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CRÔNICA

Leia a crônica desta semana escrita por Theresa Hilcar: "Riscos e gatilhos"

As coisas práticas não são nada comparáveis ao estado mental em que boa parte de nós, os chamados “grupo de risco”, estamos sujeitos m tempos pandêmicos
19/09/2020 05:00 - Theresa Hilcar


Nos últimos tempos venho me sentindo meio como Hiroo Onoda, o soldado japonês que se escondeu na selva filipina durante quase três décadas porque não acreditava que a II Guerra Mundial tinha acabado.

Para quem não sabe, ou não se recorda, o oficial da inteligência japonesa foi enviado em dezembro de 1944 à ilha Lubang nas Filipinas. Sua principal missão, descrita em nota pelo Major Yoshimi Taniguchi, era a de manter-se vivo. 

Um trecho da nota, em uma tradução livre, dizia que “Isso pode levar três anos, pode levar cinco, mas aconteça o que acontecer, nós vamos voltar até você”.  

Em sua biografia consta que somente com a visita do seu antigo comandante, em 1974, é que Onoda finalmente pode colocar um fim na sua luta pessoal. 

Depois de sua rendição, ao invés de voltar ao Japão, o ex-soldado veio para o Brasil, mais especificamente para Terenos onde se transformou um fazendeiro de gado na colônia agrícola.

Embora não estejamos numa guerra sangrenta, mas sim numa batalha, a analogia com a saga daquele soldado tem razão na incredulidade que sinto diante de milhões de brasileiros, que se comportam como se a luta estive acabada. Vivem como se o inimigo já tivesse partido para longe.

Não sei se cansados da quarentena, ou por negacionismo ideológico, percebo que as pessoas em geral decretaram certa normalidade. Andam sorrindo nas ruas, viajam, vão às compras aos bares e restaurantes como se tudo estivesse absolutamente normal.

Tudo isto, não obstante as notícias oficiais que relatam o alto contágio (em MS, principalmente), tampouco a fala desta semana da OMS (Organização Mundial de Saúde) declarando que não, não estamos nem no meio da Pandemia.

Em meus devaneios de rotina, chego a imaginar que apenas eu e o humorista Gregório Duvivier ainda estamos guardados em isolamento. Ele lá no Rio de Janeiro, lavando saco de feijão, cuidando da filha e gravando o programa Greg News em casa, com a ajuda da família. 

Enquanto eu aqui em home office, continuo higienizando tudo que entra em casa. De gato a sapato. Será isto uma síndrome de Onoda?  

Depois de seis meses em confinamento deste ano covídico e sem precedentes, bate a paranoica. A bem da verdade, um pouquinho mais do que o normal. Há momentos em que paro em frente a pia da cozinha e não sei mais se já lavei os legumes e verduras que chegaram do mercado. 

Tenho dúvidas se é melhor secar as mãos na toalha de papel ou de pano. Se as compras devem fazer quarentena na área de serviço ou basta a higienização. Volta e meia me pego assim impotente com as coisas que não vejo e com as coisas com as quais tenho que lidar.  

Mas as coisas práticas não são nada comparáveis ao estado mental em que boa parte de nós, os chamados “grupo de risco”, estamos sujeitos – melhor dizer, estamos abandonados? 

Os dias para nós passam como uma gangorra. Ou uma roda gigante. E há momentos em que o tempo congela nos deixando a sensação de estar em suspenso.  

Tudo isto, mais a insegurança gerada pela bagunça institucional do País, a tristeza compartilhada diante das perdas humanas, de amigos, da natureza, bate lá bem no fundo da gente. Não há como ser diferente.

Neste mês de setembro, em que as atenções se voltam exatamente para esta parte tão sensível da nossa anatomia, o cérebro, é bom lembrar que nossos sentimentos, emoções, medos, alegrias e até nossa resiliência dependem dele. E da nossa mente. 

Não por acaso tenho visto multiplicarem-se pedidos de orações, em terços online, pela depressão de algum familiar ou de si mesmo (a). Eu, que conheço tão bem a face escura desta lua, rezo por todos eles e me compadeço.

Nas horas boas vislumbro uma ínfima luz. E peço, imploro mesmo, para que ao contrário do soldado japonês, eu não me perca na mata embrenhada de memórias e passe a depender de alguma espécie de resgate. 

Melhor pensar na foto emblemática, e famosa, do soldado que beija uma moça desconhecida na Champs-Elysées em Paris, comemorando o fim da segunda guerra. O beijo eu até dispensaria, mas a capital francesa é um cenário irresistível. Que seja luz!

Felpuda


Mesmo sem ter, até onde se sabe, combinado com o eleitor, candidato a prefeito começou a apresentar nomes do seu ainda hipotético secretariado, pois parece estar convicto de que conseguirá vencer a disputa.

Os adversários dizem por aí que ele está muito distante de “ser um Jair Bolsonaro”, que, ainda na campanha eleitoral para presidente da República, já falava em Paulo Guedes para ser seu ministro de Economia. Como sonhar é permitido