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COVID-19

Com pandemia, cresce interesse em partos domiciliares

Risco de contaminação pelo novo coronavírus e isolamento social fazem surgir interesse por nascimentos dentro de casa
15/04/2020 07:00 - Naiane Mesquita


 

Em meio as incertezas que a pandemia do novo coronavírus traz para o mundo, para as mulheres grávidas a insegurança é ainda maior. Além do óbvio risco de contaminação, muitos hospitais estão com restrição de entrada para visitantes, e os casos de morte entre recém-paridas liga o alerta vermelho em relação a saúde da mãe e do bebê.  

Nesse cenário pouco convidativo, algumas gestantes estão procurando informações sobre partos domiciliares, que apesar de permitidos, ainda não são incentivados com frequência por equipes médicas.

Parteira há 15 anos, Caroline Abreu Figueiró, explica que a procura por informações aumentou, mas cercada de dúvidas e inseguranças. “Estamos com muita procura, mas cheia de insegurança por parte das pessoas. Como parteira há alguns anos eu percebo um movimento natural crescente pela procura do parto domiciliar, mas vem a passos lentos, conforme a demanda de consciência das pessoas”, explica Caroline, que é proprietária do I’memby, um espaço de acolhimento para mães e gestantes da Capital.

É importante ressaltar que de acordo com o Conselho de Medicina, os partos domiciliares não podem ser acompanhados por médicos. Quem decide ter um bebê precisa contar com o auxílio de uma equipe multidisciplinar e isso gera muita insegurança em quem cogita a experiência. “Quando a gente fala de parteira, as pessoas já ficam um pouco mais inseguras. É uma zona de desafio porque vem do desconhecido. A questão do risco de contaminação pela Covid-19 vem como convite para um mergulho interno, já que muitos se perderam desse caminho. A parteira nunca deixou de existir, as pessoas que deixaram de se conectar com o sagrado”, acredita.  

Para manter a segurança de quem opta pelo parto domiciliar, Caroline explica que todas as doulas que formam a equipe do I’memby estão em isolamento. “Estamos seguindo todas as normas do Ministério da Saúde em quarentena. Apenas doulas em isolamento estão participando dos partos, as que não podem fazer o isolamento não estão acompanhando”, explica.  

Quem optou pelo parto domiciliar defende a prática. A terapeuta holística, Mariana Simões, 24 anos, pariu o filho mais novo em casa e o mais velho no hospital. “Eu tenho um filho de seis anos, foi um parto no hospital, mas foi da maneira mais natural possível, sem analgesia, nada. Não tenho do que reclamar”, explica.  

Porém, para o nascimento de Ravi, que ocorreu em 24 de fevereiro, Mariana sentiu que o parto deveria acontecer em casa e assim o fez. “Na época o surto de coronavírus não estava sendo tão divulgado aqui”, conta.

Com 41 semanas e 3.930kg, Ravi nasceu, na cama do quarto de Mariana, com a presença da família. “Foi um parto muito rapído, menos de 4  horas, talvez eu nem iria conseguir chegar no hospital, poderia ter tido no carro como já aconteceu com algumas pessoas”, relembra. 

 
 

Custo

Apesar de parecer mais seguro por conta do risco de contaminação, o parto domiciliar ainda não é acessível a todas as gestantes. Os custos em relação ao acompanhamento de uma equipe formada por parteiras ou enfermeiras obstétricas podem variar de R$ 4 mil a R$ 8 mil.  

Doula há 16 anos, Tatiana Marinho, explica que os custos financeiros interferem muito na escolha da gestante. Por enquanto, a profissional ressalta que não teve nenhuma mudança de partos do ambiente hospitalar para a residência.  

Para ela, por enquanto, tanto doulas quanto gestantes devem se informar em sites confiáveis e seguir as recomendações do Ministério da Saúde. “Neste momento, ressalto a importância de se informar através de sites confiáveis, tudo ainda é muito novo, não há dados em relação a contaminação para gestantes, o que é risco e o que não é. Estamos orientando com as mesmas informações disponíveis para todo mundo”, explica.

Uma alternativa, segundo Tatiana, é reduzir o tempo de exposição no hospital. “O ideal é aguardar em casa até que a hora do parto realmente esteja próxima, com avaliações constantes. Isso reduz o tempo que a gestante fica no ambiente hospitalar. Outro ponto é evitar as cirurgias desnecessárias, evitar ao máximo uma cesariana, por exemplo”, acredita.  

Tatiana estava sem partos previstos para esse período e por isso não tem ido aos hospitais. “Não tive partos entre o final de abril e começo de maio porque eu iria acompanhar um parto fora da cidade. Por conta do coronavírus não pude viajar. Estou evitando ao máximo de sair de casa, só fui atender uma mãe por conta da amamentação e auxiliar em um parto para uma colega. Uso máscara sempre e em casa meu marido ficou o responsável por sair quando necessário, como ir ao mercado”, ressalta.  

Planos

Grávida do primeiro filho, a atriz Angela Montealvão optou pelo parto domiciliar com acompanhamento de uma parteira antes mesmo da pandemia do novo coronavírus. “Na verdade foi uma coincidência. Eu já pensava no parto domiciliar por outras questões, pela questão da humanização, da escolha do parto, por ser o mais natural possível”, explica.  

No último trimestre de gestação de Inácio, que deve nascer a partir do final do mês de julho, Angela  notou que a principal mudança que a pandemia trouxe foi a compreensão do lar como um local seguro. “Alguns familiares, quando eu falava que iria ter o bebê em casa, com parteira ainda, demonstravam muita preocupação. Agora com a pandemia, eles compreenderam que a casa é um local seguro para a mãe e a criança. Isso veio a esclarecer isso, ter um vírus circulando no sistema de saúde fez eles perceberem essa questão”, ressalta.  

No entanto, Angela sabe que o processo não é acessível para todas as mães. “É um pouco angustiante estar grávida nesse período, fico confortada pela minha escolha e triste por ver outras mãezinhas que não tem acesso ao parto domiciliar e com os relatos de gestantes que não tiveram direito nem ao acompanhante na maternidade por causa do risco de contágio”, frisa.  

Felpuda


É quase certo que a aposentadoria deverá ocorrer de maneira mais rápida do que se pensava em determinado órgão. O que deveria ser a tal ordem natural dos fatos acabou sendo atropelada por acontecimentos considerados danosos para a imagem da instituição. Os dias estão passando, o cerco apertando e já é praticamente unanimidade de que a cadeira terá de ter substituto. Mas, pelo que se ouve, a escolha não deverá ser com flores e bombons de grife.