Especial Coronavírus (COVID-19) - Leia notícias e saiba tudo sobre o assunto. Clique aqui.

DESPEDIDA

Da medicina às artes, Sylvio deixou legado de amor

Médico anestesista e professor aposentado, Sylvio Torrecilha partiu, aos 89 anos, apaixonado pela música e por poesia
05/03/2020 07:00 - Naiane Mesquita


 

Dono de um humor ácido, segundo a neta Marina, e de uma paixão arrebatadora pelas artes, o médico anestesista Sylvio Torrecilha inspirou gerações de amigos e familiares ao longo do período que morou em Mato Grosso do Sul.

Aos 89 anos, depois de décadas dedicadas à medicina e às artes, Sylvio decidiu partir. A despedida, próxima ao Carnaval, ecoa nas lembranças da família, que já viu o médico atravessar a avenida, encantado com a festa carioca.  

Natural de Ribeirão Preto, Sylvio saiu da terra natal para estudar na antiga Faculdade Nacional de Medicina, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Foi no campus que conheceu a esposa de toda a vida, Oselia Maksoud, na época, estudante do curso de farmácia. Os dois se casaram em 1955 e tiveram a primeira das quatro filhas mulheres no ano seguinte, em 1956.  

Formado, chegou a integrar o Exército Brasileiro, no qual atuou como médico em comunidades indígenas e em áreas ainda isoladas do Brasil. “Meu pai entrou como tenente no concurso da aeronáutica. Ele atendeu muitas comunidades indígenas e carentes do País. Posteriormente, ele pediu transferência para Campo Grande, porque a família da minha mãe era de Mato Grosso do Sul. Como eles tiveram mais filhas, ela precisava de ajuda e aqui teria o suporte. Minhas irmãs, Marta, Silvia e Júlia nasceram em Campo Grande”, conta a filha mais velha do casal, a arquiteta Mária Lúcia Torrecilha.

Professor

Em Campo Grande, Sylvio atuou como médico, vereador de Terenos, professor de medicina e integrante do grupo Teatro Universitário de Campo Grande (TUC), ao lado de outra professora importante de Mato Grosso do Sul, a escritora Maria da Glória Sá Rosa, falecida em 2016. “Ele foi um dos fundadores da Faculdade de Medicina de Campo Grande, antes de se transformar em Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Elaborou o primeiro vestibular, quando a universidade se tornou federal, meu pai ocupou a cadeira de fisiologia da UFMS. Ele sempre deu muita importância a sabedoria, ao conhecimento e fez de tudo para fomentar e valorizar o estudo em Mato Grosso do Sul”, acredita Maria Lúcia.  

Defensor da democracia, durante a Ditadura Militar foi caçado e precisou se afastar do posto de professor. “Ele ficou dez anos afastado. Depois de dez anos, conseguiu a anistia e retornou como professor”. 

 
 

Artes

A paixão pela arte apareceu no teatro, na amizade com José Octavio Guizzo e Ary Toledo, nas poesias declamadas e nas músicas que entoavam pela casa com frequência. Da MPB ao samba raiz, Sylvio fez questão de ensinar aos 7 netos a importância da cultura para a vida. “Conheço poucas pessoas potentes e inspiradoras que influenciam gerações como o meu avô.

Das memórias de infância ficam as imagens dele em sua poltrona ao lado das pilhas de jornais, de revistas e de livros”, conta a neta Marina Torrecilha, ilustradora e criadora jogos para celular.

É de Marina que vem as lembranças do humor sagaz do avô. “Não tinha como não sorrir com as suas histórias e da rotina, ele tinha a capacidade de resgatar a alegria em momentos tensos.

Zelou pelo conhecimento das filhas, viu todas se formarem e incentivou para que todas fossem inspiradas pela curiosidade e pelos mistérios do universo. Com muita paixão, também incentivou às artes dentro de casa, na qual a liberdade intelectual e artística foi realizada por todas. E ele realmente cuidou das pessoas, não via distinção e tratava todos com todo o calor humano que um verdadeiro médico tem pela sua comunidade. Meu avô não se foi, ele está em suas quatro filhas e em seus netos, e, com certeza, estará orgulhosamente perpetuado em nossa história”, acredita Marina.  

O último desejo foi transformar um possível velório longo e triste, em uma cremação. O plano é que as cinzas sejam livres como as ondas do mar da Urca, em frente à universidade carioca na qual Sylvio conheceu o seu grande amor. 

 
 

Felpuda


Figurinha carimbada ganhou o apelido de “biruta”, instrumento que indica direção do vento e, por isso, muda constantemente. Dizem que a boa vontade até existente ficou no passado, e as reclamações são muitas, mas muitas mesmo, diante das decisões que vem tomando a cada mudança de humor do eleitorado. Como bem escreveu o poetinha Vinicius de Moraes: “Se foi pra desfazer, por que é que fez?”.