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CRÔNICA

A quarentena de cada um

"Todos temos fantasmas que nos assombram, principalmente em tempos incertos como estes."
09/05/2020 06:00 - Theresa Hilcar


 

Do ponto de vista da quarentena, cada um de nós contará uma história diferente destes tempos difíceis. E muito estranhos, com certeza. Tenho amigas e amigos se deprimindo, outras enlouquecendo, amigas e conhecidos que nunca foram tão felizes. O grau de satisfação depende da idade, da saúde e, principalmente, da extensão dos privilégios. 

Em Roma e Florença, duas amigas virtuais têm realidades distintas. A primeira, jornalista de texto primoroso e certeiro, vive com filhos pequenos num apartamento na capital italiana, lugar que ela recentemente descreveu como “... uma capital calada, sóbria, irreconhecível para quem já pisou na cidade eterna”.  Ela já foi parar no hospital com suspeita de Covid-19, episódio descrito no diário on-line sobre a Pandemia que ela publica em veículos internacionais.

A outra vive no campo, em casa rodeada pela natureza exuberante da Toscana e jardins floridos, por onde caminha toda manhã ao lado do marido. Ela posta vídeos animadores, faz graça usando aplicativos do Instagram. Em lives frequentes conta histórias do lugar onde vive há mais de 20 anos, mostra as plantas no seu quintal e o look do dia. De dar inveja.

Em Minas, amigas de infância contam relatos distintos, embora a classe social de ambas seja parecida. A mais velha, que antes vivia em dieta rigorosa, chutou o balde e caiu de boca na mais fina gastronomia. E nos vinhos. Cada post é uma viagem gastronômica e etílica. A mesa é lindamente colocada todos os dias com o mesmo requinte. O cardápio é harmonizado com vinhos elegantes e taças de cristal. Uma fuga à altura de quem, como ela, trava há anos uma luta com doença autoimune.

No interior tem a otimista de carteirinha e registro profissional. Vive na bolha da negação com a firme certeza de que tudo se resume ao pensamento positivo e lindas máscaras, de todas as cores e modelos, que costura para si e para os amigos. Tudo mais é torcida do contra. O Brasil vai muito bem e todos vão sair desta leves e fagueiros. “Você vai ver só, Theresa!”, ela escreve.

Também tem aquele que é dono de bar, fechado há quase dois meses. Uma ou duas vezes por semana ele, amigo fraterno,  pega a chave e gira na fechadura do pequeno estabelecimento, a poucos metros de onde vive. Lá se esbalda de gim e vodca do seu estoque. E compartilha o momento em vídeos e fotos que envia para os amigos – em geral no meio da noite. A voz pastosa, o rosto crispado de dores antigas e o relato sobre o medo de não ter feito nada melhor da vida são como recados. Meus olhos se enchem de lágrimas ao vê-lo assim impotente e só. Às vezes eu lhe respondo. Noutras fujo com medo. Preciso me proteger da angústia.

Todos temos fantasmas que nos assombram, principalmente em tempos incertos como estes.  Cada um de nós convive à sua maneira. Cada um de nós está desenvolvendo uma maneira de sobreviver ao estranhamento dos dias, das noites insones, de hábitos novos e de ausências. Cada um de nós tem equipamento de proteção para não se contaminar com a realidade do outro, já que para a nossa não há equipamento possível a médio e longo prazo. Nem vinhos, nem vodcas, nem flores na Toscana, nem a vista de Roma na janela. A negação tampouco.

Somos seres privilegiados em Campo Grande e em todo o Mato Grosso do Sul. Quem não está nos hospitais salvando vidas e exposto ao perigo – ou ralando nos outros serviços essenciais –, está vivendo como se todos os dias fossem feriados. Boa parte da população não sente a ameaça que sentem paulistanos, cariocas, maranhenses ou amazonenses. Não fossem as máscaras obrigatórias, algum desavisado diria apenas que a Campo Grande está mais pacata do que o normal.

No entanto é crucial entender que basta a negligência de um de nós para comprometer nosso grupo, nosso bairro, nossa cidade. A luta não acabou. Talvez até demore mais do que gostaríamos. Ainda é necessário nos adaptar a novas condutas, cuidar de si pelo outro e, agora sim, torcer para que uma vacina possa nos imunizar o quanto antes. Antes que a gente sucumba à ausência de abraços, carinhos e saudades. 

Felpuda


Embora faltem 26 dias para as eleições, a bolsa de apostas nos meios políticos já está em alta.

Dois nomes estão sendo apontados como favoritos para disputarem o segundo turno.

Isso acontecendo, há quem garanta que um deles receberia total apoio de antiga liderança e de todo o seu grupo, que hoje estão em lados opostos.

Vai longe o tempo em que o objetivo era tão somente o bem comum...