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ENTREVISTA

Dira Paes está no ar na reprise de “Fina Estampa”

A atriz chama a atenção para a temática da violência contra a mulher
03/06/2020 17:00 - Caroline Borges/TV Press


 

A trama de “Fina Estampa”, da Globo, pode até ser uma reprise. No entanto, para Dira Paes, a edição especial da novela de Aguinaldo Silva segue mais atual do que nunca. Quando viveu a batalhadora Celeste na trama das nove, a atriz encabeçou um forte enredo sobre violência doméstica. A melhor amiga da protagonista Griselda, papel de Lilia Cabral, sofria nas mãos do marido abusivo, Baltazar, vivido por Alexandre Nero. Quase 10 anos após a exibição original do folhetim, Dira viu poucos avanços positivos com relação ao tema. E para agravar a situação, durante o período da quarenta em virtude da pandemia do Covid-19, os casos de violência contra a mulher só cresceram. “A novela ressuscita o tema com muita atualidade. Na época da novela, era muito importante fazer campanhas estimulando a denúncia e a não cumplicidade. Claro que é muito difícil interferir em um seio familiar, mas, ao mesmo tempo, não podemos ser passivos. Lembro da campanha de uma ONG que sugeriu um apitaço quando se ouvisse algum tipo de violência. Seria uma espécie de código. Frear o feminicídio, que cresceu enormemente nos últimos anos, é algo de extrema importância. Infelizmente, vi que avançamos muito pouco em políticas de proteção”, lamenta.  

Natural de Abaetetuba, no interior do Pará, e criada em Belém, Dira é uma das poucas atrizes que conseguem achar um equilíbrio frutífero entre a tevê e o cinema. Com uma trajetória recheada de filmes, a atriz ganhou maior repercussão na televisão ao viver a estabanada e divertida Solineuza, da série “A Diarista”. Nas novelas, Dira ficou bastante marcada pelas mulheres fortes e de personalidade, como a Norminha, de “Caminho das Índias”, e a Lucimar, de “Salve Jorge”. Em “Fina Estampa”, a atriz experimentou uma personagem mais introspectiva. “O que me atraiu na Celeste foi a personalidade dela, tão contrária à minha. Eu não conseguiria ter a passividade da Celeste”, relembra.  

P – Como tem sido a repercussão do público com a exibição da reprise de “Fina Estampa”?

R – O público reage de diversas formas. Na maioria das vezes, da forma mais elogiosa e defendendo também a importância desse personagem ainda no cenário atual. A novela transmitiu uma mensagem muito importante. Quando a gente consegue unir a arte com conscientização social, as ideias são propagadas em uma velocidade muito grande. Valeu muito a pena fazer e está valendo a pena rever.

P – Como foi seu processo de composição para a personagem?  

R – Para viver a Celeste, eu mergulhei fundo nas experiências das mulheres que sofrem violência doméstica e não conseguem sair do ciclo vicioso dessa violação. Mulheres que não conseguem denunciar os maridos. Era nesse lugar que eu via a Celeste. Eu pensava no que fazia essa mulher ter a imobilidade de pedir ajuda, o que a deixava imóvel para não denunciar. O mais difícil para mim foi construir essa mulher passiva e que não conseguia sair desse ciclo de violência.

P – Por quê?  

R – Durante as pesquisas, essa foi uma das questões que mais me impressionou. Mulheres que tinham 20 ou 30 anos de violência. Esse era o mote da Celeste. Ela não conseguia pedir ajuda, se organizar para denunciar. Além disso, ela tinha uma filha mais contemporânea que ela e queria viver o mundo. Não foi fácil fazer porque era um assunto delicado e profundo. Dentro de uma novela há vários aspectos, a minha personagem ficava entre a comédia e a tragédia. Isso foi desafiador. A presença de “Fina Estampa” nesse momento da pandemia ressuscitou esse tema e me fez ver que não avançamos muito nessa política de proteção a quem sofre de violência.

P – Você está conseguindo acompanhar a reprise da novela?  

R – Sim, mas estou sentindo um estranhamento que não esperava sentir (risos). Achei que teria uma sensação de nostalgia, mas fui perceber que eu não lembrava de muitas situações e cenas. Comecei a me questionar se isso era alguma falha da minha memória ou não. Estou tendo ótimas surpresas, mas me incomoda não poder antecipar a história. Claro que não vou lembrar de tudo de todos os trabalhos. Afinal, é um grande volume de cenas e textos. Mas depois as cenas começaram a fluir.

P – Como assim?

R – Depois que vou embarcando na história, vou vendo onde acertei ou onde errei. Pensando que, se fosse hoje em dia, talvez eu tivesse feito de forma diferente. Surgem inúmeros questionamentos. A gente vai engrenando e revivendo a cena. Às vezes, é como se eu tivesse acabado de ler o texto e gravar a cena. Sinto o que senti com o personagem e não como Dira. É como se eu estivesse revivendo um passado, onde o ritmo da vida era outro.  

P – Tem alguma cena específica que você espera rever?  

R – Eu gosto muito da relação da Celeste com a filha. Mesmo a mãe sendo violada física e moralmente, ela apoia a filha, guarda o segredo da filha e se arrisca pela filha. A Celeste quer que a filha corra atrás dos sonhos para não repetir o ciclo de frustração dela. Gosto da sequência em que ela vê a filha dançando e cantando em um baile funk e sente um orgulho enorme. É uma realização através de um filho.

P – Na história, a Celeste é melhor amiga da protagonista Griselda. Como foi a parceria com a Lilia Cabral ao longo da novela?

R - A Lilia Cabral é uma atriz fabulosa, ela tem uma objetividade no olhar. Ela se expressa muito com os olhos. É muito legal ter a possibilidade de se encantar com seu parceiro de cena. E eu gostava muito de assistir à Lilia trabalhando. Acho que a Griselda foi uma grande personagem e ela, uma grande parceria de trabalho. Ela contracenava com todo mundo da novela. Era uma daquelas personagens que exigem muito da atriz, não só na parte da interpretação, mas fisicamente falando também.

P – De que forma você está lidando com o período da quarentena?

R – Estou aproveitando esse período para reafirmar os meus afetos, arrumar as minhas gavetas e tentar ser útil para as causas das pessoas que estão totalmente desamparadas e precisam da nossa solidariedade, da nossa generosidade. Dessa situação difícil que estamos vivendo, há também momentos lindos onde o afeto está aflorado. Temos que fazer com que esse sentimento se mantenha para sempre.

Aulas em casa

A pandemia do novo coronavírus modificou a rotina de inúmeros lares. Na casa de Dira Paes, por exemplo, o dia a dia também foi alterado. Com as escolas fechadas, a atriz viu seus filhos Inácio e Martim, de 12 e 4 anos, respectivamente, começarem a frequentar aulas por videoconferência. Por isso mesmo, ela passou a auxiliar na educação dos dois. “O Inácio já está em uma fase que há um compromisso maior com a escola. Mas, com o Martim, a gente assumiu esse papel da escola. Com esses mais jovens, a gente tenta não deixar esse fio da escola se romper. Fazemos o que a escola sugere, mas temos sorte de morar em uma casa com bicicleta e que permite corre. Assim, a gente consegue mesclar a rotina. Está sendo bonito ver o Martim descobrir as letras”, avalia.

Para Dira, o mundo vai sair bastante modificado da pandemia e, inclusive, o papel de ser mãe. A função maternal vem se atualizando com o mundo. No dia a dia, além de educar, a atriz também aprende bastante com os filhos. “Acho que vamos ter novos valores e afetos. Eu preciso me alfabetizar digitalmente para entender esse mundo que se apresenta para os meus filhos. Quando fiz uma videoconferência, quem me colocou ‘online’ foi meu filho Inácio. Às vezes, os papéis se invertem. Ele que virou meu guardião naquela situação”, ressalta.

Tapete vermelho

Há três anos consecutivos, Dira participa da transmissão do Oscar pela Globo. Ela divide a função com a dupla Maria Beltrão e Artur Xexéo. A atriz ressalta a chance de ter um espaço dentro da tevê para falar de cinema. “Falo sobre algo que me dá prazer e me alimenta profissionalmente. Gostei muito de participar. É uma grande responsabilidade, mas tem o prazer de estar falando e pensando sobre cinema. Eu me sinto muito afinada com este sentimento que acontece no mundo todo em torno do Oscar. Antes de eu nascer e virar atriz essa festa já acontecia. É um marco na agenda anual de quem gosta de filmes”, valoriza.

A preparação para encarar a longa cerimônia não é fácil. Geralmente, a atriz conta com mais de 50 filmes para ver e analisar. “Uma das coisas mais prazerosas é se organizar para ver os filmes selecionados. Geralmente guardo na memória o que aquela obra causou de impacto em mim e, depois, como ela se comporta num cenário de vários filmes”, aponta.  

Instantâneas

# Dira Paes gravou uma participação na série “As Five”, “spin-off” de “Malhação – Viva a Diferença”, que ainda não tem data de estreia prevista para o Globoplay.

# A atriz está cotada para integrar o elenco da macrossérie “O Selvagem da Ópera”, de Maria Adelaide Amaral.

# A irmã de Dira, Eneida Paes, que é pnemologista, está na linha de frente do combate ao novo coronavírus no Pará.

# O último trabalho de Dira na tevê foi em “Verão 90”.

Felpuda


Dia desses, há quem tenha se lembrado de opositor ferrenho – em público –, contra governante da época, mas que não deixava de frequentar a fazenda de “sua vítima” sempre que possível e longe dos olhos populares. Por lá, dizem, riam que só do fictício enfrentamento de ambos, que atraía atenção e votos. E quem se lembrou da antiga história garantiu que hoje ela vem se repetindo, tendo duas figurinhas carimbadas nos papéis principais. Ô louco!