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UNIÃO

Com cerimônias modernas, profissionais apostam em textos personalizados para celebrar casamentos

Em Campo Grande, jornalistas escrevem e celebram casamentos com roteiro feito especialmente para casais
06/01/2021 08:00 - Naiane Mesquita


Faz um tempo que as celebrações de casamento deixaram de ser apenas as tradicionais. Muitos casais buscam inovar na hora do sim, casando ao ar livre, com a presença de poucas pessoas ou com um celebrante que não tem relação com nenhuma religião.  

Para se adaptar ao mercado lucrativo do casamento, diversos profissionais – de jornalistas a calígrafos – oferecem o serviço de celebrante, trazendo à cerimônia um pouco da personalidade e da história do casal.  

Uma das celebrantes mais antigas de Campo Grande, Flávia Melo, 31 anos, começou em 2007, após o casamento de uma amiga. “A ideia surgiu em abril de 2007, depois de ver o casamento de uma amigona minha na praia e achar a cerimônia mais linda da vida. No dia seguinte, soube que a celebrante era uma jornalista, e o trabalho dela era entrevistar o casal para contar a história deles. Voltei para Campo Grande com a ideia na cabeça. Cheguei aqui, conversei com alguns amigos que já trabalhavam nesse ramo de casamentos e todo mundo me deu força”, explica.

Flávia criou uma marca e começou a divulgar em junho. “Na primeira semana já tive uma noiva que se interessou e tinha o casamento marcado para agosto. Na semana do casamento eu fiquei mega nervosa, preocupada, porque é uma responsabilidade grande. Mas foi tão gostoso aquele momento que descobri que era isso que eu mais gostava de fazer mesmo”, acredita.  

A vocação, segundo ela, estava atrelada aos contos de fada e ao sonho de se casar. “Eu sempre gostei muito de casamentos. Desde pequena. Acho que remete a contos de fadas e durante muito tempo eu acreditei que esse seria o único final feliz possível. Já amadureci e sei que existem outros finais felizes também, mas ainda vejo no casamento algo mágico”, pontua.

Acreditar no casamento é um dos preceitos de quem escolhe esse caminho. A celebrante, jornalista e advogada Ana Maria Assis, 32 anos, começou a realizar cerimônias em 2019, após uma sobrinha precisar de um celebrante.  

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“Ela e o noivo estavam juntando dinheiro para começarem a vida juntos. Queriam fazer uma festa, mas não tinham tanto dinheiro para investir e tudo é caro. Um dia fui almoçar na casa da minha mãe, e foi quando soube detalhes da preparação para o casamento deles. Percebi que todos da família estavam ajudando com algo. Mas ela disse que ainda faltava alguém para celebrar o casamento, que não havia encontrado ninguém e padres não vão ao local onde seria a celebração”, relembra.

Foi quando Ana Maria percebeu que poderia ajudar. “Já que gosto de escrever – sempre gostei de contar histórias – e acredito no casamento. Perguntei se ela queria que eu celebrasse. E me surpreendi, porque ela ficou emocionada e bem feliz. Ali eu já senti uma emoção tão boa, já provei um pouquinho do que é a retribuição quando a gente celebra um momento tão importante da vida de alguém. Foi neste momento que eu me vi como celebrante, eu já sabia que eu amaria fazer isso”, acredita.

 

 
 

Entrevistas

Diferentemente das cerimônias tradicionais, os celebrantes só incluem questões religiosas se o casal quiser. Normalmente, as celebrações têm um roteiro que valoriza a personalidade e o caminho que o casal percorreu até aquele momento. Por isso, o profissional costuma realizar entrevistas com os noivos e também com algum familiar ou amigo do casal. “O texto é completamente personalizado: converso com os noivos antes, tem um questionário que envio para ter mais referências, vou à reunião técnica e ao ensaio, aproveito toda e qualquer oportunidade – a vida é corrida para eles, procuro simplificar. O questionário atende bem quanto ao entendimento do casal, a história deles, as preferências e as referências”, explica Silvia Martinez, 51 anos. A história de Silvia com os casamentos é antiga. “Eu atuo na área de casamento há 28 anos, comecei com a caligrafia, em que sigo atuando até hoje, tive locação de carro, representação gráfica e cerimonial e planejamento”, frisa.

De 2008 a 2015, ela ficou longe de Campo Grande e, quando retornou, preferiu trabalhar apenas com a caligrafia. “Quando, em 2017, em um congresso de cerimonial, assisti uma palestra sobre a atividade de celebrante social, já no ano seguinte, 2018, iniciei a busca por informações sobre o assunto, fiz um curso de oratória e impostação de voz e dois de celebrante especificamente”, frisa.  

Flávia também entrevista os noivos, mas tem duas modalidades de atuação. “A primeira, que é mais em conta, eu entrevisto só os noivos. São duas entrevista individuais, em média de uma hora e 30 minutos cada. A ideia é conhecer a história deles, do que gostam, como é a personalidade de cada um, defeitos, manias”, frisa.  

Para Ana Maria, os casamentos feitos dessa forma acabam trazendo histórias de pessoas reais. “Também vejo esse projeto, escrever e celebrar histórias reais de amor, como uma forma de contribuir para que os rituais se transformem e passem a levar uma mensagem de mais respeito e igualdade. Eu, enquanto mulher celebrante, faço questão de tomar todo o cuidado para que os meus textos não tenham nenhuma frase preconceituosa ou que façam da mulher alguém inferior ao homem no casamento ou em qualquer ponto da história”, frisa.

A celebração acaba sendo uma opção também para os casais homoafetivos. “Vejo também uma oportunidade para que casais homoafetivos tenham uma celebração como sempre sonharam, porque eu também amo conhecer e contar essas histórias”, acredita Ana Maria.  

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Amor e religião

Na celebração, Silvia prefere valorizar o amor acima de tudo, sem lições ou conselhos de felicidade para o casal. “Procuro não entrar em religião, o que está sendo celebrado é o amor.

Trago muito da história deles, associo com filosofia, pensamentos, poesia, músicas ou referências indicadas por eles, pode ser pela profissão de cada um, onde se conheceram”, exemplifica.  

As celebrações podem ser ainda híbridas. “Eu já fiz celebração com ou sem religião definida, celebração de noivos que eram católicos e casaram na igreja, recebendo o sacramento do matrimônio, e [cerimônia] mais íntima para os pais. E uma semana depois, eles fizeram uma festa na chácara. Como é uma celebração social, ela não tem valor nem religioso e nem civil. É bem simbólico mesmo”, frisa Nelson Henrique, 34 anos, celebrante e comunicador que realiza casamentos desde 2017 em Campo Grande.  

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Segundo Ana Maria, se o casal for religioso, dá para incluir a participação de um líder na cerimônia. “Quando o casal quer um momento religioso, eu costumo sugerir a participação de algum líder religioso ou alguém da família que seja referência. E fica bonito aliar a celebração simbólica com essas participações”, pontua.