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A VIDA CONTINUA

Curados da Covid-19 relatam insegurança e sofrem preconceito

"Até hoje, muitas pessoas têm receio, preconceito em chegar perto", relata Reinaldo Mattos, recuperado do coronavírus
25/06/2020 09:00 - Naiane Mesquita


O vírus Sars-CoV-2, mais conhecido como novo coronavírus, transformou o cotidiano de milhares de pessoas nos últimos meses em todo o mundo. Pouco conhecida pelos cientistas, a Covid-19 surpreendeu com uma pandemia e uma corrida por respostas científicas sobre o período de encubação, os sintomas e a transmissão entre seres humanos.  

Enquanto nem todas as respostas são completamente respondidas pela ciência, uma parcela da população foi infectada e precisou lidar com as consequências da presença do vírus durante e após a contaminação.

É o caso do guarda municipal Reinaldo Marques de Mattos, 39 anos, que, internado no mês de abril por causa da Covid-19, demorou a se acostumar com a vida fora do hospital e os olhares desconfiados por onde passava. “Quando você sai do hospital, eles te dão alta como curado de Covid-19, mas, mesmo assim, o médico me aconselhou a permanecer sete dias em isolamento. Por ser um vírus novo, a gente não sabe como ele vai reagir. Conversei com o pessoal do meu serviço e fiquei, no total, 15 dias em casa. Confesso que ainda tenho medo de transmitir para outras pessoas e eu percebia que elas também estavam com medo de mim”, conta Reinaldo.  

Reinaldo é sobrinho da primeira vida levada pelo novo coronavírus em Campo Grande, Dona Pedrosa. A fatalidade que atingiu a família e os dias na UTI transformaram a recuperação do guarda municipal em momentos difíceis. “O maior medo que você tem é de transmitir para outras pessoas”, ressalta. Segundo ele, uma simples ida ao caixa eletrônico era difícil. “Mesmo após sair do hospital, eu continuei usando máscara e álcool em gel. Quando precisei sair, como ir ao caixa eletrônico que só funciona por biometria, eu borrifava tanto álcool em gel que até dava erro na leitura”, conta.

Segundo ele, além do medo de uma possível piora do quadro ou nova contaminação na família, o preconceito também foi um problema. “Até hoje, muitas pessoas têm receio, preconceito em chegar perto. Na época, logo após a saída do hospital, eu me senti muito mal com a desconfiança. Agora a gente meio que releva. Mas sofremos preconceito, sim”, indica.  

Parte da desconfiança, de acordo com o guarda municipal, é pela falta de informação em relação ao vírus. “Por ser um vírus novo, não sabemos as consequências e isso causa medo. Eu mesmo não sei se terei alguma sequela no futuro, se estou mais propenso a ter outras doenças, a ter doenças pulmonares, é tudo uma incógnita. Ao que tudo indica, estou bem, mas, mesmo assim, continuo me protegendo”, indica.  

Ou seja, Reinaldo não anda sem máscara e faz questão de dar o exemplo. “Muita gente fala ‘mas você já pegou, está imune, por que usa máscara?’ Por dois motivos, pela falta de informação sobre o vírus e porque não quero ser um mau exemplo para as outras pessoas, o ideal é que todos usem a máscara e mantenham o distanciamento um do outro no cotidiano, e eu vou seguir essas orientações”, frisa.  

Enfermeira, Keity Marielle Alberto Rodrigues, 30 anos, também foi diagnosticada com coronavírus em abril e chegou a ficar internada para se recuperar de um desconforto respiratório. “Minha recuperação foi ótima, graças a Deus. Poder sair na rua foi bom, muito engraçado, muitas pessoas corriam de mim, porém, muitas vieram até mim para conversar, saber como foi, como estava, saber os sintomas, como eu me cuidava dentro de casa, como cuidava do meu filho e esposo dentro de casa, muita gente curiosa, sim. Mas muitas pessoas com medo de mim também. Isso é normal”, acredita. 

 
 

DE VOLTA AO COTIDIANO  

A advogada Kézia Miranda, 30 anos, não sabe ao certo onde foi contaminada com o novo coronavírus. Em janeiro, ela esteve em Portugal, depois, em São Paulo, onde começou a sentir os primeiros sintomas e, posteriormente, na Bahia, ela percebeu que algo estava errado. “Na Bahia, eu monitorei minha temperatura e cheguei a ter 39 graus de febre. Resolvi adiantar meu retorno para Campo Grande e em 20 de março cheguei à cidade. Fui até a UPA da Vila Almeida e a médica que me atendeu decidiu fazer o teste para a Covid-19”, diz.  

O resultado veio com a orientação de permanecer em isolamento em casa, o qual ela cumpriu por 24 dias. “Tive muita febre, perda de apetite, olfato e paladar. Eu ficava com aboca meio sem o gosto, além de muita diarreia”, frisa. Da sensação de que iria morrer até a recuperação foi um longo caminho, marcado pelo autocuidado. “Quando estava há 14 dias isolada, liguei para o Samu perguntando se poderia sair. A médica que me atendeu percebeu que eu ainda estava com tosse e me orientou a permanecer mais tempo em isolamento porque eu poderia estar ainda com componentes, mesmo que reduzidos, do coronavírus”, frisa.  

No fim, Kézia ainda fez um exame completo para descobrir se ainda estava transmitindo, tudo para ficar com a consciência mais tranquila. “Eu estava com medo, outras pessoas também. Nem os familiares sabem lidar direito com a situação, na verdade, ninguém sabe. Você não tem certeza se realmente está curado, é uma celeuma em torno do assunto”, acredita.  

Aos poucos, a segurança retorna e os contatos recomeçam. “Tudo muito incerto ainda, não sabemos como é a questão da imunidade, se você pode pegar de novo”, frisa.

Mesmo sem sintomas, Kézia tem a impressão de que ganhou como sequela uma leve perda do olfato. “Não sinto os cheiros como antes”, frisa.  

De volta aos compromissos de advocacia, ela ainda usa máscara e segue os cuidados necessários. “Voltei a trabalhar normalmente”, frisa. Em relação às pessoas, ela diz há uma divergência nos comportamentos ao longo dos meses.  

“Há as pessoas que são hipocondríacas, que têm muito medo da doença, e os que não se importam e acham que o coronavírus não é grave. Algumas pessoas também perguntam sobre o vírus, os sintomas, e querem saber mais. Desmistificam a doença por meio do diálogo, acreditam que, como eu, outros também podem vencer o coronavírus”, diz.

Felpuda


Nos bastidores, conversas, ou melhor, quase sussurros, dão conta de que compromisso assumido teria prazo de validade se acontecer a vitória de aliado.

A partir de então, o papo passaria a ser bem, mas bem diferente mesmo, pois, com acordo cumprido, novos objetivos passariam a ser fonte dos desejos, e sem nenhuma moeda de troca.

No caso, não haveria mais sequer um fio de bigode. Tipo, cada um na sua.