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COLUNA CRÔNICA

“Salve-se Quem Puder” é um clichê agradável

A trama tem elenco carismático e aposta no humor óbvio, mas livre de preconceitos
02/03/2020 14:05 - Márcio Maio/TV Press


 

Quando estreou, “Salve-se Quem Puder” não chegou a impressionar. Afinal, à primeira vista, entre as três mocinhas da trama, apenas Alexia, papel de Deborah Secco, tinha nuances mais interessantes. Porém, com o passar do tempo, até as características que, inicialmente, cansavam em Kyra e Luna, vividas por Vitória Strada e Juliana Paiva, passaram a fazer mais sentido. Tanto o jeito estabanado demais da primeira quanto a postura sóbria e boazinha demais da segunda. Há cerca de um mês no ar, a novela escrita por Daniel Ortiz chega, na faixa das 19h, bem perto dos números de audiência de “Amor de Mãe”, trama das 21h da Globo. Em alguns dias, a diferença foi de apenas cerca de dois pontos – de 29,2 para 31,4 de média, por exemplo.

O que falta em profundidade no texto, pelo menos em relação à antecessora “Bom Sucesso”, sobra no humor. Uma comédia um tanto óbvia, é verdade. Mas que funciona no horário, período em que muitas pessoas estão chegando do trabalho ou se preparando para o jantar e a televisão é mais uma distração despretensiosa do que uma tentativa de reflexão social. Animais inusitados em cena, armadilhas tramadas por crianças levadas e as inúmeras situações de risco que as três heroínas inseridas em um programa de proteção passam tentando não ser reconhecidas, por exemplo, são estratégias usadas repetidamente. Mas que, por enquanto, funcionam. 

Para isso, conta o carisma e o talento das três atrizes principais. Deborah Secco, de cara, mostrou que tinha sua personagem extremamente bem construída. Porém, a atriz coleciona papéis principais em sua carreira e já fez bonito em outros tipos cômicos. Com isso, não chega a surpreender que coloque no bolso a maioria das cenas que divide com suas colegas. Então, é justamente quando Juliana Paiva e Vitória Strada atuam sem outra protagonista por perto que elas mais se destacam. Apesar do tom exagerado de humor nas sequências de Kyra/Cleyde, a gaúcha Vitória vem tirando de letra o trabalho. Talvez por se permitir ser tão ridícula quanto o texto pede. E certamente por contar com uma direção totalmente aberta para isso, de Fred Mayrink. Basta analisar o histórico dele para entender a razão. Afinal, ele tem no currículo três novelas com a direção de núcleo do saudoso Jorge Fernando, incluindo aí a primeira de Fred como diretor, “Chocolate com Pimenta”, em 2004. 

Das três mocinhas, porém, é a trama de Luna/Fiona que mais parece ter futuro. Depois de serem dadas como mortas, Kyra e Alexia passaram a vigiar a família uma da outra, para não serem reconhecidas com o disfarce feito no programa de proteção. Luna, não: ela mesma se aproxima da mãe, Helena, papel de Flávia Alessandra, que a abandonou ainda criança no México, e hoje vive na alta sociedade paulistana, muito bem casada e com dois enteados a quem trata como filhos. As duas já se cruzaram algumas vezes e a tendência é que essa relação se torne cada vez mais ambígua. Helena não gosta de Fiona, mas sente que tem algo na jovem que faz com que não consiga se afastar completamente dela.

Juliana e Flávia, pelo menos por enquanto, estão conduzindo bem esse misto de raiva e afeto que começa a rondar as personagens. As duas, aliás, têm duas vantagens para apostar nesse conflito familiar entre as personagens. A primeira é que elas já foram mãe e filha antes. Foi há seis anos, na novela “Além do Horizonte”, também na faixa das 19h – mas sem a carga de humor que “Salve-se Quem Puder” carrega. E a segunda é que não há espaço para nenhum “déjà vu” ali, porque ninguém se lembra disso mesmo – o folhetim escrito por Carlos Gregório e Marcos Bernstein foi um dos maiores equívocos do horário das 19h na Globo. 

"Salve-se Quem Puder” – Globo – Segunda a sábado, às 18h15.

Felpuda


Figurinha carimbada ganhou o apelido de “biruta”, instrumento que indica direção do vento e, por isso, muda constantemente. Dizem que a boa vontade até existente ficou no passado, e as reclamações são muitas, mas muitas mesmo, diante das decisões que vem tomando a cada mudança de humor do eleitorado. Como bem escreveu o poetinha Vinicius de Moraes: “Se foi pra desfazer, por que é que fez?”.