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ESTÁDIO SEM DONO

O puxadinho do Maracanã

Situação é grave, e governo do Rio empurra estádio com a barriga há três anos

Paulo Vinícius Coelho - PVC

01/07/2022 00:05

A Justiça concedeu liminar ao Vasco para realizar seu jogo contra o Sport, no próximo domingo (3), no Maracanã. A CBF acatou a decisão judicial, e isso promoverá a partida de número 30 no antigo maior estádio do mundo em 2022 –foram 64 no ano passado.

Mais do que a briga entre as diretorias vascaína e rubro-negra, o caso expõe o descaso do governo do Rio de Janeiro. Há três anos, Flamengo e Fluminense administram o local com base em concessões temporárias, renovadas a cada seis meses.

Em tese, Flamengo e Fluminense têm razão em bloquear uma partida do Vasco, com a alegação de que o gramado não suportará.

Imagine um parque público, cuja capacidade de receber pessoas tenha se excedido num domingo de sol. A prefeitura fechará seus portões, e parte da população não conseguirá usufruir do bem comum, por segurança.

O Maracanã é público, mas a grama é um ser vivo e não tem capacidade para receber três jogos em cinco dias. Daí a tentativa de fechar as portas ao jogo do Vasco.
Faz sentido.

O que não tem senso é o Maracanã sem dono. No passado, cantava-se "o Maraca é nosso!". Depois, reclamava-se por ter sido concedido a um consórcio comandado pela Odebrecht. O governo do estado cancelou a licitação por caducidade, e agora o Maraca não é de ninguém.

No decreto que rompeu a licitação, assinado pelo então governador Wilson Witzel, em 2019, o argumento era o de descumprimento do contrato pela Odebrecht.

Só que o concessionário dizia ter perdido o direito ao uso do Célio de Barros, do complexo aquático Julio Delamare e da área do Museu do Índio. Depois de licitados, esses espaços tiveram reintegração de posse, por decisão judicial.

Um antigo dirigente do consórcio Maracanã Entretenimento S/A argumenta que a caducidade foi um atestado de culpa, assinado por Witzel. 

Certo ou errado, o tempo levou a um acordo. Nunca se produziu novo processo de licitação que terminasse com a situação provisória.

O Flamengo é quem mais cuida do velho patrimônio público e paga as grandes despesas. 

O prédio pode ter danos grandes causados pelo tempo, reformas necessárias na cobertura, na estrutura. A sua casa também pode.

Como Flamengo e Fluminense poderiam arcar com as despesas de uma obra gigante tendo concessão temporária de seis meses?

Não faz sentido. A situação é grave, e só haverá solução definitiva depois das eleições –se houver.

O futebol brasileiro não pode prescindir do Maracanã. O Flamengo e o Fluminense até podem, em médio prazo. O Tricolor construiria arena para 30 mil pessoas, o rubro-negro planeja outra para 70 mil, a seleção se espalharia por vários estados, como faz desde 1980, e ficariam apenas a tristeza e a saudade.

Mas essa é uma situação viável daqui a cinco anos, dez talvez, se Fla e Flu construírem seus novos estádios.

Incrível é pensar que os clubes possam criar situações definitivas e o governo do Estado do Rio não consiga encaminhar uma saída há três anos, empurrando com a barriga e tratando o patrimônio do futebol do mundo como se fosse um puxadinho.

Fluminense x Corinthians acontecerá neste sábado, o Vasco jogará no domingo contra o Sport, amparado por decisão liminar, e o Flamengo enfrentará o Tolima na quarta-feira.

A solução definitiva virá no dia de São Nunca? O Maracanã não pode virar uma briga de clubes.

É preciso preparar o maior palco do futebol mundial para seu centenário, em 2050. 

Para que seja de todos nós, administrado por quem quer que seja.

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