Sob quaisquer critérios ou pretextos, sempre se estaria afrontando o direito à livre manifestação, paradigma das democracias e do liberalismo. 

E intentar restabelecer “comedimentos”, próprios dos tempos arcaicos pré-redes sociais, seria não só proverbial saudosismo, mas descabida negação da “revolução disruptiva” que move a sociedade contemporânea.

É preciso, porém, crer que em algum momento a própria sociedade possa criar, paulatinamente, mecanismos de defesa ante a exacerbação do individualismo, a autocelebração personalista e farisaica, professada por muitos “influenciadores”, cujo conteúdo intelectual tem, em muitíssimos casos, peso diametralmente oposto à quantidade de “súditos” seguidores.

Ainda que estudiosos afirmem que, no mundo etéreo das redes sociais, ter milhões de seguidores não significa, necessariamente, exercer influência real sobre suas decisões, a realidade mercadológica que dita as regras do atual consumismo aposta no contrário: os investimentos milionários de marcas, produtos e serviços nesses “gurus” não deixam dúvidas de que, sim, eles “vendem” muito. 

Ou seja, são habilidosos prestidigitadores em um mundo que se move e se pauta pelo consumo extravagante, ancorado na volatilidade com que “fenômenos da mídia digital” surgem e se esvanecem.

A questão de fundo, contudo, não está nas vendas milionárias que esses magos digitais alavancam ao manipular (e criar) sonhos de consumo; nem no quanto faturam para convencer seguidores de que os supérfluos são essenciais para suas vidas. Afinal, isso a mídia tradicional sempre fez.

O grande problema é que, para apregoar mercadorias e serviços dispensáveis – ou adiáveis –, como produtos de primeira necessidade, eles precisam embalá-los em “informações & reflexões” que, no mais das vezes, não passam de platitudes embaladas como experiências vencedoras, como “triunfo do saber” ou paradigmas de comportamento social.

A grave repercussão humana e social desse triunfalismo digital, que alimenta e exacerba no indivíduo o desejo não só pelo essencial, mas pelo luxo, pelo supérfluo e pelo espetacular, certamente será avaliada mais à frente como efeito danoso dessa avassaladora celebração do “sucesso” como condição fundamental à própria existência. 

Como já dito, há muitos influenciadores digitais produzindo conteúdo de alta relevância e de grande interesse, nas mais diversas áreas. São, contudo, louvável e honrosa minoria na maré montante de superficialidades e de autocelebrações, que inunda as redes sociais.

O antídoto a essa onda desconcertante de futilidades erigidas como parâmetros de julgamento sobre tudo e todos é a educação. 

Com uma boa formação, o cidadão tem plenas condições de fazer suas escolhas com base nos valores sociais e humanos essenciais. Assim, não será presa fácil do canto da sereia de certos “influenciadores” digitais elevados ao status de “gurus”.