MENU

Clique aqui e veja as últimas notícias!

LITERATURA

Aos 81 anos e mesmo com pandemia, escritor imortal Carlos Nejar lança obra na Capital e declara amor à escrita

Nejar está na cidade para divulgar o lançamento do seu último livro, “A Tribo dos Sete Relâmpagos”, publicado pela Editora Life,
03/12/2020 07:30 - Naiane Mesquita


Carlos Nejar renasceu. Ocupante da cadeira número 4 da Academia Brasileira de Letras, o escritor imortal faz questão de mostrar a sua gratidão aos jovens leitores que o descobrem todos os dias. “Eu estou muito feliz, porque há uma nova geração, a partir dos 20 e poucos anos, que me entende e me acompanha no Brasil inteiro, o que, para mim, é o renascimento. Eu não preciso explicar para eles o gênero, eles mesmos descobrem; e são meus contemporâneos, porque contemporâneo é aquele que nos compreende”, explica em entrevista ao Correio do Estado.  

Aos 81 anos e natural do Rio Grande do Sul, Nejar está em Campo Grande para divulgar o lançamento do seu último livro, “A Tribo dos Sete Relâmpagos”, publicado pela Editora Life, de Mato Grosso do Sul. Ao contrário das outras produções, a obra se aventura pelo fantástico para abordar a linguagem.

“Será uma surpresa para os leitores, porque há uma diferença tênue entre o realismo e o fantástico, e o livro tange ao fantástico – apesar de tratar da realidade de um personagem que cai de avião no meio da selva e tenta sobreviver. A partir daí ele tem uma experiência com a tribo, sobrevive, se torna amigo e consegue mudar a linguagem da tribo, como uma forma de educação pela palavra. Nesse mistério de linguagem, o livro também se inventa”, explica.

Nejar é mais conhecido do grande público pelas suas aventuras na poesia. Mas também escreveu contos, ficção e prosa. Para ele, os gêneros textuais não devem impor limites à criatividade. “Eu não vejo limite nos gêneros. É verdade que um longo tempo eu tenho escrito poesia, mas, por exemplo, meu romance é junção de ficção com enredo, é poesia, é ensaio, é história, porque não há limites. Os gêneros tiveram ruptura desde Borges, desde Guimarães Rosa, desde Clarice Lispector, e nós inventamos com a palavra alguma coisa que buscamos que seja nova”, frisa. Para o escritor, “não cabe explicação, cabe ler e cabe acompanhar”, complementa.  

Nejar foi escolhido pela publicação Quarterly Review of Literature, nos Estados Unidos, como um dos grandes escritores da atualidade e foi também considerado um dos dez poetas mais importantes do Brasil pela revista Literature World Today. Indicado ao Nobel de Literatura em 2017 e também em 2021, pela Academia Brasileira de Letras, a qual faz parte desde 1989, Nejar acredita que nos 60 anos em que esteve envolvido com a literatura, grande parte de sua inspiração foi a fé. “Em primeiro lugar, eu tenho que acreditar no que eu escrevo para poder escrever. Na medida em que eu acredito, é como as coisas nascem”, frisa. Religioso, o escritor acredita em Deus e no impossível. “Nós podemos acordar o possível com o impossível, acho que a fé na revelação da palavra é o que nos mantém vivos, e a fé em Deus que nos sustenta é a base da nossa respiração espiritual, porque nós temos dele o sopro”, acredita.

Trajetória

Além da literatura, o escritor tem uma relação estreita com a Justiça. Formou-se em Direito, foi promotor público e procurador de Justiça. Apesar do carinho que diz manter por todo esse percurso, explica que a literatura sempre falou alto desde a juventude. “Eu escrevia como se a poesia... ou a poesia ia na minha frente, e eu acompanhava. No correr do tempo, a poesia e eu andamos de mãos dadas, e eu, ao mesmo tempo, para sobreviver, eu vivi no Direito; eu fui promotor público, fui procurador de Justiça, seguindo a carreira do Ministério Público, que aliás eu tenho muita estima, e por outro lado eu não deixava no júri de escrever um poema”, conta.

Para ele, a escrita sempre esteve latente, como algo imprescindível à vida. “Vinha um poema e eu escrevia. Eu sinto o poema nas mãos e o poema nos sente na palavra. O poeta não pode viver nem se sustentar apenas de poesia, ou mesmo de ficção. Nós precisamos ter uma outra profissão, e eu amo o Ministério Público, eu amo o Direito, onde eu aprendei não só alienação, mas que o amor, como diz Paulo, é o complemento da lei”, acredita.  

É difícil que uma resposta do escritor não seja poética. Quase todas as frases parecem sair direto de um de seus lançamentos. Essa forma de responder às questões da vida talvez só tenha ruptura em relação à pandemia do novo coronavírus, que, para ele, movimentou as estruturas do mundo. “Este ano foi muito difícil para todos, não apenas para os brasileiros, para o mundo todo. O uso de máscaras, que é indispensável, evitar os agrupamentos, o uso de álcool ou de lavar com sabão as mãos, todo esse movimento de cuidado se tornou fundamental. A ciência está prometendo uma vacina, mas a ciência é vagarosa, porque ela vive de dúvidas, vive de experiências e indagações”, frisa.

Mesmo com os riscos, o escritor fez questão de lançar o último livro em Campo Grande e mais dois relançamentos pela Editora Life. A tarde de autógrafos será hoje, a partir das 16h, na Livraria Lê. Em razão dos cuidados, o contato com o escritor será limitado, segundo a assessoria de imprensa da editora. “Nós estamos esperando uma vida normal e nós temos essa certeza, porque depois da tempestade há de vir a bonança”, frisa.

A obra inédita “A Tribo dos Sete Relâmpagos” e as reedições de “O Evangelho Segundo o Vento” e “Sélesis e o Livro de Silbion” estão disponíveis na Life Editora e na Livraria Lê.