Correio B
LITERATURA

Com 40 anos de estrada, caminhoneiro lança livro de poesias e devaneios

Com quatro décadas de volante, caminhoneiro Américo Zanete Magalhães lança “Estradas, Madrugadas e Poesias”

Marcos Pierry

19/05/2022 10:00

Literatura é fogo. A arte das letras quase sempre parece implacável quando o autor surge de ambientes menos ilustrados, ou cujo repertório alimenta-se de referências que costumam passar longe das rodas mais intelectualizadas.

Um exemplo recente do desvão no reconhecimento literário está na retomada da obra da escritora mineira Carolina Maria de Jesus (1914-1977), empregada doméstica que teve seu diário publicado em 1960 e arrebatou a crítica. 

“Quarto de Despejo – Diário de Uma Favelada” narra a vida de catadora de papel, negra e mãe que Carolina então levava em São Paulo.

Com sucessivas reedições – a última, de 2019, saiu pela Editora Ática – e traduzido para 14 idiomas, o livro integra o Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) do governo federal desde 2018.

Tudo isso para dizer que, em uma primeira visada, muitos podem torcer o nariz para a estreia literária do caminhoneiro gaúcho Américo Zanete Magalhães. 

Com 60 anos de idade, e 40 de volante, o motorista profissional conduziu sua verve de poeta, que pratica há muito tempo sob o estímulo do que presencia, sente e pensa a bordo, para os quase 80 poemas de “Estradas, Madrugadas e Poesia” (Life Editora, 2022, 124 páginas), seu primeiro livro.

A obra é fruto daquele desejo genuíno de ser lido por outros olhos depois de a plateia doméstica já ter aprovado a produção do caminhoneiro poeta em casa e nas redes sociais. De temática bem variada, seu Américo dividiu o livro em três partes – “Louvor e Gratidão”, “Minhas Verdades” e “Devaneios”.

A escrita sem firulas faz emergir a positividade do homem simples, detentor de crenças religiosas e temente a Deus, que acredita e propaga valores como a família e o trabalho. 

Ainda que um discurso edificante acabe limitando o alcance dos poemas que versam nessa linha, o autor comete seus panegíricos de maneira orgânica, ainda que com uma ingenuidade por vezes redundante.

Além das homenagens aos familiares e à escola onde estudou na infância, em São Luiz Gonzaga (RS), sua cidade natal, Zanete Magalhães presta tributo a grandes personagens, como o poeta Manoel de Barros (1916-2014) e até o religioso reformista alemão Martinho Lutero (1483-1546), de quem afirma ser adepto. 

Com uma metrificação quase sempre próxima das redondilhas da literatura de cordel, seus versos surpreendem ante a leitura cadenciada que proporcionam.

O vate das estradas também toca em sentimentos, como a empatia e o medo, e aborda também assuntos do dia a dia, como a pandemia e o aumento da presença feminina na condução das carretas Brasil adentro.

Independentemente de um tema específico, é quando Zanete solta livre e abertamente sua alma de caminhoneiro que o livro vale mais a pena. A exemplo do que nos diz em “Insônia” (página 49): “A insônia velha parceira/hoje veio antecipada/Na boleia eu acordei/vi a noite enluarada/o silêncio fez presença/na solidão da estrada”. Confira mais alguns trechos no box.

“Escrevo poesias desde jovem, porém, somente comecei a apresentá-las aos amigos após minha entrada no Facebook e no WhatsApp, pois tenho dificuldade com a escrita manual. A inspiração brota de inúmeras fontes: paisagens, fatos corriqueiros das estradas, pessoas, situações vividas ou imaginárias”, conta seu Américo.

Atualmente o motorista está aposentado, mas diz que não tem pretensão de parar de viajar pelo País, sozinho ou na companhia da esposa, dos filhos e, agora, dos netos e das netas. 

Só não decidiu ainda se vai explorar novos roteiros com seu caminhão Mercedes modelo 2646 – que estampa um adesivo no para-brisa com a palavra “poeta” – ou em um carro de passeio. Zanete explica que a escrita se tornou fundamental, um meio de escape nos momentos mais tensos e uma forma de eternizar os momentos especiais.

“Muitas das minhas preocupações eu consigo superar quando estou escrevendo, por esse motivo, alguns poemas do livro estão retratando momentos muito pessoais”, afirma o autor. “Esse é o meu primeiro livro, inclusive, devo a edição dele à minha família e aos inúmeros amigos que me incentivaram por anos para que eu reunisse meus poemas em um livro”, conta o poeta radicado em Campo Grande desde 1996.

“A poesia para mim flui a qualquer hora do dia, já escrevi poesia em guardanapos de papel durante um almoço ou jantar. Mas o gravador de voz no celular tornou-se uma ferramenta de grande valia, pois, quando estou dirigindo e algo me desperta a inspiração, eu gravo algumas palavras-chave e depois em algum momento do dia – quase sempre de madrugada – transfiro para a escrita, quando então vou dando o necessário retoque”, revela o poeta.