Correio B
DAMA DO RASQUEADO

Artistas, parentes e amigos falam sobre a perda e a importância da cantora Delinha

Personalidades do meio cultural, da política, parentes e amigos falam sobre a perda e a importância da cantora Delinha

Marcos Pierry

17/06/2022 10:30

“E assim ela se foi/nem de mim se despediu”. Nunca os versos célebres de Mário Zan e Arlindo Pinto fizeram sentido para tanta gente ao mesmo tempo. O corpo estava frágil já há algum tempo. 

Além de todo o pesadelo da pandemia, Delanira Pereira Gonçalves, após a queda depois de um show no mês de outubro, vinha enfrentando crises respiratórias e outros problemas de saúde.

Na madrugada de ontem, enquanto dormia em casa, Delanira, nome de batismo da cantora Delinha, não resistiu e faleceu, aos 85 anos, em decorrência de uma pneumonia crônica, deixando sem chão a imensa comunidade de fãs e amigos que a artista conquistou em sete décadas de carreira.

Após o velório, que atraiu uma pequena multidão à Câmara Municipal de Campo Grande, o caixão seguiu em cortejo para o Cemitério Jardim da Paz, onde foi realizado o sepultamento, no fim da tarde desta quinta-feira. 

Ao longo de todo o dia, presencialmente, nas redes sociais e em entrevista ao Correio do Estado, diversas personalidades deram testemunhos emocionados sobre aquela que é considerada a embaixadora da música sul-mato-grossense.

Durante a década de 1950, ainda no tempo em que ser mulher poderia significar uma barreira intransponível para a carreira artística, Delinha despontou no cenário musical, em dupla com o primo Délio, e não parou de fazer história.

PIONEIRA

Pioneira na gravação de discos e no sucesso retumbante, a dona de sucessos como “Amor Inesquecível”, “Caçando nos Pantanais”, “O Sol e a Lua”, “Coisinha Querida”, “Louvor a São João” e muitos outros tinha um canto nostálgico e doído que casava como luva com a voz do parceiro Délio, falecido em 2010, com quem também durante muito tempo foi casada.

Dona na interpretação e também na autoria das composições. Sim, sempre a quatro mãos com o companheiro de dupla e de vida, Delinha foi uma compositora de mão cheia. 

Quem a conheceu de perto destaca a generosidade da artista, que parecia ter o coração do tamanho do sorriso que enterneceu gerações seguidas.

BRILHANTE

“Vamos sentir muita saudade, muita falta da Delinha”, declara o pianista Evandro Higa. “Porque ela representa uma geração de músicos de Mato Grosso do Sul que são presentes na memória afetiva, na cultura do Estado, e que praticam uma música que tem as cores e todas as marcas da fronteira com o Paraguai”, afirma o músico, que também é professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e autor de “Para Fazer Chorar” (2019), livro que investiga as raízes paraguaias da expressão musical na região de fronteira.

“Realmente, além de ter uma carreira brilhante e uma discografia enorme, ela tem um carisma, e isso vai continuar. Ainda bem que a gente tem os registros desse legado enorme que a Delinha deixa para a cultura e para a música de Mato Grosso do Sul”, reconhece Higa.