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CRÔNICA

Desperta-nos

Por Theresa Hilcar
05/04/2020 09:36 - Da Redação


 

O cenário é idêntico aos filmes de ficção científica. Curiosamente percebo que, com exceção dos filmes de zumbis (que detesto) não há muito que assistir. Ou eu já assisti todos, vai saber. Em quase duas semanas de isolamento, que no meu caso significa mesmo isolamento total - já que moro sozinha, percebo que os dias, nunca são iguais por mais estranho que isto pareça.  

Logo no início, e seguindo conselhos de especialistas (aliás, o que não faltam são especialistas) tentei me impor uma rotina, mínima. No oitavo dia chutei balde – mas não desperdicei a água sanitária. Resolvi que vou acordar e dormir na hora que tenho vontade. As únicas coisas que mantenho são a caminhada na esteira e as orações. Fora disto, deste recurso físico e espiritual de sobrevivência, estou vivendo como da filosofia Zen: o aqui e agora, um dia de cada vez.

Isto não me impede de acordar todos os dias, olhar a janela e as ruas meio vazias e lembrar, não sem espanto que há algo muito ruim acontecendo lá fora. Algo inimaginável até a pouco menos de 30 dias. Sim, porque poucas pessoas – que não fossem da área de saúde – poderiam prever que estaríamos vivendo num clima de guerra num “País tropical abençoada por Deus”, como cantava Simonal.

Uma guerra silenciosa, sem armas, gritos, estrondos. Nestas horas tento imaginar como se sentiam as pessoas que viveram guerras. E as que ainda vivem. Que dormem com medo de uma bomba explodir no meio da noite na sua rua, ou no seu quarto. Pessoas que vivem cenas diárias de desespero, muitos sem saber sequer se terão o que comer no dia seguinte. Gente que clama por um simples gole de água. São guerras diferentes, nem por isto menos importante.

A bem da verdade, não estávamos preparados para passar por esta Pandemia. O vírus nos pegou de jeito. Sem estrutura física e mental. É quase um salve-se quem puder, em meio a inverdades, irresponsabilidades e desinformação que ronda, diuturnamente, nossos aparelhinhos celulares. Todo mundo tem algo a compartilhar, uma verdade, uma tese, um vídeo, às vezes uma oração e muita, muita piada ruim. Às vezes cansa. Muitas vezes você tem que ponderar se vale a pena compartilhar alguma coisa, mesmo sendo pertinente. Se não é melhor praticar o silêncio.

Mas também não estamos acostumados com silêncios. Muito menos os internos. Mas vai chegar um momento em que ficaremos sem distrações. Daqui a pouco não haverá mais filmes, nem posts novos, nem gente disponível para conversar online. Daqui a pouco a casa não terá mais o que limpar, as roupas estarão todas limpas, passadas e guardadas, porque você não precisa delas. Meu palpite é que não demora muito para ficarmos enfadados, entediados, desesperados.

Durante a poderosa benção URBI ET ORBI, o papa Francisco nos apontou uma saída: despertar e ativar a solidariedade. Aproveitar o Isolamento para ouvir nosso coração. Ter coragem para abrir espaço e permitir novas formas de hospitalidade. Deixar ir embora o que não é nosso. Deixar ir a pressa, o medo, a inutilidade de tantas coisas, as falsas seguranças, as tentativas de nos anestesiar do sofrimento.

Escrever para mim é forma que tenho para não cair no limbo da desesperança. Rezar é a forma que encontro para pedir de todo o coração: Senhor desperta-me! Espero, ardentemente, que você, caro leitor, encontre a sua. Vamos nos falando por aqui. Saúde!

 

Felpuda


Pré-candidatos que em outras eras cumpriram mandato e hoje sonham em voltar a ter uma cadeira para chamar de sua estão se esmerando em apresentar suas folhas de trabalho. O esforço é grande para mostrar os serviços prestados, mas estão se esquecendo que a cidade cresceu, os problemas aumentaram e aquilo que já foi tido como grande benefício hoje não passa da mais simples obrigação diante do progresso e das novas exigências legais. Assim sendo...