A primeira exposição do ano a ocupar o primeiro andar da Morada dos Baís, em Campo Grande, será inaugurada hoje às 19h e é assinada por Marina Torrecilha, uma jovem artista sul-mato-grossense que aposta na mistura de arte e tecnologia.
No prédio histórico de Campo Grande, atualmente administrado pelo Sesc, estarão penduradas 22 telas originais, feitas a partir de programas de ilustração digital e de técnicas manuais, como aquarela e pontilhismo. As produções foram selecionadas por ela mesma, em meio a um portfólio pessoal que mantém desde 2011.
Torrecilha, que desde criança acumula influências dos seres imaginários compartilhados na literatura e no cinema, agora expõe ao público poderosas personagens femininas e criaturas mágicas que criou de forma autoral. O título da exposição – Expressões Místicas da Fantasia – faz jus a essas inspirações, pinçadas de obras dos gêneros fantasia e ficção científica ao longo do tempo.
CONVITE
Marina tem 27 anos e é formada em Artes Visuais pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Especializou-se em Animação 3D na Art Academia de São Paulo e, atualmente, trabalha como ilustradora e sócia de uma desenvolvedora de games independente da Capital, a Jogos Aurora.
Esta é a primeira exposição que a artista realiza em um centro cultural – local que, aliás, representou inovação na construção de casas no passado e onde viveu Lídia Baís, uma importante pintora e desenhista de Campo Grande. Para Marina, a oportunidade de mostrar uma face da arte produzida na atualidade, no prédio Morada dos Baís, é representativa e gratificante.
O convite do Sesc foi feito no início deste ano e surpreendeu Marina. “Eu já havia feito uma exposição em um sarau, mas nada oficial”. Atualmente mais ligada ao universo dos games, afirma que a experiência de fazer uma coletânea pessoal e a expor para outras pessoas é diferente e única em sua carreira.
CURIOSIDADE
Foi o fascínio por sagas como “Jurassik Park” e “Senhor dos Anéis” que despertou o interesse da ilustradora pela tecnologia e pela arte. “Quando eu era criança, adorava desenhar nos cadernos da escola. Depois, já adolescente, comecei a me apaixonar pelas ilustrações de livros e pelos efeitos especiais dos filmes. Eu tinha muito mais curiosidade de saber como eles eram feitos do que saber das histórias em si”.
Depois de terminar a faculdade, foi a hora de correr atrás de meios para desenvolver suas criações autorais nesse universo. Ela comprou um computador mais potente, softwares para explorar a linha 3D e ganhou mesa e caneta digitais de um tio que voltava dos Estados Unidos. Investimentos que, lamenta, não são acessíveis a todos que querem se aventurar na área.
Agora Marina está imersa nos trabalhos como ilustradora e, enfim, pode “expressar a própria realidade por meio da fantasia”, como define.
PRECONCEITO
Apesar de ter contribuído de forma decisiva em descobertas no campo da tecnologia, a presença das mulheres nesta área ainda vem carregada de preconceito. Marina Torrecilha, por exemplo, se reconhece como a única ilustradora de games de Mato Grosso do Sul.
Ela nota que o envolvimento das mulheres no meio é visto com resistência e desconfiança, por isso, busca motivação no trabalho de colegas que se destacam em outros estados e tem conseguido romper essas barreiras com sucesso.
Segundo a artista, merece ser lembrado um outro preconceito que atinge os jovens que, independentemente do gênero, buscam trabalhar com arte e tecnologia. “É uma escolha muito dura de se fazer porque existe apreciação visual, reconhecimento, mas não tem valorização profissional. As grandes empresas não apoiam quem está começando, principalmente quem é jovem e tem projetos novos. Fora que ninguém quer que o filho decida por essa profissão por medo de não dar dinheiro, querem que ele sempre opte por uma ocupação comum, mais consolidada”.
Marina investe agora na Jogos Aurora, com os sócios Pedro Schabib e João Luiz Cardoso. Ela é roteirista e ilustra objetos de cena e personagens, enquanto Pedro cuida da parte da programação, e João, da sonoplastia. A influência da fantasia e do misticismo também é marcante nos três jogos para computador e dispositivos móveis criados pelo grupo: Laser Defense, Dragon Rings e Ponami, que está em fase de finalização.
Juntos, participaram de várias mostras de games pelo País. Agora, procuram divulgar o trabalho e tornar a desenvolvedora uma empresa.