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CRÔNICA

Leia a crônica deste sábado da jornalista Theresa Hilcar, 20 de fevereiro de 2021

Filme nos mostra a triste realidade de milhares de crianças africanas
20/02/2021 00:00 - Theresa Hilcar


Duas máscaras e um suporte (plástico) para facilitar a respiração. E assim saio de casa numa segunda-feira, que seria carnaval (felizmente não foi) para o exame de ressonância magnética, pedido pelo doutor.

Vou a pé, na falta de carona amiga. Estou evitando usar aplicativo há meses. Tem quem considere paranoia. Prefiro pensar em precaução. Escolho trajeto mais arborizado e tranquilo para cruzar as doze quadras do meu apartamento no centro até a clínica. Logo no primeiro quarteirão sou obrigada a me desviar do caminho. Tudo por conta de uma incauta sem máscara. E encontro dezenas delas.

Na tentativa de evitar a proximidade, ando numa espécie de ziguezague até o consultório. Tento sair do caminho daqueles que ainda não se deram conta do risco, tampouco respeitam o próximo. Enfim, sigamos. Com minha pontualidade britânica chego meia hora antes e o exame atrasa uma hora. A sala com ar condicionada e sem janelas me deixa aflita.

Na busca por oxigênio vou para perto de um jardim vertical, muito bonito. Mas a alegria durou pouco. O jardim, quem diria? Era fake e não rolou. Finalmente, depois de seis horas em jejum – inclusive de água – escuto meu nome.

Respondo novamente as perguntas já feitas na recepção. Cada palavra tem que ser dita duas ou três vezes por conta das máscaras. E felizmente tenho duas, pois a enfermeira me pede para retirar a de cima – por conta do detalhe em metal. Nada como ser prevenida, penso, aliviada.

Quem já fez ressonância conhece a tortura e aflição de ficar dentro de um tubo, totalmente imóvel e ouvindo sons estranhos. Para não entrar em surto de ansiedade faço uma respiração ritmada e busco novos pensamentos. Foi quando me lembrei de Adú.

Ele é personagens de uma das histórias mais reveladoras que já apareceu na tela da minha TV. Adú é um menino de seis anos obrigado a fugir da sua aldeia, no norte da África, depois de presenciar o assassinato de um elefante e, em seguida, o da mãe.

E não é fácil empreender uma fuga. É preciso atravessas a pé diversos territórios, entrar num avião pelo buraco do trem de pouso, e não bastasse todas as adversidades, ainda passar por outras perdas, resistir ao frio, à fome, e a outras dezenas de injustiças, tudo para chegar à fronteira com a Europa, na esperança de uma vida nova.  

Não vou dar mais spooler. Mas tenho vontade. Acredito que poucas pessoas queiram assistir cenas tão realisticamente tristes. E sim, é preciso ter alguma empatia para acompanhar o filme – em cartaz na Netflix que, aliás, chegou na minha tela por puro acaso. Como se o próprio Baú me escolhesse como espectadora.

Já li diversas histórias, assisti a muitos filmes sobre a barbárie no continente africano, mas nada me preparou para ver Adú e acompanhar a sua saga, a busca por uma vida mais digna. Nada foi tão impactante.  

A cruel jornada de uma criança, literalmente jogada no mundo, é um chute na minha porta. Posso dizer que nem minha experiência na Índia, onde vi a miséria nua e crua nas ruas das cidades, imagens de homens, mulheres e crianças apinhados nas ruas, misturados aos macacos, vacas e podridão, sem casa e sem comida, nem aquele cenário de miséria explícita me tocou tão profunda e verdadeiramente como o drama de Adú.  

Soube então que milhares de crianças, como ele, tentam atravessar as fronteiras todos os dias. Milhares de crianças que não podem viver nos seus países de origem. Seja pela guerra, pela violência ou pela fome. Quantas conseguem não sabemos.

Quantos, como Adú foram expulsos da própria pátria e são ignorados pelo resto do mundo? Ou maltratados, rejeitados? Na minha ignorância e prepotência, houve um tempo em que cheguei a julgar a adoção de crianças africanas por celebridades, inclusive brasileiras, mais como uma forma de marketing do bem.

A história abriu meus olhos para entender a compaixão. Que não é apenas uma palavra bonita. É um sentimento que move pessoas – especiais, a meus ver - a cruzar mares e oceanos para adotar essas crianças. Eles são meus heróis, estão salvando vidas. Não importa que seja apenas uma. É uma vida que se salva. Um ser humano que será poupado de uma existência miserável, senão impossível. Como seria perfeito um mundo onde cada um de nós pudesse fazer o mesmo.

Lembrar das cenas com Adú fez a meia hora que passei no tubo da ressonância parecer um lindo dia de férias numa praia paradisíaca. Não foi só isto. A coragem e resiliência deste personagem nos inspira a ser melhores. Os filmes – como os livros – seguramente nos salvam.