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Cinema B+: Os primeiros favoritos do Golden Globes 2026

Muito do que a gente já vinha intuindo você vai ver na coluna dessa semana

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É pessoal, em duas semanas estaremos falando de Temporada de Premiação de 2026, voltando a especular, a criticar, a elogiar, a torcer e nos surpreender. Isso tudo porque no dia 8 de dezembro sai a lista de indicados ao Golden Globes 2026, e sim, falaremos muito de Wagner Moura e O Agente Secreto, que está certo para entrar na lista de indicados a filme estrangeiro e ator. Mas já lacro aqui: o dramalhão Hamnet será o grande destaque do início do ano, como filme, ator, atriz, trilha… tudo.

Por questões de lógica de calendário, como o Golden Globes abre a temporada, faz sentido olhar para quem está mais cotado agora – tanto no cinema quanto na TV.

A grande virada: quando comédia/musical vira campo de guerra

A Variety confirma: o lugar mais competitivo desta temporada não é o drama, é comédia/musical. O que sempre foi tratado como “categoria divertida” virou, em 2026, o verdadeiro ringue dos estúdios.

Na categoria de melhor filme de comédia ou musical, o quadro hoje é:

Jay Kelly (Netflix)

Marty Supreme (A24)

No Other Choice (Neon)

One Battle After Another (Warner Bros.) – previsto como vencedora

Wake Up Dead Man (Netflix)

Wicked: For Good (Universal Pictures)

Ou seja: temos um musical gigantesco (Wicked: For Good), um projeto autoral pesado (One Battle After Another), um dramedy esportivo com cara de cult (Marty Supreme), a nova entrada de Knives Out, uma comédia sul-coreana sombria (No Other Choice) e um original da Netflix. Não é “categoria leve”, é literalmente o centro da disputa.

No lado dos atores, Clayton Davis crava Timothée Chalamet como favorito em ator de comédia/musical por Marty Supreme, à frente de George Clooney (Jay Kelly), Leonardo DiCaprio (One Battle After Another), Brendan Fraser, Ethan Hawke (Blue Moon) e Lee Byung-hun (No Other Choice). A ideia de Chalamet ganhar seu primeiro Globo nesse terreno – em um filme esportivo ping-pong-esquisito dos Safdie – é a cara da temporada: pop, autoral e competitivo ao mesmo tempo.

Em atriz de comédia/musical, o cenário é ainda mais simbólico: Cynthia Erivo desponta como favorita absoluta por Wicked: For Good, retomando Elphaba, numa campanha que é ao mesmo tempo teatral, cinematográfica e pop. Ao lado dela, surgem Rose Byrne (If I Had Legs I’d Kick You), que ganhou em Berlim, Kate Hudson (Song Sung Blue), Chase Infiniti (One Battle After Another), Amanda Seyfried (The Testament of Ann Lee) e Emma Stone (Bugonia). Na linha de alternates, nomes como Pamela Anderson (The Naked Gun) e Olivia Colman (The Roses) ainda rondam o quadro, prontos para invadir a conversa.

Nos coadjuvantes, o recado é parecido: Ariana Grande aparece como favorita em atriz coadjuvante por Wicked: For Good, enquanto Gwyneth Paltrow (Marty Supreme) e Teyana Taylor (One Battle After Another) completam o trio que mais chama atenção nesse momento.

Em ator coadjuvante, Stellan Skarsgård surge como o nome a ser batido por Sentimental Value, ladeado por Jacob Elordi (Frankenstein), Paul Mescal (Hamnet), Adam Sandler (Jay Kelly), Benicio Del Toro e *Sean Penn (One Battle After Another).

Ou seja: se alguém ainda achava que comédia/musical era o “quintal leve” dos Globes, 2026 veio para enterrar essa ideia.

Drama ainda é rei – mas com um mapa mais definido

Dito isso, o campo de drama continua sendo o território do prestígio clássico. A previsão de melhor filme de drama hoje está assim:

Frankenstein (Netflix)

Hamnet (Focus Features) – previsto como vencedor

It Was Just an Accident (Neon)

The Secret Agent (Neon)

Sentimental Value (Neon)

Sinners (Warner Bros.)

Muito do que a gente já vinha intuindo se confirma aqui:

– Hamnet como grande “dramalhão de prestígio” da temporada,
– Sinners como drama potente de estúdio,
– Sentimental Value como queridinho europeu,
– Frankenstein como monstro (com trocadilho) da Netflix,
– e The Secret Agent cravado no mapa como peça-chave, tanto em drama quanto em filme internacional.

Nas atuações, o desenho também é bem claro.

Em ator de drama, a previsão traz:

Joel Edgerton (Train Dreams)

Colin Farrell (Ballad of a Small Player)

Oscar Isaac (Frankenstein)

Dwayne Johnson (The Smashing Machine)

Michael B. Jordan (Sinners)

Wagner Moura, The Secret Agent – PREVISTO COMO VENCEDOR

Sim: nas projeções da Variety, Wagner está hoje à frente de Michael B. Jordan, Oscar Isaac e cia. Isso sozinho já seria enorme. Some a isso o fato de The Secret Agent também aparecer entre os prováveis indicados a melhor filme de drama e melhor filme em língua não inglesa e temos uma narrativa pronta: depois de Fernanda Torres, Wagner consolida o momento latino – e brasileiro – na temporada.

Em atriz de drama, o nome que domina é Jessie Buckley, favorita por Hamnet. A lista ainda traz Laura Dern (Is This Thing On?), Jennifer Lawrence (Die My Love), Renate Reinsve (Sentimental Value), Sydney Sweeney (Christy) e Tessa Thompson (Hedda). Buckley entra na temporada com aquele rótulo ingrato e poderosíssimo de “locked and loaded contender”: todo mundo já escreve o nome dela a lápis forte.

No bastidor da direção, um padrão: Paul Thomas Anderson aparece como favorito em melhor direção por One Battle After Another, à frente de Park Chan-wook (No Other Choice), *Ryan Coogler (Sinners), *Mona Fastvold (The Testament of Ann Lee), *Joachim Trier (Sentimental Value) e Chloé Zhao (Hamnet). Ou seja: drama e comédia/musical se encontram aqui – o filme “cômico” de PTA é tratado com a mesma reverência dos dramas pesados.
Em roteiro, o favoritismo pende para Ryan Coogler, por Sinners, com Hamnet, One Battle After Another, The Secret Agent, Sentimental Value e Train Dreams completando o quadro. Train Dreams, aliás, aparece tanto em roteiro quanto em ator (Joel Edgerton) e entre os alternates de filme – um sinal claro de que pode ser aquele “slow burn” da temporada.

Nos blocos mais técnicos:

– em trilha sonora, o favorito é Ludwig Göransson por Sinners, com Desplat (Frankenstein), Max Richter (Hamnet), Hildur Guðnadóttir (Hedda) e *Jonny Greenwood (One Battle After Another) compondo uma categoria que parece lineup de festival de compositores;

– em canção original, a aposta principal é “Golden”, de KPop Demon Hunters;

– em animação, Zootopia 2 lidera;

– e em Cinematic and Box Office Achievement, Sinners aparece de novo como favorito, disputando espaço com Avatar: Fire and Ash, F1, KPop Demon Hunters, Superman, Weapons e Wicked: For Good.

E na TV? O que os viciados em premiação estão apostando

Considero 2026 como um dos anos mais competitivos para TV. As apostas para séries de comédia estão assim:

Abbott Elementary (ABC)

The Bear (FX on Hulu)

Hacks (Max)

Only Murders in the Building (Hulu)

Shrinking (Apple TV+)

The Studio (Apple TV+)

Alt: Wednesday (Netflix)

Ou seja: a leitura é de que o Globo deve “copiar e colar” muito do Emmy, com The Bear, Abbott e Hacks no centro, mas deixando espaço para Only Murders, Shrinking e a novata The Studio. Wednesday aparece como aquela alternativa de popularidade que pode furar bolha. E The Studio deve sair vencedora.

Entre os atores de comédia, o mesmo painel aponta:

Adam Brody – Nobody Wants This

Steve Martin – Only Murders in the Building

Seth Rogen – The Studio

Jason Segel – Shrinking

Martin Short – Only Murders in the Building

Jeremy Allen White – The Bear
Alt: Tim Robinson – The Chair Company

Na prática, isso significa:
– Jeremy Allen White continua fortíssimo por The Bear, que a dobradinha Steve Martin / Martin Short segue firme por Only Murders, e nomes como Jason Segel e Seth Rogen podem ser “novidade simpática” para o Globo abraçar.

Em atriz de comédia, o desenho é:

Kristen Bell – Nobody Wants This

Quinta Brunson – Abbott Elementary

Ayo Edebiri – The Bear

Selena Gomez – Only Murders in the Building

Jenna Ortega – Wednesday

Jean Smart – Hacks

Alt: Rachel Sennott – I Love LA

Aqui, a disputa é linda no papel:
– Quinta Brunson como rosto da comédia em rede aberta,
– Jean Smart como força veterana incontestável,
– Ayo Edebiri como fenômeno da nova geração,
– Selena Gomez e Jenna Ortega representando o poder do streaming jovem.

Qualquer combinação de cinco nomes disso rende uma categoria fortíssima.

Em drama, as apostas para melhor série estão assim:

The Last of Us (HBO)

The Morning Show (Apple TV+)

The Pitt (Max)

Severance (Apple TV+)

Slow Horses (Apple TV+)

The White Lotus (HBO)

Alt: Wycaro (Apple TV+)

Ou seja: o Globo tende a se dividir entre os “eventos premium” da HBO (The Last of Us, The White Lotus), o prestígio corporativo de The Morning Show e a estranheza elegante de Severance. Slow Horses e The Pitt completam essa cara de “drama adulto de plataforma”.

Nos atores de drama, o quadro sugerido é:

Sterling K. Brown – Paradise

Tom Hiddleston – The Night Manager

Gary Oldman – Slow Horses

Pedro Pascal – The Last of Us

Adam Scott – Severance

Noah Wyle – The Pitt
Alt: Jon Hamm – Your Friends and Neighbours

Nas atrizes de drama:

Kathy Bates – Matlock

Carrie Coon – The Gilded Age

Britt Lower – Severance

Bella Ramsey – The Last of Us

Keri Russell – The Diplomat

Rhea Seehorn – Wycaro

Alt: Michelle Pfeiffer – The Madison

Em minissérie ou filme para TV, as apostas iniciais incluem:

Adolescence (Netflix)

All Her Fault (Peacock)

Death by Lightning (Netflix)

Dying for Sex (FX)

Monster: The Original Monster (Netflix)

Com um elenco de protagonistas que passa por Robert De Niro, Stephen Graham, Charlie Hunnam, Matthew Macfadyen, Mark Ruffalo, Michael Shannon, Sarah Snook, Michelle Williams, Renée Zellweger, entre outros. É a categoria onde o Globo tradicionalmente gosta de fazer “gesto”: premiar uma atuação muito intensa, muito transformadora, que vire manchete no dia seguinte.

Agora é esperar o dia 8 para ver o quanto essas previsões viram realidade – e o quanto o Globo vai fazer o que mais sabe: nos deixar irritados, empolgados e, principalmente, falando sobre isso por semanas.

ENTREVISTA COM BIANCA

"A fauna pantaneira é a base musical das nove composições de 'Pantanal Jam'"

Cantora Bianca Bacha, da Urbem, fala como a paisagem natural de Miranda afetou o processo de criação e gravação do segundo álbum da banda, sobre a diferença entre o canto com letra e as vocalizações que são a sua marca e anuncia projetos nos EUA e Espanha

15/12/2025 11h00

A cantora Bianca Bacha se prepara para mais uma gravação na Fazenda Caiman, em Miranda, em junho deste ano

A cantora Bianca Bacha se prepara para mais uma gravação na Fazenda Caiman, em Miranda, em junho deste ano Divulgação / Alexis Prappas

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ENTREVISTA COM BIANCA

Recuperando para o leitor: como se deu a oportunidade do encontro e da parceria com o Ryan para o projeto do álbum “Pantanal Jam”?

Conhecemos Ryan Keberle no Campo Grande Jazz Festival [em março de 2024] e com ele tivemos uma troca musical instantânea. Tocamos juntos em um show no Sesc [Teatro Prosa] em setembro de 2024 e, a partir de lá, tivemos a certeza de que ainda faríamos muita música juntos.

No Pantanal, onde Ryan esteve pela primeira vez durante as gravações, ficou nítido que ele conseguiu transpassar para o repertório o encantamento que ele estava vivendo em meio a toda aquela natureza.

É o segundo disco, nove anos depois de “Living Room”. O que “Pantanal Jam” representa para a Urbem?

Este projeto é o nosso território sonoro: onde a música que criamos se entrelaça à natureza que nos guia em forma de jam. Na música, uma jam significa um encontro musical sem aviso prévio, as coisas vão acontecer ali na hora, portanto, o inesperado é bem-vindo e, com ele, você improvisa.

Qual seria o conceito geral do álbum?

O conceito do álbum nasce da escuta profunda da fauna pantaneira. Os cantos dos pássaros, o esturro da onça e os sons das águas e dos ventos não são efeitos nem pano de fundo: são a base musical das nove composições. A natureza atua como um músico a mais na banda de jazz, dialogando conosco em frases de pergunta e resposta.

Sandro Moreno registrou esses sons in loco, mergulhando no Pantanal para captá-los com precisão. Depois, analisou esse vasto material para identificar melodias, ritmos e motivos que se tornariam a essência das composições.

E, para fechar o ciclo, o álbum também foi gravado no coração do Pantanal. Com geradores a gasolina e um estúdio móvel, nós, a Urbem e o trombonista Ryan Keberle, levamos a música para o ambiente que a inspirou. E ali criamos, novamente in loco, em plena natureza selvagem.

Que tipo de referências buscaram para os arranjos, as sonoridades e as texturas?

Toda a referência e textura do álbum “Pantanal Jam” nascem dos próprios sons do Pantanal. A imersão no território e a escuta atenta transformaram cantos de pássaros, esturros, movimentos da água e vozes da mata em matéria-prima musical.

Cada faixa traduz essa convivência direta com a fauna e seus ritmos naturais, convertendo sons de bichos em música. Viva, orgânica e profundamente enraizada na paisagem pantaneira.

Isso está bastante perceptível. Os sons e toda a atmosfera do Pantanal atravessam o mood e talvez a própria concepção dos temas. Pode comentar um pouco mais sobre essa presença de elementos da natureza – e dessa natureza tão singular de MS – na criação de vocês?

A fauna, a luz, o silêncio amplo, os ventos, os cantos e até os vazios típicos da paisagem pantaneira influenciam diretamente a forma como criamos. É como se o ambiente nos orientasse musicalmente: às vezes guiando uma melodia, às vezes sugerindo um pulso, às vezes impondo uma pausa.

Esse encontro com a natureza não é decorativo, é estrutural. Ela atravessa tudo, o gesto musical, o espírito do disco e a maneira como a banda se relaciona com o som.

No “Pantanal Jam”, a paisagem não é cenário: é presença, é voz, é parceria criativa. É música.

A cantora Bianca Bacha se prepara para mais uma gravação na Fazenda Caiman, em Miranda, em junho deste anoFoto: Divulgação / Alexis Prappas

Onde exatamente estiveram e gravaram? E quando foi?

As gravações foram feitas na Fazenda Caiman, em junho deste ano, num cenário que não poderia ser mais inspirador. Foram escolhidas pela produtora três locações diferentes, e para cada uma delas, três músicas.

A cantora Bianca Bacha se prepara para mais uma gravação na Fazenda Caiman, em Miranda, em junho deste anoFoto: Divulgação / Alexis Prappas

Com uma equipe ultraprofissional que trouxe segurança e leveza para uma gravação ao vivo numa condição completamente inusitada.

E quanto ao repertório? Como chegaram às nove canções do disco?

Entre as composições, temos duas músicas do Paulo Calasans [“Swingue Verdejante” e “Suspiro da Terra”], um dos maiores produtores, arranjadores e instrumentistas do País, além de duas canções do Ryan Keberle junto com Sandro Moreno [“Paisagem Invertida” e “Entre Folhas”] e cinco composições nossas [“Espiral”, “Pluma”, “Voo Curvo”, “Barro” e “Canção do Ninho”].

Penso que o Pantanal é experimentado de um jeito bem particular por cada pessoa. Como é para você? Como aquele ambiente lhe toca e eventualmente interfere no seu jeito de cantar?

Tudo ali era extremamente inspirador. Dormir e acordar naquele lugar por alguns dias já me fazia até respirar de jeito diferente, com menos pressão e mais imersão.

Isso com certeza influenciou no jeito de cantar. Porém, o mais impressionante era saber que estava gravando um disco com toda aquela fauna ao redor, um jacaré no lago ao lado e uma onça a alguns quilômetros.

Embora domine há duas décadas o canto com letra e muitas vezes cante dessa forma em apresentações ao vivo, na Urbem, você investe sempre nos vocalizes e scats.

Todas as músicas do álbum “Pantanal Jam” usam a voz como instrumento, ou seja, não há letras nas músicas. Além de ser uma característica jazzística, esse estilo de canto se aproxima mais do cantar dos pássaros, a busca por seus fonemas e emissões.

Cada música exige uma altura e um escolher apropriado de sílabas que encaixem com a afinação e a expressão.

Adoro o canto com letras. Ali você tem palavras, interpreta, coloca ênfases. É até uma emissão de voz diferente. Só que comecei a me encantar com o mundo do jazz e toda essa coisa do canto que não usa palavras, o vocalize. E comecei a ouvir cantoras que cantam assim.

Tatiana Parra [cantora, compositora e professora paulistana] canta assim, nossa, de um jeito maravilhoso. A [portuguesa] Sara Serpa também. Tem também as divas mais antigas que faziam mais questão de improviso, o scat singing.

O canto sem palavra é muito desafiador porque ele é mais cru, mostra mais imperfeições de respiração, de emissão, de escolha de sílabas. E é muito improvisado. Porque a cada dia você pode usar uma sílaba diferente, pode caracterizar de uma outra forma.

Num dia vou fazer “u”, no outro dia posso fazer “a”, no outro posso fazer “e”. E você tem que descobrir ali, numa forma você com o seu corpo. E além de ter o desafio de você demonstrar o interpretar com emoção sem ter palavras.

Então é muito jazz [risos]. E acho muito bonito. Sempre vai ser um desafio. Sou com o meu corpo, com as palavras que eu escolho, que nem sempre são pensadas.

Claro que tem uma questão técnica de que o “i” você vai mais para um agudo, no “u” também; nos graves, você vai para outras escolhas, as consoantes também interferem. Gosto muito de passear pelas duas áreas. Tanto a área da interpretação com letra quanto a área dos vocalizes e texturas.

E Nova York? Pode contar um pouco sobre a recente temporada de vocês por lá?

O “Pantanal Jam” foi lançado em novembro deste ano com um show memorável em Nova York, durante a feira internacional de turismo Visit Brazil Gallery [na Detour Gallery], e a recepção foi extraordinária.

Pessoas do mundo inteiro, agentes de turismo, diretores da National Geographic, fotógrafos de natureza e profissionais de diversas áreas assistiram ao show com atenção absoluta.

Desde a primeira música, compreenderam nossa proposta e permaneceram maravilhados até o fim. Foi um momento histórico para Mato Grosso do Sul e para a arte sul-mato-grossense.

Esse resultado só foi possível graças ao apoio total da Fundtur e do seu diretor-presidente, Bruno Wendling, que acreditou no projeto desde o início e se comprometeu a nos apoiar tanto nas etapas de captação no Pantanal quanto no lançamento em Nova York. Além disso, segue impulsionando a campanha contínua de apresentar o “Pantanal Jam” ao mundo.

E faz sentido: ouvir o Pantanal desperta o desejo de visitá-lo, conhecê-lo e preservá-lo. O projeto reúne arte, natureza, conservação, turismo e toda a beleza única do nosso bioma, uma combinação que emociona e conecta o público global ao coração do Pantanal.

Além do álbum que já está lançado em todas as plataformas, temos uma série de vídeos das nove músicas e um minidocumentário.

Quando teremos shows da Urbem? Quais os próximos passos e projetos da banda?

A Urbem se sente profundamente entusiasmada em seguir os passos de Manoel de Barros, da família Espíndola, de Guilherme Rondon, Paulo Simões, Grupo Acaba, Geraldo Roca e tantos artistas que sempre beberam dessa fonte primária que é o Pantanal, transformando-a em arte para o mundo.

Recentemente, pesquisadores de Harvard e professores da UFMS colheram sons do Pantanal [pelo projeto Pantanal Sounds, que conta, entre outros, com nomes como o do violoncelista e professor William Teixeira], e esse movimento nos inspirou a ir a campo gravar os sons pantaneiros e a fazer composições dentro da nossa linguagem jazzística, incorporando esses registros naturais ao nosso modo de compor e evidenciando em música as belezas pantaneiras.

Temos planos de retornar aos Estados Unidos em breve e estamos em diálogo com a Embaixada do Brasil em Barcelona, onde palestraremos em março.

Além disso, a Urbem participará do Campo Grande Jazz Festival de Rua, no dia 21 de dezembro [neste domingo], em uma jam session com músicos locais e de São Paulo.

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MÚSICA

Entre onças e tuiuiús, o jazz

Em parceria com o trombonista Ryan Keberle, com nove composições inspiradas na exuberância do Pantanal, URBEM lança segundo álbum; 2º Campo Grande Jazz Festival celebra o gênero na Capital, com apresentações gratuitas

15/12/2025 10h00

A partir da esquerda, Bianca Bacha, Ana Ferreira, Ryan Keberle, Gabriel Basso e Sandro Moreno

A partir da esquerda, Bianca Bacha, Ana Ferreira, Ryan Keberle, Gabriel Basso e Sandro Moreno Divulgação / Alexis Prappas

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Sem dar muitos detalhes, o baterista Sandro Moreno, quando conversou comigo, em junho, sobre o álbum que a Urbem gravaria com Ryan Keberle, adiantou que o projeto seria “algo muito especial”.

Após o show – memorável, diga-se – que fizeram juntos no Teatro do Mundo, o quarteto campo-grandense – além de Sandro, Bianca Bacha (vocais), Ana Ferreira (piano), Gabriel Basso (contrabaixo) – e o trombonista norte-americano foram para a zona rural de Miranda e se instalaram na Fazenda Caiman.

Foi lá que a magia aconteceu. Na estrada desde 2013 e com apenas um álbum lançado até então, “Living Room” (2016), a banda disponibilizou “Pantanal Jam” no Spotify no dia 29 de outubro, três dias antes do show que realizaria em Nova York, em um evento na Detour Gallery que uniu arte, gastronomia e turismo para promover o Pantanal.

São nove faixas criadas e gravadas com extremo apuro e sensibilidade, que alcançam os músicos da Urbem e Ryan num ponto bem elevado de suas capacidades.

Os temas soam como se os cinco artistas tivessem se deixado abraçar pela contagiante pregnância da natureza de Miranda, e Bianca Bacha confirma isso em entrevista exclusiva.

Melodias, pulsações e andamentos foram se definindo conforme eles mergulhavam em tudo que viam, ouviam e sentiam por ali: ventos, o canto das aves, “o esturro da onça”, como Bianca relata. Ouvindo os sons naturais, captados previamente por Sandro, que assina a produção musical do projeto, cada um estabeleceu sua conversa criativa com o Pantanal.

O registro dos sons naturais – de aves, por exemplo — introduz, se mescla ou faz a ponte para uma execução instrumental (voz inclusa) coesa e deveras inspirada, que não força a barra para sorver e devolver, em forma de música, a fartura que o habitat de Miranda oferece.

“Suspiro da Terra”, doce e pulsante, e “Paisagem Invertida”, essa mais selvagem e misteriosa, são uma prova disso.

Ryan pontua, preenche ou arremata sempre com uma precisão e desprendimento envolventes. Ana, como se ouve em “Espiral”, migra da base para os solos numa transparência que comove. Gabriel – em “Canção do Ninho”, por exemplo, que começa e segue na cama dos gomos que vai colhendo ao longo do tema – parece deter a justa medida para o desempenho de seu baixo.

"Foi uma grande honra participar da criação do ‘Pantanal Jam’. Os sons da Pantanal, do modo como Sandro captou, tiveram um papel direto no processo de composição das duas músicas que fiz para o álbum.

A partir da esquerda, Bianca Bacha, Ana Ferreira, Ryan Keberle, Gabriel Basso e Sandro MorenoRyan Keberle, trombonista - Foto: Divulgação / Alexis Prappas

O tom e os ritmos dos sons naturais do Pantanal, inspirados por ideias musicais e paisagens sonoras próprias, criaram um clima que eu tentei capturar nas minhas composições. Quando nós gravamos, literalmente no meio de um dos lugares mais selvagens e remotos do mundo, a beleza e a energia natural nos inspirou a ouvir a natureza e um ao outro mais profundamente, o que resultou numa performance musical que demonstra uma profunda comunicação musical.

Adoro os músicos e a música da Urbem. E, desde que tocamos juntos em diversas ocasiões anteriores, eu compus as minhas músicas especificamente com o talento e a habilidade musical especial deles em mente” - Ryan Keberle, trombonista.

Sandro é um laboratório inquieto, dos pedais aos pratos de condução. E Bianca conduz os vocais numa têmpera e numa fruição que se articula como síntese do conjunto.

Comparações e referências são uma tentação no mundo do jazz. Mas a qualquer palpite sobre “Pantanal Jam”, é melhor calar e ouvir. É um álbum estimulante para esse silêncio de dentro, que nos faculta as melhores emoções da escuta e da experiência musical.

Brazilian jazz? Jazz? Ouça. Música apenas. E quanta música! Embrenhada e revelada nos refúgios de um lugar mágico, onde a natureza se recobra e o espírito se fortalece.

A Urbem lança “Pantanal Jam” hoje, às 18h, no Centro de Convenções Arquiteto Rubens Gil de Camillo. Apareça.

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