Cinco dias, cinco filmes, infinitas discussões. Começa hoje, no Museu da Imagem e do Som (MIS), em Campo Grande, a mostra “Cinema e Imprensa”, que exibirá uma série de películas relacionadas ao exercício do jornalismo, seguidas de debates sobre os temas despertados por cada obra. Além de abordar aspectos intrínsecos aos profissionais da área, a semana ainda promete levantar questões essenciais à sociedade.
A mostra tem curadoria do jornalista e radialista Clayton Salles, um dos idealizadores do projeto. Os debatedores foram escolhidos em parceria com o Sindicato dos Jornalistas de Mato Grosso do Sul (Sindjor–MS), que indicou profissionais do segmento com maior afinidade às temáticas de cada filme. As sessões serão diárias, gratuitas e vão até sexta-feira, começando sempre às 19h, no MIS. O espaço está localizado no terceiro andar do Memorial da Cultura e da Cidadania Apolônio de Carvalho (Avenida Fernando Corrêa da Costa, 559 – Centro).
A película que abre a semana é “O Abutre”, de 2014, dirigido por Dan Gilroy. O tema da discussão após a reprodução da obra abordará “As fronteiras entre a banalização da imagem e o sensacionalismo”, com mediação da jornalista Ellen Genaro. A profissional desenvolveu um estudo sobre o tema durante o mestrado em Comunicação.
De acordo com Clayton Salles, a programação da mostra se baseou na variedade de temas incitados pelos filmes eleitos. “Primeiramente, buscamos filmes nos quais a imprensa ou o jornalista fossem protagonistas. Depois, elegemos alguns que pudessem direcionar a variedade dos debates, como a relação do poder com a imprensa, da política com a imprensa, ou sobre jornalismo investigativo”, expõe.
Despertar conversas em torno de assuntos relacionados a dilemas éticos do jornalismo atual também foi um dos fatores pensados para definir a grade da semana. “Existem temas em voga atualmente, como a instantaneidade da imagem, do audiovisual, que já serão dissecados no primeiro dia”, continua o curador.
Apesar de pensada por jornalistas, a mostra não pretende atingir apenas as pessoas que trabalham em jornais, rádios, sites, emissoras de televisão ou em assessorias de imprensa. Fonte e fim da informação – produto dos profissionais da área –, o público em geral também é convidado a participar das discussões.
Para Clayton Salles, o jornalismo ajuda a formar opiniões, motivo suficiente para estimular o interesse da sociedade nos tópicos abordados pelos filmes da mostra. “É importante que o público compareça também. As pessoas formam suas visões de mundo muito por causa do que veem na imprensa. Talvez a mídia seja a principal referência para isso. O jornalista presta um serviço público, e não para um cliente específico”, acredita.
As produções escolhidas para a semana são todas estrangeiras, mas as temáticas levantadas podem ser aplicadas à realidade local. “As questões inseridas pelos filmes permeiam tanto o macro quanto o micro. ‘Todos os Homens do Presidente’, por exemplo, que trata da queda do presidente Richard Nixon, nos Estados Unidos, após o escândalo Watergate ser denunciado na imprensa. Não tem como não associar com os processos de impeachment desenrolados no Brasil”, comenta Salles.
FERRAMENTA DE ENSINO
A utilização do cinema como mecanismo pedagógico faz parte de uma gama de novas possibilidades de ensino e reflexão, seja nas salas de aula, seja em eventos como a mostra “Cinema e Imprensa”. Um dos debatedores escolhidos, Marcos Paulo da Silva é professor do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e defende o método.
“Um filme consegue atingir vários níveis de exemplificação. Eu considero muito eficiente. Dilemas éticos, por exemplo, são muito difíceis de situar apenas com o que há disponível na literatura acadêmica”, explica. O docente mediará o debate em torno do tema “Ética: quando o pessoal e o profissional entram em conflito”, provocado pelo filme “Intrigas de Estado”, de 2009, dirigido por Kevin McDonald, que será exibido na quinta-feira.