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LITERATURA

Conheça a escritora que viaja todo o Mato Grosso do Sul para divulgar cordel

Do sertão da Paraíba até Dourados, folhetos da tradição cultural nordestina marcam a vida e a arte da escritora Aurineide Alencar
13/01/2022 09:30 - Marcos Pierry


“Pra todo canto que olho/Vejo um verso se bulindo”. A inspiração febril, ingênua e onipresente de Patativa do Assaré (1909-2002), ícone maior da literatura de cordel, funciona como uma síntese da vida e da arte da escritora Aurineide Alencar.  

Nascida em Catolé do Rocha, no sertão da Paraíba, a 400 quilômetros da capital João Pessoa (PB), a autora se mudou com a família para Dourados há quase 40 anos e, sem nunca se afastar do cordel, tornou-se uma grande representante das tradicionais rimas nordestinas em Mato Grosso do Sul.

Antes mesmo de frequentar a escola em sua cidade natal, Aurineide se alfabetizou, praticamente por conta própria, com a ajuda dos folhetos que costumavam trazer uma xilogravura na capa. E fez dessa experiência o seu diferencial como professora.  

Trinta anos depois, já aposentada e com dezenas de folhetos de sua própria autoria publicados, ela transformou seu ousado projeto educativo e literário em um sonho sobre rodas. 

Adaptou uma Kombi para dar vida à Cordelteca Itinerante, com a qual tem circulado para propagar uma arte que nasceu, e em grande parte ainda se mantém, nas mãos e mentes masculinas.

MUNDO DOS  REPENTISTAS

A chegada no Estado, em agosto de 1983, foi por Deodápolis (MS), com os pais, os irmãos e a família de uma tia. Tempos depois, começou a estudar Letras em Dourados, graduou-se e passou a dar aulas. 

“Vivi em Catolé do Rocha até os 18 anos. Essas duas famílias vieram em busca de melhorias, já que nessa época a vida no sertão era muito difícil, principalmente em família numerosa. O cordel faz parte da minha vida desde que eu nasci, pois naquela região até os dias de hoje usa-se muito o sistema de cantorias, existem festivais de repentistas. Tanto que em quase toda família tem um metido a ser cantador, violeiro, essas coisas”, conta Aurineide.

As cantorias de viola dos repentistas fazem da literatura de cordel uma expressão não somente escrita, mas também oral. 

Mesmo sem a catimba dos trovadores e dos violeiros nordestinos, os fãs dos folhetos se acostumam, desde a infância, a ouvir e a declamar o conteúdo dos folhetos. 

O modo de compor as estrofes segue as mesmas regras de rima e metrificação (redondilha maior ou menor) e também, nos dois casos, busca inspiração na temática sertaneja – o cotidiano na roça, o destino de retirante, o choque na cidade grande, etc.

“Quando eu era pequena, meu pai sempre comprava os folhetos para eu ler para ele escutar, já que ele era analfabeto. Com isso, eu fui me apaixonando pelos versos rimados e metrificados do cordel. Aprendi a ler fluentemente ainda criança e já me botava a escrever alguns versos, nessa época era em quadras. Nesse tempo eu nem registrava nada. Costumava dizer que eu criava para o vento”, diverte-se a cordelista de 56 anos em meio às memórias pessoais.