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CRÔNICA

Leia a crônica desta semana escrita por Theresa Hilcar: "As escolhas"

A vida que nos ensina a conviver com as escolhas e os afetos destes novos e estranhos dias
13/09/2020 07:44 - Theresa Hilcar


Eu já estava cansada daquela rotina. Triste mesmo. Ele mal prestava atenção no que eu dizia. Dava para perceber seu incômodo ao ser quase obrigado olhar a tela, assistir alguém falando, tentando interagir de alguma forma. Mas era impossível competir com o desenho na tevê, ou um brinquedinho qualquer. Coisas evidentemente mais sedutoras do que minha voz, meu rosto, meus gestos.

Foi quando decidi que abraçá-lo valeria o risco. Com os devidos cuidados eu poderia recebe-lo. Como única residente de um espaço arejado, higienizado, presumi que nenhum vírus do mundo iria impedir este reencontro.

Ele chegou meio tímido. Ressabiado. Agarrado ao cavalinho de estimação – que ele chama de Tata, ficou olhando as coisas ao redor, percebendo a nova habitante da casa (uma gatinha). Tentava reconhecer não só o ambiente, como a pessoa que há meses ele só via numa tela de celular.

De repente ele olha para mim e dispara: fofo (vovó na tradução literal) e corre para os meus braços. A primeira vez que a gente ouve um filho dizer mamãe é quase natural. Esperamos por isto, insistimos nisto. Sabemos que mais dia menos dia aquele tiquinho de gente vai dizer mamãe.

Mas vovó? Vovó não é uma palavra, é um prêmio, uma loteria inteira, é uma orquestra de anjos celestiais. É Deus dizendo para você: eis aí a sua continuação. O fruto do seu fruto. A consagração da sua existência.

E assim ele continuou me chamando, andando pela casa, entrando nos cômodos, apontando para os objetos que ele gosta, pegando minhas pernas, puxando minha roupa. Foi lembrando aos poucos das coisas que fazíamos juntos. A descrição dos quadros que sempre faço para ele: o boi do Humberto Espíndola, o unicórnio de Salvador Dalí, a moça “peiada” de Botero, as fotos nos porta-retratos, as flores do meu pequeno jardim na sacada.

A emoção de ter meu pequeno de volta, deixou-me em lágrimas durante dias.  Meu primeiro neto, lindo que só. O Luca, de apenas dois anos, cuja comemoração nem pude participar. Mas isto não importa. O que vale são os laços construídos dia a dia. E era exatamente isto que eu estava com muito medo de perder.

E vamos correr o risco de perder. Tenho outros dois cuja convivência mudou completamente. O caçulinha Joaquim, de apenas seis meses, só pude pegar no colo duas ou três vezes. E tem o Theo, de um ano, que interage bem com a tecnologia. É risonho e receptivo. Mas falta o calor de um colo. Claro que falta.

Sei que todas as vovós estão passando por momentos parecidos. É quase uma Escolha de Sophia. Ver ou não ver os netos pequenos? Deixar de acompanhar cada progresso e fingir que mora em outro País? A ligação dos netos com seus avós é uma das coisas mais importantes na formação de vínculos afetivos. Todos sabem disto.

Então como ignorar aquelas criaturinhas que recém chegaram ao mundo? Como viver à margem desta relação amorosa? Impossível. Mas como jornalista que sou, fui checar outras fontes. Outras vovós. Nenhuma delas deixou de ver seus pequenos. Algumas até cuidam deles, já que as creches estão fechadas, por justo motivo – é bom destacar.

Então que venham – um de cada vez para não gerar tumulto. Venham bagunçar o apartamento da vovó, tirar todos os enfeites do lugar, correr atrás da gatinha, rir das minhas caretas, dormir no meu ombro na minha cama. Não podemos prescindir deste afeto, sob pena de adoecermos de saudade e paixão.

PS. O Luca já me chama pelo nome: “fofó Teiessa”. Se alguém conseguir abrir mão deste carinho, pode mandar a receita. 

Felpuda


Depois de se “leiloar” durante meses, e afirmando que estava até escolhendo o município para se candidatar a prefeito, ex-cabeça coroada não só não recebeu acenos amistosos, como também não encontrou portas abertas com tapete vermelho a esperá-lo. 

Assim, deverá pendurar as chuteiras e fazer como cardume em seu pesqueiro: nada, nada...